Na quarentena, artistas não param de produzir

entretenimento
09.06.2020, 06:00:00
Atualizado: 09.06.2020, 06:08:34
Bené, de camisa amarela, é o criador do projeto. À esquerda, pintura de Maxim Malhado e acima, à direita, criação de Carmen Paternostro

Na quarentena, artistas não param de produzir

Bené Fonteles, compositor e artista plástico, coordena projetos que reúnem produção de colegas

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“Bené, de onde você é?”, pergunta o repórter, no  início da conversa. “Não sei”, diz, bem-humorado, o entrevistado. E realmente não é fácil dizer de onde é Bené Fonteles, 67 anos, que nasceu no Pará, foi criado no Ceará, viveu em Salvador e há 30 anos mora em Brasília.

Foto de Christian Cravo, que está no catálogo

E talvez seja ainda mais difícil responder à pergunta seguinte: “Bené, você é o quê?”. Quando pedimos que conte um pouco de sua história, não conseguimos dizer se é jornalista, poeta, compositor, escritor, artista plástico... “Comecei como artista visual, participei de uma Bienal de São Paulo nos anos 1970, escrevi nos jornais da Bahia, compus com Egberto Gismonti, Geraldo Azevedo... organizei um livro sobre Luiz Gonzaga, produzi um disco de Gilberto Gil...”.

Inquieto, com certeza, ele é. E essa inquietação continua na quarentena, quando, mesmo de casa, ele não para de criar. Primeiro, em maio,  lançou o projeto Uma Canção Por Dia. Do primeiro ao último dia do mês, Bené mandava para 150 amigos no Whatsapp a letra de uma de suas canções. Depois, enviava um áudio em que contava a história da composição. E, por fim, mandava a gravação da música. Em troca, os conhecidos doavam algum valor, que iam de R$ 60 a mil reais. A fórmula deu certo e o artista sugeriu a alguns colegas que adotassem a mesma prática.

Quadro de Murilo Ribeiro

Na sequência, lançou o projeto Poéticas na Quarentena, sem objetivo de arrecadação. O catálogo virtual reúne criações de aproximadamente 80 artistas de variadas linguagens, idades e regiões do país, incluindo alguns baianos, como Murilo Ribeiro (pintor), Carmen Paternostro (coreógrafa), Christian Cravo (fotógrafo) e Ayrson Heráclito (artista plástico). Entre os nacionais, estão os escritores Ailton Krenak e Carlos Renó, o artista plástico Siron Franco e a cantora Tetê Spindola. As obras estão nas redes sociais dos artistas.

Motivação
“Notei que muitos amigos estavam desanimados, meio deprimidos nesse período de quarentena e quis motivá-los, queria entusiasmar essas pessoas. A motivação não é só financeira, eu sou curador desde os anos 70 e o papel de um curador é estimular os artistas a desenvolverem seu processo criativo”, afirma Bené, que tem uma poema no catálogo, disponível no YouTube, com o título Antes Arte do Que Tarde (no endereço bit.ly/benefonteles). 

Há ainda canções de Bené interpretadas por cantoras como Lucina, parceira dele em  Ética (https: //bit.ly/deflorlucina). “Bené é incrível, ele tem uma poética belíssima, e é um dos maiores ativistas que a gente tem no país, além de ser uma artista plástico consagrado”, afirma Lucina no vídeo.

E depois do Poéticas na Quarentena, Bené já se engajou em outro projeto, que será lançado dia 15, o Arte Para Quem Precisa de Solidariedade. Novamente, artistas conhecidos dele serão convidados a colaborar, enviando criações e Bené vai novamente chamar alguns amigos para fazerem doações, que serão destinadas a dez instituições de Brasília, Salvador e Campinas. Entre os beneficiados, estão aldeias indígenas e uma associação de moradores de Cajazeiras. Mais informações estão disponíveis no email benefonteles1953@gmail.com.

Carta à covid-19, escrita por Alik Wunder

"Prezado viajante covid-19, escrevo a você desde o 45º dia de quarentena. Há 4 meses você decidiu fazer uma viagem entre dois corpos de espécies diferentes, viagem rara, mas possível. Chegou com sua força mutante e rapidamente se proliferou entre nós e dentro de nós. Uma viagem triunfante para você, desafiante e arriscada para nós. Sinto toda manhã a sua presença invisível, mesmo quando não saio de casa. Sua invisibilidade é tristemente corporificada em adoecimentos e mortes que já se contam em milhões. Até o dia de hoje, mais de 3 milhões de pessoas já sentiram sua violência em seus corpos, 230.804 morreram, dentre elas 5.901 no Brasil".
 

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