Museu de Imprensa resgata e preserva memória da Bahia

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13.08.2020, 06:00:00
Ilustração de Raul Pederneiras na revista Única; O Imparcial, dos anos 1930, revelou-se integralista (Reprodução: Nilton Souza)

Museu de Imprensa resgata e preserva memória da Bahia

Espaço será inaugurado nesta segunda (17), na sede da Associação Baiana de Imprensa

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A história da imprensa baiana está passando por um processo de resgate e, finalmente, vai estar ao acesso de qualquer cidadão. Nesta segunda-feira, às 10h, será inaugurado, em cerimônia virtual, o novo Museu de Imprensa, que vai funcionar na sede da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), instituição que comemora 90 anos de fundação nesse mesmo dia. A visitação para o público começa a partir do dia 31, com agendamento prévio, para atender às determinações da prefeitura relacionadas à covid-19. A transmissão da cerimônia de abertura será realizada pelo Facebook e pelo YouTube da ABI.

O museu, fundado há 43 anos, estava praticamente desativado e passou por um processo de reimplantação comandado pelo arquiteto Augusto Ávila. Passará a ocupar uma área maior que a antiga, no mesmo prédio, na Praça da Sé, onde fica a sede da ABI. A programação visual do espaço é de Enéas Guerra e Valéria Pergentino. A exposição que inaugura o espaço tem curadoria do jornalista e pesquisador Nelson Cadena, colunista do CORREIO e a reprodução das fotos expostas é de Nilton Souza.

“O Museu é um equipamento cultural que não apenas preserva e resgata a memória da imprensa baiana como incentiva pesquisas, e atende a demandas de informação de estudantes, além de ser mais um espaço da cidade para visitação turística”, diz Cadena.

Para essa primeira exposição, foram criados painéis que contam a história da imprensa baiana, dedicados a temas diferentes. O maior deles, de 16 metros quadrados, é dedicado à imprensa escrita. Ali tem, por exemplo, a foto de um prelo de madeira, equipamento que foi usado para imprimir o primeiro diário baiano, Idade D'Ouro do Brasil. Tem também reproduções de jornais extintos da Bahia, como O Guaycuru, O Imparcial e A Hora.

Também estão reproduzidas as capas das primeiras edições dos três jornais de maior circulação no estado atualmente: CORREIO, A Tarde e Tribuna da Bahia. O  CORREIO, que na época ainda era Correio da Bahia, trazia em seu lançamento, no dia 15 de janeiro de 1979, a manchete: “Descoberta na Bahia a maior mina de ouro do Brasil”.

A Renascença era marcada por imagens da  vida social da Bahia e O Papão foi criado por Ernesto Simões Filho, fundador do A Tarde

Importância
Walter Pinheiro, presidente da ABI, fala sobre a história da imprensa escrita e a importância do museu: “É um lugar onde a pessoa vai se inteirar do que é a imprensa e da evolução dessa instituição. A Bahia chegou a ter 50 publicações diárias e as notícias chegavam pela mídia impressa. Num período, havia três edições diárias: uma pela manhã; outra, à tarde, e uma terceira à noite”. 

Além disso, Pinheiro destaca que a mídia impressa tinha mais independência que as rádios, já que não precisavam de concessão para funcionar: “Rádio não tratava de assuntos delicados perante autoridades porque podiam temiam ter o funcionamento cassado”, conta. 

Renata Ramos, museóloga que há quatro anos é responsável pelo Museu de Imprensa, fala sobre a importância de cultivar a memória:

“O Museu é relevante para a preservação da história dos jornalistas baianos e da imprensa, para realçar o papel do museu em nosso universo cultural, resgatar e reconhecer o Patrimônio Material e Imaterial da sociedade baiana, valorizando suas formas de fazer e viver a cultura”.

A televisão, o rádio, a mídia alternativa também tem painéis dedicados à sua história. A trajetória de Ruy Barbosa (1849-1923) no jornalismo também ganha destaque. O baiano, mais conhecido por sua atuação como político e jurista, também teve atuação importante no jornalismo e iniciou sua carreira no Diário da Bahia. Ali, também escreveram Manoel Vitorino e Luiz Vianna.

Máquinas de escrever antigas, maquete do prédio da ABI e equipamentos de fotografia também serão expostos em breve. A ABI também está em busca de uma das primeiras câmeras de TV usadas no estado. Cadena lamenta não ser possível trazer para o museu a mais antiga prensa da Bahia:

“Ela pesa mais de quatro toneladas e fica difícil transportar. Além disso, é muito grande e não caberia aqui”. 

Exposições
O próprio Cadena, que é um pesquisador da comunicação e da história do jornalismo, também contribuiu para a formação do acervo inicial, permitindo que seu acervo fosse fotografado e reproduzido nos painéis.

Futuramente, serão criadas exposições temáticas e já há planos de realizar uma sobre ilustradores e fotógrafos baianos, que poderá ser viabilizada através de edital. A liberdade de imprensa também deverá ser assunto de uma mostra. “A ABI possui um acervo muito importante sobre isso. Tem, por exemplo, uma caricatura feita por Raimundo Aguiar para o jornal A Hora, em que ele satirizava o então governador Antônio Muniz Sodré de Aragão e transformava a cara dele numa bunda. O jornal então foi atacado e destruído. Era um jornal virulento, muito provocador”, diz Cadena.

A ABI possui também em seu acervo bibliotecas pessoais de jornalistas como Jorge Calmon, João Falcão e Berbert de Castro. As obras são divididas entre o Museu de Imprensa e a Biblioteca de Comunicação Jorge Calmon. Está lá também parte do acervo do crítico de cinema Walter da Silveira.

Todo o investimento no museu foi realizado  com verbas próprias da ABI, cuja receita é formada principalmente pelo aluguel de praticamente metade de seu imóvel.

“O prédio tem oito andares e só usamos três. A ABI também recebe algum valor referente à mensalidade de seus associados, mas a maior parte da receita é dos aluguéis”, diz Walter Pinheiro.

A ABI tem ainda um segundo imóvel, que é a Casa de Ruy Barbosa, no Centro Histórico, onde o jurista viveu.

Os clubes sociais baianos tinham seus próprios jornais e O Gondoleiro era um deles, nos anos 1880

ABI surgiu para fortalecer jornais
Fundada em 1930, a ABI está completando 90 anos na próxima segunda-feira. A instituição surgiu num cenário tenso, conforme lembra Walter Pinheiro, presidente da associação: “Logo depois da criação da ABI, veio a Revolução de 30, que também afetou a Bahia e os jornais sofriam muita pressão para não divulgar determinadas notícias. Então, a associação veio para dar mais força aos jornais”. 

Pinheiro ressalta que, embora seja uma organização apartidária, a ABI não abre mão de lutar por direitos humanos e por liberdade de expressão. “A ABI sempre esteve atuando junto a autoridades exigindo respeito à imprensa e o direito de denunciar e defender os interesses do cidadão”, diz.

O primeiro presidente da ABI foi Altamirando Requião, que tinha o objetivo de construir uma sede para a entidade, ainda que durante o estado de sítio isso fosse muito difícil. Mas vieram ainda a ditadura de Getúlio Vargas, de 1937 a 1945 e, em seguida a II Guerra Mundial, que também se estendeu até 1945. Por isso, acabaria sendo inaugurada apenas em 2 de fevereiro de 1960. Mas o período de tranquilidade foi curto: em 1964, surgiu a ditadura militar, que permaneceu até 1985.

Uma das lutas mais frequentes da ABI, como lembrou Walter Pinheiro, foi pela liberdade de expressão. Ainda nos anos 1930, teve que enfrentar o governo de Juracy Magalhães, quando houve prisões de diversos jornalistas e políticos.

Primeira edição do CORREIO, em 15 de janeiro de 1979

Na ditadura militar, a luta seria ainda mais expressiva, já que, em 21 anos, centenas de jornalistas e outros profissionais foram agredidos, presos e encarcerados, exterminados, ou desapareceram e alguns jornais foram ocupados por censores oficiais.

Sede
O Edifício Ranulfo Oliveira, onde fica a sede da ABI, foi projetado entre 1945 e 1951. É uma edificação de arquitetura moderna estilo Le Corbusier, com uma fachada de janelas contínuas, estruturas em pilotis, cobogós e um terraço com um painel de Mário Cravo Júnior. Quem explica é o arquiteto Augusto Ávila, responsável pelo projeto e pelo gerenciamento da reforma do Museu. “Pela história e características da edificação, o meu desafio foi fazer a menor intervenção possível, para não descaracterizar a arquitetura existente”, destaca.

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