Musical celebra a força e o talento de Elza Soares

entretenimento
05.10.2018, 06:30:00
Espetáculo faz curta temporada em Salvador (Foto: Leo Aversa/Divulgação)

Musical celebra a força e o talento de Elza Soares

Estrelado por Larissa Luz e mais seis atrizes, espetáculo revela aspectos mais íntimos da trajetória da cantora

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Resistência e reinvenção. As duas palavras que guiam o espetáculo Elza poderiam facilmente definir toda a base da biografia da cantora e compositora carioca, que completa 65 anos de carreira e 88 de vida, ganhando, às 21h desta sexta-feira (05) e do sábado (06), a sua trajetória contada e cantada em palco baiano, no Teatro Castro Alves, localizado no Campo Grande. O musical apresenta os diversos aprendizados da artista Elza Soares, interpretada por sete atrizes, incluindo a cantora e atriz soteropolitana Larissa Luz, convidada especial da peça – que tem ingressos entre R$ 100 e R$ 15 (confira os valores no final da matéria).

Definido como feminista e político pela própria coordenação da montagem, o espetáculo aborda as reviravoltas e os renascimentos de uma mulher que enfrentou absurdos casos de machismo e acompanha, agora, a fase de uma nova geração consciente surgindo.

“Ela é uma figura política muito forte, porque através das músicas e da fala, está sempre valorizando o lugar da mulher. Ela nunca foi de se vitimar, pelo contrário. É um símbolo para lembrarmos como ‘levantar a cabeça’ sempre tem a ver com ser otimista e sorridente nas lutas”, afirma a diretora Duda Maia com o roteirista, Vinícius Calderoni.

Apesar dos diálogos socialmente críticos, o musical também conta com falas que abordam o amor, a solidão e outras tantas questões do autoconhecimento, prometendo um verdadeiro mergulho na mente ‘das várias Elzas’. “Vamos desde o nascimento dela até o momento atual. É mais do que uma trama sobre uma grande carreira; é sobre uma mulher forte representando todas as outras”, prossegue Maia, que guiou, além de Larissa, as atrizes Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacorte e Verônica Bonfim.

Sete atrizes interpretam as várias fases e 'os lados ecléticos' de Elza
(Foto: Leo Aversa/Divulgação)

Poético, o espetáculo brinca com as quedas literais e metafóricas da cantora, inclusive, indo desde a morte do filho de Elza com Garrincha, em acidente de carro em 1986, até a queda da cantora em um show na Metropolitan em 1999. Mas essas quedas nunca aparecem em tom derrotista. Marcada por uma série de tragédias pessoais, como, ainda, a violência doméstica, a jornada de Elza é contada com alegria, servindo como meio de inspiração para quem está em uma dura etapa.

Relembre um show completo de Elza Soares:


Através do texto de Calderoni, que saúda a mulher negra, as intérpretes encarnam as diferentes versões da personagem, lembrando que nenhuma mulher ou pessoa pode ser rotulada por apenas uma definição. As ‘Elzas’, inclusive, conversam entre si em diversos momentos, fazendo metáforas sobre a importância de entrelaçar passado e futuro no presente. “Mas elas também vão interpretar outros vários personagens, que representam pessoas que marcaram a vida de Elza, essa mulher do século XXI que vem da década de 1930”, pontua a diretora.

Espetáculo utiliza de objetos simples para formular grandes representações
(Foto: Leo Aversa/Divulgação)

MINIMALISTA E DINÂMICO
Ainda que muitos dos conhecidos episódios da vida da homenageada estejam no palco, a estrutura de Elza foge do formato convencional das biografias musicais. Se os personagens podem ser vividos por várias atrizes ao mesmo tempo, a estrutura do texto também não é necessariamente cronológica.

Em cena, pouco é muito. O que mais conta é o sentimento exalando nas melodias e palavras. O resto, um balde resolve. Isso mesmo. Ele é o elemento cenográfico central. E simboliza tanto a luta da artista perante o machismo do pai, assim como consegue servir, ainda, como meio para fazer o batuque do samba, matriz da fase inicial da cantora de bossa negra.

Assim, as atrizes cantantes, que mostram os lados mais ecléticos dos seus potenciais, dão voz e corpo para as novas roupagens de grandes canções de Soares. O maestro Letieres Leite foi o responsável pelos novos arranjos para clássicos do repertório mais de seis décadas de carreira da cantora. Na obra, músicas recentes, como A Mulher do Fim do Mundo e A Carne, se misturam com outras canções nostálgicas, como Se Acaso Você Chegasse, Lama, Malandro, Lata D’Água e Cadeira Vazia.

APROVADO 
A própria Elza chegou a conferir o resultado dos cenários dinâmicos ao assistir o espetáculo em sua estreia, no Rio de Janeiro, em meados deste ano. Emocionada, ela afirmou ter feito uma análise da própria vida, chegando a um outro nível de gratidão. "Na vida de criança pobre não se tem muitos sonhos. Quando acontece é um susto", conclui a veterana.

“Elza me disse: ‘sou muito alegre, viva, debochada. Não vai me fazer um musical triste, tem que ter alegria’", conta Vinicius, afirmando ter sido o único pedido da cantora. O roteirista, inclusive, leu e assistiu a variadas entrevistas da cantora, além de pesquisar obras de pensadoras negras, como Angela Davis e Conceição Evaristo, cujos fragmentos de textos aparecem na peça.

Além da artista, outro homenageado no espetáculo também não segurou as emoções. Caetano Veloso, que é citado na montagem por conta dos bastidores da música Língua, na qual divide vocais com Elza, não conteve elogios para a peça em suas redes sociais. “Fazia tempo que eu não ouvia esse samba e às primeiras palavras e notas eu já estava chorando”, afirmou.

Larissa Luz foi escolhida para interpretar Elza Soares
(Foto: Leo Aversa/Divulgação)

“Esse retrato figurativo (repleto de características impecavelmente imitadas) se torna ainda mais belo pelo contraste com as outras seis Elzas: estas têm sotaques do extremo nordeste, da Bahia, de minas, do Rio”, disse Caetano, que é complementado pela diretora da montagem: “Escolhemos a Larissa Luz porque esse jeito de ‘baiana arretada’ é muito do que a Elza tem. A nossa homenageada mistura fragmentos de várias mulheres, de vários trejeitos... ela é essa mistura, todos somos. A peça é muito sobre lembrarmos disso pra nos respeitarmos mais”, afirma Duda.

Confira toda a declaração de Caetano  Veloso:



SERVIÇO DO ESPETÁCULO:
Onde: Teatro Castro Alves (Campo Grande). 
Quando: Hoje e amanhã, às 21h.
Ingressos: R$ 100/50 (A a P) R$ 60/30 ( Q a Z3),  R$ 40/20 ( Z4 a Z8) e R$ 30/15 ( Z9 a Z11)

CLUBE CORREIO: 40% DE DESCONTO

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