'Misericórdia': Bethânia canta clássicos sem esquecer do Brasil que a faz chorar

entretenimento
14.02.2021, 00:05:00
Atualizado: 09.04.2021, 17:23:35

'Misericórdia': Bethânia canta clássicos sem esquecer do Brasil que a faz chorar

Cantora falou de Salvador sem carnaval e homenageou menino Miguel, que morreu depois de cair do nono andar de um prédio, em Recife

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Maria Bethânia não teme os dias 13. Para ela, eles não remetem ao azar, pois marcaram sua história até aqui. Neste dia 13 de fevereiro, sábado sem carnaval, a cantora fez um tributo à saudade, às memórias e ao futuro que parte. Falou do Brasil que a faz chorar, na esperança de um que a faça sorrir. “Qualquer amor já é um pouco de saúde”, falou, citando Guimarães Rosa, em sua estreia no mundo das lives, sobre um palco sem plateia.

Pela primeira vez em décadas, Bethânia não passou o dia 13 de fevereiro em Santo Amaro da Purificação, onde participa tradicionalmente de festividades religiosas nesta época do ano. Também não recebeu amigos, com os quais costuma brindar a sorte deste dia, em que estreou no Rio de Janeiro, em 1965, no show Opinião, e desfilou no enredo da Mangueira, que a homenageou no Carnaval de 2016. “Apesar das ruínas e da morte, a força dos meus sonhos é tão forte, que de tudo renasce a exaltação”, citou a poeta Sophia de Mello Breyner. 

As ruínas das mortes da pandemia do coronavírus, da situação política e social do Brasil e a esperança de uma primavera que chegará - “mesmo que ninguém mais saiba seu nome”, trecho de um poema de Cecília Meirelles na voz de Bethânia - deram o tom do show. Vestida de branco, ela mesclou clássicos do seu repertório, como Olhos nos Olhos, com canções do novo álbum, intitulado 2 de junho, e entregou um show expressivo politicamente. “Eu quero vacina, respeito, verdade e misericórdia”, protestou, ainda no começo da apresentação. 

A música Explode Coração, de Gonzaguinha, foi a escolhida para abrir a performance da baiana, que estava acompanhada por quatro músicos. A direção artística da live, transmitida pela Globoplay, foi de LP Simonetti, que assinou shows online de Caetano Veloso, Roberto Carlos, Paulinho da Viola e Ivete Sangalo. A live ficará disponível para assinantes do streaming da Globo. 

“Penso no Brasil sem carnaval, sem o grande desfile, em Salvador, no Recife com suas ruas lindas e desertas. Vim a rigor de branco para festejar com os senhores. Eu sinto muita falta de vocês. É triste ficar longe”, compartilhou Bethânia, sem os aplausos, seu “fio condutor”

A música que dá nome ao seu novo álbum, composição de Adriana Calcanhoto sobre a morte do menino Miguel, filho da empregada doméstica Mirtes Renata, foi um dos momentos mais emocionantes e comentados nas redes sociais. O menino morreu depois de cair do nono andar de um prédio de luxo no Recife, quando Mirtes acreditava que a patroa, Sari Corte Real, tomava conta dele.

“Cantada por Maria Bethânia, sobre algo que aconteceu a uns 2 kms daqui ouvir e ver hoje, me pegou de jeito”, escreveu o diretor Kleber Mendonça Filho, depois que Bethânia emendou a canção-homenagem com o Poema do Menino Jesus, de Fernando Pessoa. “Eu tive um sonho como uma fotografia/ Eu vi Jesus Cristo descer à Terra/Ele veio pela encosta de um monte/ Mas era outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva/ A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo/ A ouvir-se de longe/ Ele tinha fugido do céu”, declamou.

Lamento e esperança

A apresentação, que durou pouco mais de uma hora, das 22h às 23h12, marcou os 56 anos de carreira da cantora. Além do irmão Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa já tinham se apresentado no formato de live. Bethânia resistia, mesmo depois de pedidos insistentes dos fãs. 

“Sinto muita falta de vocês todos e sinto fundo. É triste ficar longe, eu não gosto. Mas tenho boa memória, o que garante a grandeza do nosso encontro. Obrigada a todos que confiam do meu canto”, agradeceu, depois de ceder aos pedidos.

Durante a mais de uma hora de apresentação, os comentários se voltaram para Bethânia, à vontade ao formato que demorou para aderir. Caetano Veloso, seu irmão, assistiu à live da cantora, que repetiu o casamento entre texto e música no show. A união de prosa, poesia e música é herança do diretor Fauzi Arap, quem ela considera um mestre. 

O espectador e irmão Caetano foi homenageado pela irmã, que o dedicou a canção "Luminosidade". "Eu quero dedicar essa canção que eu vou cantar ao meu irmão Caetano, e faço um pedido para Zeca, seu filho e meu sobrinho querido: Queria que o Zeca cantasse essa música", disse a cantora.

A emoção ecoou nas redes sociais, de anônimos ou de famosos, como Daniela Mercury. 

A atriz e apresentadora Regina Casé também se emocionou. “Não sei se olho, se choro, se ouso cantar junto”, escreveu, em uma publicação no Instagram. No Twitter, Jean Willys opinou: “Maria Bethânia é divina, no sentido mais religioso dessa palavra. Inteligente, sensível e misteriosa. O roteiro do show reflete isto". 

Em busca de uma primavera 

Sem aplausos, Bethânia não preencheu o vazio do silêncio com longos monólogos para o público. Não se estendeu no tempo nem quando contou suas memórias de mais de cinco décadas de carreira. Dialogou com o público por meio de poemas e das músicas, enoveladas umas às outras. Assim, construiu o início, meio e fim de uma narrativa que convergiu com a situação do Brasil - e dos brasileiros.

Primeiro, essa história cantada por Bethânia começa mais lamuriosa, saudosa e triste, para logo depois chegar ao amor e, por fim, à esperança. “Obrigada a todos que confiam no meu canto. Obrigada, Oyá, obrigada, Oxum, e todos os anjos que me habitam”, agradeceu Bethânia. O repertório do show variou de Chico César, compositor de três das músicas cantadas por ela, a Gonzaguinha, e José Augusto e Paulo Sérgio Valle, que assinam “Evidências”. 

“[Hoje] é um dia grande para mim, e aprendi com minha mãe que se deve festejar datas grandes”, falou a cantora.

Ao fim da apresentação, ela nem precisou se despedir diretamente do público. O que queria dizer, estava cantado. Terminou o show com “Sonho Impossível”, de Chico Buarque e Ruy Guerra. E, ao cantar “Sonhar mais um sonho impossível, lutar quando é fácil ceder”, trazia à tona, mais uma vez, a história da primavera. Uma estação que chegará com suas flores, ainda que haja caos e ninguém se lembre o nome dela.

SETLIST

Explode coração - Gonzaguinha. 
Quirimurê - Jorge Vercillo e J. Veloso 
Lapa Santa - Paulinho Dafilin e Roque Ferreira
De onde eu vim - Paulinho Dafilin 
Onde estará o meu amor - Chico César
Gostoso demais - Dominguinhos e Nando Cordel
Estado de Poesia - Chico César 
Doce - Roque Ferreira
Eu e água - Caetano Veloso
Vento de lá - Roque Ferreira
Balada de Gisberta - Pedro Abrunhosa
2 de junho - Adriana Calcanhoto
Cálice - Chico Buarque
Doce Mistério da vida - Rida Johnson Young / Victor Herbert / Vrs. Alberto Ribeiro
Bar da noite - Haroldo Barbosa
Evidencias -  José Augusto, ‎Paulo Sérgio Valle‎

Lama - Alice Chaves 
Negue - Adelino Moreira
Olhos nos olhos - Chico Buarque
Chorei - Paulo Vanzolini 
Meu amor é marinheiro -  Manoel Alegre
Recôncavo Reconvexo - Caetano Veloso medley Minha Senhora - Dona Edith do Prato
Luminosidade - Chico César
 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas