"Não estamos falando apenas com o nosso nicho", afirma Emicida sobre série

entretenimento
25.09.2021, 07:00:00
Emicida (Foto: Jef Delgado)

"Não estamos falando apenas com o nosso nicho", afirma Emicida sobre série

Em O Enigma da Energia Escura, rapper reúne pessoas negras e ideias que fazem a diferença

Quem acompanha a trajetória do rapper Emicida já percebeu que, há algum tempo, ele tem expandido as fronteiras de suas rimas. Lançou livros infantis, está todas as segundas-feiras na bancada do Papo de Segunda, no GNT – falando dos temas mais variados -  e tem mergulhado fundo na história afro-americana como estratégia para pensar o presente e projetar o futuro. Não por acaso as alusões à ciência e ao cosmos permeiam a série O Enigma da Energia Escura, último trabalho capitaneado por ele e disponível no Globoplay.  

Em cinco episódios, a série idealizada e produzida por ele e por Evandro Fióti, irmão e sócio na hub de entretenimento Laboratório Fantasma, vão instigar os espectadores em torno da “energia escura”. De onde ela vem? Quais são suas partículas elementares? Para o rapper, instalado em um cenário que lembra uma cabine espacial, ela vem dos movimentos políticos e coletivos da negritude, das reflexões de pesquisadores e militantes, da ressignificação artística e dos ensinamentos que estão na tradição e na natureza – e que não devem ser desprezados.  

Um pouco dos temas já abordados no documentário AmarElo – É Tudo Pra Ontem, lançado pela Netflix no ano passado. “Acho que O Enigma da Energia Escura pode ser visto como uma continuação da conversa que iniciamos com o doc, mas se aprofundando em temas e personagens. Quando o documentário saiu, muitas pessoas comentaram que era preciso passar o filme nas escolas e eu concordo com isso. Ao longo de 90 minutos, fomos bem-sucedidos ao despertar interesse em vários assuntos importantes”, afirma Emicida, que está desde julho fazendo uma residência artística na Universidade de Coimbra.  

“Se você me perguntar qual é a mensagem do Enigma, vou te responder que é a necessidade de ampliar a nossa forma de ver o mundo, a fim de transformá-lo em um lugar melhor. E aí eu chego em qual público nós queríamos atingir. Quando levamos esse conteúdo para a TV, não estamos falando apenas com o nosso nicho, estamos levando toda essa ideia e esse ideal para onde eles têm que ir”, destaca Emicida, que na última quinta comemorou nas redes sociais a indicação de AmarElo ao Emmy Internacional, na categoria Programação Artística. 

Os bons frutos no audiovisual devem impulsionar as ambições dos irmãos paulistas nesta seara. Fióti confirma o desejo para uma segunda temporada da série e diz que a sétima arte sempre foi um foco, apesar da complexidade e das limitações financeiras. “O objetivo é fazer com que nossa mensagem chegasse a mais pessoas, mostrar e valorizar a contribuição negra no Brasil e no mundo, construindo nossas próprias narrativas”, reforça Fióti, destacando a importância das parcerias com a Netflix e a Globo. 

Se liga na ideia

Com direção geral de Day Rodrigues, Emílio Domingos e Mariana Luiza, a série envolveu cerca de 200 pessoas, a maioria pretas. A primeira ideia apresentada é uma reflexão sobre raça, poder e como o país precisa superar a desigualdade racial. “O futuro do Brasil é o futuro da maioria, é o futuro da família preta”, projeta Emicida. Para o papo foram convocados o poeta e sociólogo Deivison Faustino, jovem saído das quebradas paulistanas, e o economista mineiro Hélio Santos, nome histórico do movimento negro, um dos fundadores do Instituto Brasileiro da Diversidade. 

Deivison usa a própria trajetória de pesquisador e professor universitário para negar o conceito de meritocracia, que está na base de muitas justificativas para a desigualdade racial. “Minha trajetória é a negação da meritocracia. O que seria de mim se eu não estivesse em uma família ampliada? Não tivesse encontrado o rap? Sou fruto das oportunidades e escolhas”, diz. 

Já Hélio lembra que se tornou conhecido pelas lutas coletivas e só através delas vê saídas para a “assimetria bizarra” que vive o Brasil, figurando ao mesmo tempo entre os dez países mais ricos e os dez mais desiguais do mundo. “São as políticas públicas que vão reverter o racismo sistêmico”, diz o estudioso, que cita as cotas raciais no ensino como uma das mais importantes conquistas dos últimos anos, filhas legítimas do movimento social negro. “Nada mais desigual do que tratar todos da mesma maneira”, pontua. 

O caminho da desigualdade segue no foco do terceiro episódio, Quem Te Fez Tão Bom Assim?, que gira em torno de dois conceitos caros à negritude: o desgastado “eugenia” e o renovado  “branquitude”. De origem judaica, a professora de psicologia social da UFSC, Lia Vainer Schucman, é bem didática ao explicar como a eugenia surge no século XIX para “dar acabamento biológico” à escravidão, justificando a divisão do mundo segundo origens superiores e inferiores.  

“A ideia de branquitude traz um mínimo de tensão racial para os brancos, pois para eles quem tem raça é o outro”, reflete a estudiosa, pontuando que a tensão põe em cheque, por exemplo, esse lugar histórico de vantagens. “Branquitude é um modo de ser no mundo”, resume Lia, lembrando que a maior parte das pessoas mortas pela  covid-19 no Brasil é preta.    

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Neguinho do Samba comanda o Olodum no Pelourinho nos anos 90 (Foto: Margarida Neide: Arquivo CORREIO) 

 Eu falei faraó 

Os episódios 2 e 4 são dedicados à resistência cultural. E a Bahia ganha destaque em Eu Falei Faraó, no qual Emicida usa sua trajetória no hip hop para fazer um paralelo com a força dos blocos afro baianos – que ele só foi compreender a posteriori, pois no começo achava que era tudo uma coisa só, dentro da aba axé. “Esses blocos foram verdadeiros condutores de reconexão com a nossa ancestralidade, eles cantavam a nossa história, a história que não está nos livros. Então acho que os blocos afro e o hip hop, quando olhados superficialmente parecem distantes, se aproximam nesse sentido, afinal ambos têm a mesma raiz, conectam a todos em diáspora”, resume Emicida.  

 
Para nós, o episódio dirigido por Emílio Domingos soa especial, com Margareth Menezes e Luciano Gomes contando a história de Faraó - Divindade do Egito, e com imagens do Ilê Aiyê, do Muzenza e do Malê Debalê, além de personagens como Vovô do Ilê e João Jorge, do Olodum. “Não aprendi nada sobre os blocos afro nas escolas. Aprendi foi nos blocos afro”, afirma Luciano, autor de Faraó e de outros sucessos.  

Já em Viva o Pretuguês!, a série chama atenção para o conceito pensado por Lélia Gonzalez (1935-1994) no artigo  Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira (1984). Emicida conta  que só ouviu falar pela primeira vez em pretuguês em Angola, em sua primeira visita à África, em 2015.  Lélia defende que a língua falada no Brasil tem forte influência das línguas africanas trazidos para cá. Bons exemplos do ‘pretuguês’ seriam a força da cantora Clementina de Jesus (1901-1987) e da escritora Carolina Maria de Jesus (1914- 1977), com suas gramáticas muito pessoais. 

 “A colonialidade impõe uma perspectiva de escrita a partir de um levantamento alfabético muito específico. Aliás, é esse o trabalho da colonialidade, fazer com que sua particularidade ganhe ares de universalidade modular, mais uma particularidade. E há outras escritas”, resume, com maestria, o cantor e compositor baiano Tiganá Santana. Escritas como a da Ialorixá Doné Eleonora, do terreiro paulista Ilê Asé Omo Oyá Bagan, e do escritor Ailton Krenak, ouvidos no episódio que fecha a série, Sabedoria Ancestral. “Quando a gente tiver devastado todos os rios e todas as possibilidades de criar histórias aí a gente vai estar dominado”, vaticina Krenak. 

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O conceito pretuguês, criado por Lélia Gonzalez, é explorado na série (Foto: acervo pessoal)

CONEXÔES

Sueli Carneiro   Aparece no primeiro episódio, ainda jovem, falando da desigualdade racial no país. Formada em filosofia com especialização em educação, Sueli, atualmente com 71 anos, construiu sua trajetória casando a produção intelectual à militância. É uma das fundadoras do Geledés - Instituto da Mulher Negra e autora de livros como Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil. Sua trajetória é destaque da Ocupação Sueli Carneiro,  em cartaz do Itaú Cultural, em São Paulo, até 31 de outubro. A mostra reúne 140 peças, entre fotografias, textos autorais, artigos e objetos  pessoais e religiosos. Uma das curadoras é Bianca Santana, autora da biografia Continuo Preta, a Vida de Sueli Carneiro (Companhia das Letras).  

Frantz Fanon  - A crítica do psiquiatra e ativista da Martinica ao colonialismo e seus reflexos nas sociedades influenciaram movimentos antirracistas e anticoloniais no mundo inteiro. No episódio Eu Falei Faraó – Cultura e Resistência, a série mostra como Fanon e pensadores como Marcus Garvin e Martin Luther King  foram importantes para a militância. Recém-lançada, a coletânea Por uma Revolução Africana – Textos Políticos de Frantz Fanon (Zahar) é uma boa porta para o pensamento do autor de Pele Negra, Máscaras Brancas. Reúne artigos, ensaios e cartas escritas entre 1951 e 1961, ano de sua morte. O pre-
fácio é do sociólogo e poeta Deivison Faustino, que está no primeiro episódio da série.    

Cultne.TV   - Espécie de repositório audiovisual da negritude do país, o acervo Cultne ( cultne.tv) é uma das referências da série. Milhares de imagens de manifestações políticas,  culturais e religiosas compõem o acervo, que está sendo formado desde os anos 80, por iniciativa dos produtores Ras Adauto, Vik Birkbeck, Filó Filho e Carlos Medeiros. Outro acervo que serve de referência para a série é o Zumvi (www.zumvi.com.br), capitaneado pelo fotógrafo baiano Lázaro Roberto e que reúne mais de 30 mil imagens sobre manifestações da negritude.      


Lélia Gonzalez   - Considerada uma das vozes mais importantes do feminismo negro, Lélia foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU),  nos anos 70, atuou na educação e na política e fez um grande esforço para estabelecer pontes com intelectuais africanos e latinos. Lançada este ano, a coletânea Lélia Gonzales – Por um Feminismo Afro Latino Americano (Zahar) reúne artigos, intervenções e entrevistas de Lélia, organizados pelas pesquisadoras Flávia Rios e Márcia Lima.

Ailton Krenak – O escritor e líder indígena está no último episódio, que faz uma reflexão sobre os impactos das nossas ações – sobretudos para os povos originários e para as comunidades pobres. Desde o começo da pandemia Krenak tem feitos lives nas quais mostra que o aprofundamento da crise no país e a necessidade de reação. Uma destas conversas foi em um evento de setembro do ano passado na Ufba, transcrita no livro organizado pelo professor Waldomiro J. Silva Filho e lançado pela Edufba. O trabalho traz os textos Tolerância Intolerante (Lilia Schwarcz)  e De Mal a Pior (Ailton Krenak) e uma conversa entre eles.  


Trilhas pretas 

Fióti diz que todas as produções da Lab Fantasma entendem a música “como ferramenta de transformação”. Por isso, a trilha sonora tem lugar mais que especial na série, como um elemento narrativo capaz de fazer aglutinações: partindo do rap de artistas como o próprio Emicida e Racionais MC’s, passa pelos blocos afro, pelo canto ancestral de Clementina de Jesus e pelas releituras de Serena Assumpção, que morreu em 2016, mas deixou o álbum Assumpção, lançado postumamente. Fióti destaca o impacto que o álbum Olorum, lançado em plena pandemia por Matheus Aleluia, teve em sua vida. “Esta canção Olorum me marcou muito e me fez entender como é urgente valorizar estes referenciais”.    


Playlist 

1. 14 de Maio (Lazzo Matumbi e Jorge Portugal) 

2. Bogotá (Criolo) 

3. Faraó – Divindade do Egito (Luciano Gomes) 

4. Africa Unit (Bob Marley) 

5. Que Bloco é Esse? (Paulinho Camafeu) 

6. Negro Drama / Racionais MC´s (Mano Brown e Edi Rock)  

7. Boa Esperança (Emicida/Nave) 

8. Capítulo 4, Versículo 3 (Mano Brown e KL Jay) 

9. Duas Cidades (Russo Passapusso e Marcelo Seco) 

10. Olorum (Mateus Aleluia) 
 

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