Namore na sua bolha: 10 redes sociais para encontrar quem pensa como você

bahia
02.05.2021, 11:00:00
Atualizado: 02.05.2021, 13:40:14
(Ilustração: Morgana Miranda/Casa Grida)

Namore na sua bolha: 10 redes sociais para encontrar quem pensa como você

Em 2020, usuários do Tinder revelaram que posicionamento político influenciou diretamente nos matches

Com os bares fechados ou restritos, sem festas e ainda precisando manter distanciamento social, as ruas soteropolitanas deixaram de ser aquele bom e velho bacanal a céu aberto. Ficou mais difícil encontrar gente das nossas bolhas sociais presenciais, de achar pessoas que vão aos mesmos eventos e lugares que nós e de ter aquela noção sobre o outro que só a experiência presencial é capaz de oferecer. Virou um cenário pavoroso para solteiros.

Há muito, os aplicativos e plataformas de relacionamento complementam a dinâmica da paquera, mas com a pandemia esses recursos viraram quase a via exclusiva para flertar. O problema é que todo mundo foi jogado nesse mar virtual de gente e ficou mais difícil achar um par que tenha ideias parecidas, já que essas plataformas permitem poucas configurações — no máximo faixa etária e localização.

A bolha social é um conceito criado para explicar o fenômeno de pessoas que se agrupam partilhando dos mesmos interesses e hábitos. Historicamente, o ser humano sempre formou esses conjuntos sociais baseados em gostos e valores. O que acontece é que a internet intensificou esses processos porque possibilitou que os iguais se encontrassem com mais facilidade. Só que uma série de problemas podem decorrer disso, como, por exemplo, fazer com que nós evitemos dialogar com quem não tem os mesmos pontos de vista.

Nos relacionamentos afetivos, no entanto, pode ser proveitoso buscar alguém que não se distancie muito do que você pensa. Mestre em psicologia social e professor da UniFTC, Valter da Mata explica que é difícil manter um relacionamento quando um casal tem opiniões muito conflitantes porque isso resultará em turbulência e desgaste.

“Brinco que os opostos só se atraem na física, que só funciona com ímã. No amor isso é muito difícil. Se você escolher alguém muito diferente, sua energia será toda para apagar fogo e brigas, e não vai poder dedicar isso ao afeto”, observa ele.

Roteirista, escritor do livro “Amor, Otário Amor” (Astral Cultural, 2016), o carioca Léo Luz é usuário e observador das dinâmicas de aplicativos de relacionamentos. Presente no Tinder desde os primórdios do app no Brasil, ele conta que foi desenvolvendo estratégias para filtrar com quem dá match, criando espécies de microbolhas a fim de atrair as “pessoas certas”, evitando quem não tem muito a ver com sua personalidade apenas fazendo uma boa escolha de suas próprias fotos e do texto da biografia. 

No seu perfil, ele põe logo de cara uma foto com um gatinho e sua descrição brinca assim: “Quero alguém que desgrace a minha cabeça, acabe com minha vida e destrua minha pouca saúde mental. Estou no Tinder porque ainda não inventaram um aplicativo para feios inteligentes”, diz ele. O resultado é: Léo atrai mulheres que gostam de animais, entendem a linguagem da ironia e que tem um perfil mais intelectualizado.

“Minha bio já filtra bastante e é muito raro eu dar match com alguém hétero top. As fotos que cada um põe mostram um pouco do que se quer”, acredita. Mas também acontece de umas criaturas aéreas chegarem achando que ele está falando sério e perguntam: “Ai, por que você quer alguém que destrua sua vida?”. É de revirar os olhos.

O escritor costuma tirar prints de bios de gente muito criteriosa e vê graça em casos como o de uma garota que escreveu que não gosta de homem cachaceiro, mentiroso, egocêntrico e fanático.

“Às vezes, são critérios que nem mesmo a pessoa é capaz de cumprir. E essas pessoas não estão brincando, realmente acham que o outro tem que ser perfeito para namorar com elas. Gosto de brincar que é a geração do pai que falava ‘você é especial’. Outra coisa comum é colocarem ‘tal coisa marca ponto comigo’. Então é uma gincana? É como se as pessoas tivessem que te merecer, como se fosse um prêmio Nobel, isso é muito egocêntrico”, avalia.

Muita calma nessa hora!
Ao mesmo tempo em que contribuem para filtrar interesses e aumentar as chances de um relacionamento dar certo, as bolhas sociais também podem cair na lógica do imediatismo, alerta Lara Cannone, psicóloga da clínica Holiste. A busca incessante por resultados rápidos e práticos no amor refletem rejeição ao sentimento de frustração, o que pode fazer com que o outro seja um mero objeto de satisfação. Hoje em dia, o que muito se observa é que as pessoas evitam investir intensamente em algo incerto por receio de se frustrar. 

A procura por recompensas certeiras, prazer garantido, pode facilmente levar a esse nível imediatista. A profissional indica que é importante ter em mente que todo e qualquer relacionamento trará ônus e bônus, que afeto e intimidade se constroem no processo, não são uma promessa a priori. “Os cálculos dos aplicativos não conseguem precisar as trocas humanas e se deve ter em vista o que de fato se está procurando neles. A ideia da alma gêmea, de achar o par perfeito, fala sobre se abrir a um outro ou encaixá-lo a todo custo em um lugar que estava a ser preenchido?”, reflete ela. 

A psicóloga adianta que, pessoalmente, não se opõe às bolhas sociais. De fato, acredita que elas são ferramentas que ajudam no reconhecimento identitário e no fortalecimento grupal, mas o afeto precisa de mais do que isso para ser cultivado. É necessário estar aberto à diferença e perceber que cada um tem particularidades, por mais parecidos que sejam em gostos e posicionamentos. As semelhanças podem ter um fator protetivo, mas também podem fazer com que se tenha aversão ao inusitado. 

“Vou parafrasear um filósofo coreano de meu apreço, Byung-Chul Han, que nos alerta sobre não cair no inferno do igual. Que o fascínio pela semelhança não aprisione o outro. Que a simetria não reduza as possibilidades de amar, desejar, se excitar. Que a libido seja investida no outro, não em si mesmo —  e o outro só existe onde há diferença”, conclui ela.

Polarização política
As bolhas sociais também podem ser entendidas como mecanismos de defesa humana contra conflitos, explica a psicóloga Darlane Andrade, professora da Ufba. Ela lembra que a polarização política exacerbada no país promoveu e vem promovendo rupturas nas famílias, romances e amizades. Mesmo pessoas casadas e namorados viram suas diferenças ideológicas serem expostas na hiper-convivência, sobretudo na pandemia, que trouxe situações novas diretamente relacionadas ao caótico momento pelo qual passa o Brasil.

"É um desafio lidar com algumas questões sem necessariamente romper vínculo. As pessoas acabam se mantendo nas suas bolhas porque é onde elas vão encontrar quem tem os mesmos interesses, opiniões e posturas", considera.

Quando alguém se propõe a conhecer um provável futuro parceiro, é possível que ambos se encontrem sem saber o posicionamento político um do outro. Ao chegar a este ponto, a pessoa pode se desinteressar e não avançar o relacionamento porque não está disposta a lidar com essa diferença. Mas há também quem se mostre disposto ao diálogo e a mediar para decidir como vai ficar a convivência. "Tem quem tolere, tem quem não. O fato é que a gente não tem como separar todos os aspectos da nossa vida", adverte Andrade.

Se a pessoa tem um posicionamento político muito bem definido, é provável que isso vai refletir em seu modo de vida e mesmo no modo em que ela vive, inclusive, suas relações. Então, é preciso analisar o quanto se está disposto a conviver com alguém que tem um posicionamento totalmente oposto.

Valter Da Matta adianta que questões identitárias relativas à afetividade se fortaleceram nas redes sociais, mas as bolhas sobre diversos temas são anteriores às plataformas digitais. O psicólogo cita o movimento de mulheres negras que seguem levantando a discussão sobre serem preteridas nas relações em comparação com as mulheres brancas. “Então o que é que se faz? Essas pessoas passam a criar espaços onde possam ter o mínimo de paz e de igualdade de competição”, aponta.

Para ele, a última eleição presidencial foi um divisor de águas na história do Brasil, promovendo um racha ideológico que atravessa as relações afetivas. As redes sociais e seu uso mais intenso na pandemia ajudaram a escancarar ainda mais essas radicalidades. "As pessoas têm vários caminhos, mas elas podem ter ojeriza quando alguém diz que é petistas ou bolsonarista. A priori, elas já não querem nem contato com essas pessoas que se identificam de um lado ou de outro", diz.

DADOS: o Tinder na pandemia
Num ano sem precedentes como 2020, o Tinder — maior aplicativo de relacionamento do mundo — informou que se posicionar politicamente influenciou diretamente nos matches. Dados do app revelaram que muitos usuários usaram os seus perfis para espalhar a importância da democracia e, inclusive, boa parte fez disso motivo para não escolher alguém. Além disso, o termo feminista esteve em alta ao longo de todo o ano. Em julho, quando protestos antirrascistas explodiram nos EUA por causa da morte de George Floyd, os emoticons de punhos negros cerrados foram usados quatro vezes mais.

A pandemia, aliás, foi o grande assunto para puxar papo entre os usuários. O cenário foi usado até para ‘frete’, com frases como “Me chama de coronavírus e deixa eu pegar você”. Os membros do Tinder também fizeram menções ao uso correto de máscaras como um pré-requisito para iniciar conversas e sair para encontros. Em agosto, foi quando o pessoal mais relatou ter sentido falta de uma aglomeração. O emoji mais usado foi o de uma pessoa dando de ombros, demonstrando incerteza sobre o futuro imprevisível.

Criadora de um grupo de paquera voltado para pessoas negras, Lorena Ifé conta que no ano passado os encontros passaram a ser feitos virtualmente e diz ter observado um aumento de procura pela rede especialmente no fim do ano. Segundo ela, a galera passou a fazer videochamadas coletivas para se conhecer melhor e até promoveram brincadeiras como Verdade ou Consequência e Eu Nunca. Chamado Afrodengo, o grupo tem, em sua maioria, pessoas de 25 a 35 anos, mas um público de 50 a 60 passos começou a se apresentar solicitando entrada na rede durante a pandemia.

Para Ifé, durante esse período de isolamento tem ganhado pontos quem consegue se dedicar de verdade às conversas. "A tendência é abrir mais a intimidade, o dia-a-dia, falar sobre si. Isso vai valorizar muito a turma que acredita que sexo não deve ser o ponto principal no primeiro encontro e quer ter a oportunidade de conhecer mais a pessoa antes de ir pra cama", acredita ela.

Psicóloga dedicada a casais, Juliana de Oliveira tem observado que a pandemia terminou sendo uma oportunidade justamente de sair das bolhas sociais presenciais, de dar uma espécie de “olhadinha do lado de fora”. Ainda que forçadamente, o momento fez com que as pessoas conhecessem gente de lugares que nunca frequentaram, com outras vivências e gostos diferentes. “Alguém que mora na Barra pode ter conversado com alguém que mora no Subúrbio, e talvez eles nunca teriam se conhecido se não fosse a pandemia e os encontros virtuais”, atenta.

Entre os seus pacientes, uma das grandes reclamações foi a falta de relações sexuais. Tão facilitadas pelos aplicativos — envia-se uma mensagem, se encontram e transam —, houve um prejuízo nesse nível e Juliana relata que muitas pessoas acabaram recorrendo aos artifícios virtuais para realizar o prazer: envio de nudes e sexo por mensagem ou vídeo. O cenário pandêmico, analisa ela, virou a ocasião para agregar contatos e, quando houver possibilidade, poder encontrá-los pessoalmente.

10 REDES DE NICHOS ESPECÍFICOS PARA BUSCA DE RELACIONAMENTOS

Como a variedade de usuários é grande nas plataformas de relacionamento, selecionamos 10 apps, sites e grupos em redes sociais que são mais segmentados para que fique mais simples encontrar alguém que compartilha minimamente das mesmas preferências que você.

1. PTinder - grupo no Facebook
Com cerca de 37,6 mil membros, esse grupo reúne simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e tem gente do país todo, sobretudo do Nordeste. Apoiadores de demais partidos de esquerda são bem-vindos.

2. Bolsolteiros - grupo no Facebook 
Com cerca de 7 mil membros, o Bolsolteiros junta eleitores do atual presidente Jair Bolsonaro, sendo a maioria dos usuários moradores do Sul e Sudeste. No ano passado, a criadora do grupo declarou que já não apoia mais o mandatário do Brasil.

3. Afrodengo - grupo no Facebook
Espaço de fortalecimento da afetividade entre pessoas negras, esse grupo tem 54,2 mil membros e só aceita pessoas autodeclaradas pretas. O projeto promove conversas em grupos de WhatsApp e a faixa etária mais frequente é de 25 a 35 anos.

4. Inner Circle - aplicativo
Voltado para pessoas com médio a alto poder aquisitivo, elitizado. Paga-se de R$ 46 a R$ 260 para usar. Não são permitidas fotos sem camisa. Há triagem rígida para ser aceito na plataforma. São avaliados dados de idade, nível educacional, profissão e até qualidade das fotos. Em 2019, o criador do aplicativo disse que apenas 50% dos pedidos de perfil são aprovados. O tempo para a aceitação de novo usuário pode levar um minuto ou até meses. Não é necessário dar match para falar com uma pessoa.

5. Grindr - aplicativo 
Dedicado às comunidades gay, bissexual e transsexual, mas concentra mais usuários gays. Esse app permite encontrar pessoas próximas com base na localização.

6. Her - aplicativo
Aceita apenas mulheres e é voltado para lésbicas e bissexuais. Permite chats em grupo para conhecer pessoas.

7. Bumble - aplicativo
Não tem foco apenas em relacionamentos amorosos. Os usuários podem mudar do modo afetivo para o modo negócio, portanto, é voltado para quem busca networking. Apenas mulheres têm o poder de iniciar conversas na modalidade relacionamento.

8. Amor em Cristo - site e aplicativo
Focado em pessoas que compartilham da fé cristã evangélica. Oferece uma devocional bíblica diária aos usuários. No modo pago, dá para conversar com cristãos de outras partes do mundo.

9. OurTime - aplicativo
Voltado para pessoas com mais de 50 anos, o app diz que chega a receber cerca de 20 mil novos usuários por mês. Tem funcionalidade de chamada de vídeo.

10. Tinder - aplicativo 
É o maior app de relacionamento do mundo e concentra pessoas da gerações Z e Millennials, que têm idades entre 18 e 37 anos. É muito usado para encontros e sexo casual. No modo pago, dá para conversar com gente de outros países. Segundo a plataforma, se posicionar politicamente influenciou diretamente nos matches em 2020. Boa parte das pessoas fez da defesa à democracia um motivo determinante para escolher alguém.

CLASSIFICADOS DO AMOR - CONFIRA SOLTEIROS QUE ESTÃO NAS REDES

Tinder - Tiago Antunes, 29 anos, produtor cultural, gay, soteropolitano, geminiano e agnóstico

(Foto: @mastiago/Instagram)

Estou procurando companhia para beijar, falar mal de filme, criticar o governo e sofrer nessa pandemia. Saí de um relacionamento que durou dois anos à distância e estou buscando algo com alguma pessoa que esteja se cuidando bem em Salvador. Gosto de gente bem humorada e que seja boa companhia, mas quem não gosta?

PTinder - Fred Ricarc, 38 anos, empresário, hétero, mineiro, canceriano

(Foto: Acervo Pessoal)

Eu estou buscando amizades. Gosto demais de conhecer pessoas e o PTinder me mostrou uma galera que pensa parecido comigo. Não abro mão da sinceridade, ela é a base de tudo de qualquer relacionamento. Eu me considerava ateu, mas estou trabalhando num Centro Espírita e está me fazendo muito sentido tudo o que tenho aprendido. Gosto de animais de estimação, rock e música clássica.

Afrodengo - Andreza Mona, 28 anos, fotógrafa, hétero, soteropolitana

(Foto: Acervo Pessoal)

Busco alguém que seja parceiro, que queira crescer junto, que goste de trocar experiências, e de dar e receber carinho. Desejo que seja inteligente, trabalhador, no pique correria, que enfrente os desafios e aventuras da vida. Valorizo pessoas corajosas, de iniciativa, bom humor e que sejam responsáveis consigo e com aqueles que estão a sua volta, sinceridade e responsabilidade afetiva são fundamentais. Sou alegre, mas tenho meus momentos de brabeza. Quem não tem? Amo a natureza e sinto muita falta de abraçar apertadinho. Vou da música clássica ao pagodão, passeio pela sofrência e pela MPB com a mesma facilidade.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas