Morador é torturado e morto após foto com sinal de facção rival na Federação

salvador
19.07.2018, 15:01:00
Atualizado: 19.07.2018, 16:54:14
(Foto: Mauro Akin Nassor/ Arquivo CORREIO)

Morador é torturado e morto após foto com sinal de facção rival na Federação

Traficantes filmaram execução e espalharam vídeo na internet

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A execução a tiros não foi o suficiente. A barbaridade teve que ser filmada e disseminada como mais uma demonstração de força contra rivais. Em um vídeo que circula no aplicativo WhatsApp, o rapaz arrastado seminu e depois executado seria o jovem Mateus Paranhos da Silva, 22 anos, encontrado na noite desta quarta-feira (18) com pelo menos cinco tiros na localidade de Baixa da Égua, no bairro do Engenho Velho da Federação.  

Apesar de moradores do local afirmarem que o rapaz do vídeo é Mateus, a Polícia Civil não confirmou, mas disse que, em relação à morte dele, ainda não há autoria e motivação para o crime.

O CORREIO apurou com moradores que o rapaz sofreu uma emboscada, porque circula nas redes sociais uma foto dele fazendo com uma das mãos a saudação da facção Bonde do Maluco (BDM). A área onde o corpo de Mateus foi encontrado é dominada pela rival Comando da Paz (CP).

Ainda de acordo com a Polícia Civil, parentes de Mateus disseram que ele foi chamado por um amigo para sair e que depois de um tempo, o corpo foi jogado na Rua Neide Gama, transversal da Baixa da Égua, em frente à Escola Municipal Vale da Federação, onde o tráfico de drogas é controlado pela CP. 

Mateus morava na Localidade do Forno, onde o tráfico é dominado pela facção BDM. Segundo moradores, ele foi capturado e morto por um grupo de homens que o levaram até o território do CP. O caso é apurado pelo Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP).

O CORREIO esteve mais de uma vez na manhã desta quinta-feira (19) no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IML) e não encontrou os parentes de Mateus.

Vídeo
O vídeo que circula no WhatsApp tem 19 segundos e foi gravado à noite. O rapaz aparece sendo arrastado em um beco, com as mãos amarradas para trás, puxado pela única peça de roupa - uma camisa rosa. O rosto dele aparentava estar inchado, possivelmente, por conta de agressões. 

Em seguida, é possível ver o rapaz numa roda com outros homens. Alguém grita: “calma desgraça, calma desgraça” e pelo menos cinco tiros são escutados no áudio, seguido de um barulho de correria. Depois disso, a gravação é encerrada. 

Lamento
O CORREIO esteve pela manhã no Engenho Velho da Federação e conseguiu poucas informações do crime. Na Baixa da Égua, uma mulher contou que traficantes do Forno lamentaram a morte de Mateus.

“O que eu sei é que um rapaz disse: ‘Não acredito que ele morreu’. E em seguida, um outro que estava ao lado dele falou: ‘Pior foi quem levou ele para uma laranjada’. Ele quis dizer que armaram para o rapaz”, contou ela, sem revelar como conseguiu as informações. 

Tudo 3
No Vale da Muriçoca, pessoas que conheciam Mateus disseram que ele não tinha envolvimento com o tráfico. “Pra mim, quem tem envolvimento é quem vende droga e quem anda armado, o que nunca vi ele fazer. Ele estava desempregado e fazia bico de mototaxista”, disse um rapaz em uma barbaria. 

O rapaz falou que, após à morte de Mateus, circula nas redes sociais uma foto dele fazendo com uma das mãos a saudação da facção Bonde do Maluco (BDM). “Ele parece fazendo ‘Tudo 3’. Hoje em dia é obrigado mostrar aos caras que se é da área, mas nunca o vi com arma”, contou. 

Reinaldo, o Fofão, é uma das lideranças da CP no Engenho  Velho da Federação (Foto: Divulgação)

Arrastado
Ainda de acordo com o rapaz da barbearia, Mateus e um amigo estavam numa moto e passavam na Avenida Cardeal da Silva, pouco depois das 19h. Mateus, que pilotava a moto, foi surpreendido por um grupo, que saiu de um beco em frente ao campus da Universidade Católica do Salvador (Ucsal). 

“Tava tudo engarrafado e os caras surgiram do nada e bafaram (sic) ele da moto e o levaram para o beco que dá na Baixa da Égua. O amigo dele conseguiu fugir, mas não sei como”, relatou o rapaz.

CP
Atualmente, o tráfico de drogas da facção CP atua na Baixa da Égua, Forno e Milho, onde três nomes despontam na liderança. As informações são de policiais civis da 7ª Delegacia (Rio Vermelho) e que atuam na área do Engenho Velho da Federação. 

Na Baixa da Égua, o mais temido chama-se Reinaldo, conhecido como Fofão. Ele responde por roubo e é suspeito de ordenar e praticar homicídios. “Ele é muito violento. O nome dele é citado em pelo menos dez homicídios, seja como mandante, seja como autor”, revelou o policial. No Forno, o comando é de João Vitor e no Milho a liderança é de José Nilton.

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