Mostra Lorenzo Turner tem fotos e áudios raros registrados por americano

Exposição
23.11.2015, 10:54:00
Atualizado: 23.11.2015, 16:15:20

Mostra Lorenzo Turner tem fotos e áudios raros registrados por americano

Exposição no Palacete das Artes inclui antigas gravações em áudio de Mário de Andrade e de personalidades do candomblé

Aos 45 anos de idade, entoando cânticos do candomblé, a iorubá Mãe Menininha do Gantois (1894-1986) tinha ainda a voz suave de uma garotinha. Finalmente, os baianos poderão testemunhar isso a partir de amanhã, quando será aberta, no Palacete das Artes, às 19h, a exposição Gullah, Bahia, África.

A gravação, que poderá ser ouvida pelos visitantes, é o mais antigo registro vocal da religiosa e foi feito pelo americano Lorenzo Dow Turner (1890-1972), linguista americano que viajou o mundo pesquisando línguas africanas.

Lorenzo Turner esteve na Bahia em 1940. Aqui, registrou a voz de descendentes de africanos e fez fotos como as que ilustram essa matéria (Fotos: Colecao Lorenzo Dow Turner)

A exposição possui áudios, documentos e artefatos coletados por Turner em suas viagens ao Brasil, à África e a estados americanos. Há também fotos feitas pelo próprio pesquisador, como as que ilustram essa matéria.

A mostra é uma iniciativa cultural da Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil e chega a Salvador em uma parceria com a Fundação Pedro Calmon (FPC). “Essa exposição estimula o conhecimento das culturas baiana, africana e americana.

E quando negociávamos a vinda desse acervo, percebemos também que havia um importantíssimo registro sobre a religiosidade de matriz afrobrasileira na Bahia”, diz Zulu Araújo, presidente da FPC.

O candomblé despertou interesse em Lorenzo, que fotografou o terreiro do Bogum, na Federação
 (Fotos: Colecao Lorenzo Dow Turner)

Lorenzo chegou a Salvador em outubro de 1940, para registrar a presença de línguas africanas na Bahia. Foi assim que ele chegou até Mãe Menininha e outras personalidades ligadas ao candomblé, como  Joãozinho da Gomeia, Manoel Falefá e Mestre Bimba.

São essas pessoas que aparecem em algumas das gravações que estarão disponíveis aos visitantes até 31 de janeiro. O acervo pertence ao Anacostia Community Museum, em Washington, DC, nos EUA e foi doado à instituição pela viúva de Turner, Lois.

Língua
A palavra “gullah”, que integra o nome da exposição, é uma língua crioula baseada no inglês, falada por descendentes de africanos que viviam nos EUA. Turner foi à Geórgia e à Carolina do Sul, dois estados americanos, para registrar nativos se comunicando por meio desse idioma.

À esquerda, os portos de Salvador, registrados por Lorenzo Turner. O Elevador Lacerda também aparece na imagem, ao fundo. Acima, um anônimo fotografado pelo pesquisador, durante sua passagem pela Bahia
 (Fotos: Colecao Lorenzo Dow Turner)

O levantamento feito pelo pesquisador é considerado de grande importância histórica, já que, antes, havia um preconceito contra o gullah, que era considerado apenas uma língua infantil, ou um inglês mal falado.

Mas os estudos de Turner validaram a influência das línguas africanas na América e provaram que o gullah não era um inglês mal falado. Turner foi também para Londres, onde aprofundou seus estudos de linguística, no curso de Fonética e Línguas Africanas Ocidentais na Escola de Estudos Orientais. Ali, percebeu a relação entre o gullah e outros idiomas africanos, como ewe, efik, gã, axânti e iorubá.

Depois de quatro anos em Londres, Turner veio para o Brasil. Passou inicialmente no Rio de Janeiro, então capital do país. Foi lá que fez um outro precioso registro: a voz do escritor Mário de Andrade (1893-1945), cantando, em uma roda de amigos. Essa gravação também estará disponível em Salvador.

O babalaô baiano Martiniano Eliseu do Bomfim, filho de escravos, ao lado de duas crianças não identificadas
 (Fotos: Colecao Lorenzo Dow Turner)

Do Rio, Turner veio para a Bahia, onde entrevistou os descendentes de africanos. “Na Bahia, ele encontrou pessoas que ainda falavam línguas africanas que haviam formado a língua gullah nos Estados Unidos”, diz Alcione Amos, curadora da exposição.

Amos vai realizar uma série de palestras em Salvador. Hoje, às 9h30, na Biblioteca dos Barris, terá um encontro com bibliotecários e museólogos, para falar sobre curadoria.

No mesmo local, às 17h, vai falar sobre a história dos afro-brasileiros que voltaram para a África no século XIX. Quarta-feira, às 17h, no Palacete das Artes, a curadora Alcione Amos conversará com o público sobre a exposição. Todas as atividades são abertas ao público.

Mãe Menininha, a quarta da esquerda para a direita. Na mostra, há também registros da religiosa cantando
 (Fotos: Colecao Lorenzo Dow Turner)

Acervo da mostra estará disponível na internet
Em breve, os baianos que não puderem ir à exposição Gullah, Bahia, África poderão conhecer pela internet o acervo que estará no Palacete das Artes a partir de amanhã.

A parceria entre a Fundação Pedro Calmon e o Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro prevê a assinatura de um termo de doação do acervo digital à Biblioteca Virtual Consuelo Pondé (www.bvconsueloponde.ba.gov.br), que integra a Fundação Pedro Calmon. Fundado em 2011, o site, idealizado pelo Prof. Ubiratan Castro de Araújo, foi criado para difundir a História da Bahia.

Em quatro anos, a Biblioteca realizou exposições virtuais, levantamento de acervo e transmissão on line de cursos e outras atividades da Fundação Pedro Calmon. Entre as mostras atualmente armazenadas, está uma sobre a revista Seiva, que defendia os ideais comunistas e tinha textos escritos por membros do Partido Comunista do Brasil.

Há também uma seção dedicada à Revolta dos Búzios, que aconteceu na Bahia no final do século XVIII e foi conhecida também como a Revolução dos Alfaiates.

O acervo inclui a reprodução de manuscritos emitidos na época do movimento e a transcrição de documentos que registravam fatos ligados à Revolução na Bahia. 


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