'Não me chateia nada ser a mãe do Gregório', diz Olivia Byington 

entretenimento
14.09.2021, 06:00:00
Atualizado: 14.09.2021, 08:11:15
(Fotos: Theodora Duvivier e Divulgação)

'Não me chateia nada ser a mãe do Gregório', diz Olivia Byington 

Cantora fala sobre seu novo projeto literário e conta muitas histórias dos bastidores da MPB   

As gerações mais novas a conhecem como a mãe de Gregório Duvivier, um dos mais bem sucedidos nomes da era digital e um dos articuladores do Porta dos Fundos. Mas a cantora e escritora Olivia Byington, embora não se chateie com a fama, é muito mais que isso. Apesar de não ter, como merecia, o reconhecimento popular, a exemplo de cantoras como Gal Costa, Simone, Maria Bethânia e Marisa Monte, Olivia é uma das mais cultuadas e admiradas de sua geração. 

Entre os 1970 e 2010, ela lançou discos como Corra o Risco - que marcou sua estreia e é considerado um dos clássicos da MPB - Melodia Sentimental, Anjo Vadio, e a Dama do Encantado, entre outros. Elegante e sofisticada, Olivia fala nesta entrevista de seu novo projeto literário, de música, muitos encontros e da família formada por quatro filhos, dois netos e o marido, o diretor de TV Daniel Filho. Confira.  

Depois de uma carreira bem sucedida na música, você agora está escrevendo um novo livro. Antes, lançou O Que é Que Ele Tem com a história do seu primeiro filho João Byington de Faria, que nasceu com Síndrome de Apert. A música perde uma cantora? 

Acho que Lavoisier falou e disse: nada se perde tudo se transforma. A cantora sobrevive porque eu canto em casa com os filhos, os netos e cantar pra mim é muito natural. Eu sempre escrevi mas nunca tinha tido vontade de ser escritora. Acho que eu precisei escrevei o livro O Que é Que Ele Tem, sobre o meu filho João, pela necessidade de passar adiante minha experiência. Ser mãe de um filho com deficiência pode ser o começo de uma vida muito rica. Tudo depende da maneira como você vai viver isso. O nascimento de um filho com deficiência é um susto e contém uma dor imensa que é o fim de um sonho com a outra criança que não veio. Ter a chance de viver e sobreviver a isso com alegria e entusiasmo me fez ser uma pessoa forte. Eu não sei quem eu seria se não tivesse aprendido a resistir desde tão jovem. Eu tinha 22 anos e enfrentamos, juntos, uma luta contra os percalços da síndrome de Apert. Gostei tanto da experiência de escrever que comecei um projeto novo desde então. 

Qual será o tema e como será esse livro?  

O novo livro é um romance sobre idades. São cem histórias que correspondem ao desenrolar da vida, do nascimento aos cem anos. Ele pode ser lido em partes, aos saltos, mas eles são parte da minha percepção da passagem do tempo, da finitude, da riqueza de cada momento da vida que, às vezes, nem corresponde ao número que está na sua carteira de identidade. A idade é relativa, mas todos nós temos o número dela marcado de algum jeito, não só por convenções, como por exemplo, os 21 da maioridade, mas também por fatos que ficarão pra sempre ligados ao ano onde você completou uma determinada idade. O livro é essa viagem. 

A geração mais nova hoje lhe conhece como a mãe de Gregório Duvivier, até porque ele sempre fala em você. Mas a geração mais velha, da qual me incluo, reconhece Gregório como o filho de Olivia. O que você acha disso tudo? 

Gosto muito de ser lembrada como a cantora que gravou Corra o Risco e que se virou como pode, durante tantos anos, com uma carreira que fugia do convencional. Hoje sou muito orgulhosa do lugar que o meu filho ocupa e não me chateia nada ser “A mãe do Gregório”, até porque isso me dá um crédito danado. Você criar filhos do qual se orgulha é compensador. Eu tenho quatro filhos. Sou apaixonada por eles, não tenho nenhuma dúvida de que eles são o centro da minha vida e a minha maior realização. Faço as coisas pensando neles, se eles vão gostar, se vão ler, se vão ouvir. Pra completar agora eles me deram dois netos sensacionais, Barbara me trouxe o Valentim e Gregório a Marieta. 

 Apesar de você ter lançado discos muito bons, para uma geração o seu primeiro trabalho, o álbum Corra o Risco, de 1978 com a participação do grupo A Barca do Sol, é considerado o melhor de sua carreira e um dos melhores da MPB. Qual sua opinião? 

Corra o Risco é uma aposta do Geraldinho Carneiro. Ele namorava Elisa, minha irmã, com quem se casou e teve um filho, Joaquim. Na casa que morávamos, eu vivia dentro do quarto com meu violão e ele gostava do meu jeito de cantar e da minha voz. A Barca do Sol já existia e os cantores da Barca eram fracos. Geraldo era autor de muitas músicas do repertorio do grupo, e tinha uma certa influência sobre eles. A Barca era extremamente machista. Músicos costumam ser bem machistas até hoje, mas naquela época era sem freio. Era difícil ter voz, fazer valer minhas escolhas, as cantoras eram chamadas de canário. Uma coisa muito feia que lembro com tristeza. Apesar disso, reconheço a importância do Corra o Risco e guardo lembranças fortes daquela gravação. Eu era uma menina de 19 anos.  

álbum
Olivia e João Carlos Assis Brasil (Acervo Pessoal de Olivia)

Ainda sobre esse álbum, você se cercou de um time fantástico: Geraldinho e Nando Carneiro, Jaques Morelenbaum; gravou músicas de Astor Piazzolla e Egberto Gismonti, entre outros. Como foi trabalhar com tanta gente desse quilate? 

 Sem romantizar, foi bem opressor. Subi no palco já com uma música que tocava nas rádios tendo que desempenhar uma experiência que não era real nem compatível com a minha idade. Me faltava base para organizar a carreira e para me impor às feras do show business. A Barca do Sol se assustou com o sucesso que o disco tinha feito e se retirou do lançamento fazendo apenas alguns shows no Rio, no Teatro Ipanema e depois em São Paulo no Teatro Ruth Escobar. O grupo já não era o mesmo. O Jaquinho foi estudar em New England. Além do Geraldinho ele era um grande laço meu com o grupo porque tínhamos participado juntos de um grupo de rock chamado Antena Coletiva antes dele integrar a Barca. 

Corra o Risco tem um experimentalismo muito ousado para a época. Depois você correu menos riscos? 

O experimentalismo do Corra o Risco era por onde eu transitava, era tudo o que eu realmente gostava, tocava e ouvia. Depois tive muitos percalços, dentre eles o nascimento do Joao meu primeiro filho com todas as implicações que isso trouxe. A entrada da Som Livre também me impôs músicos e produtores que não tinham nada a ver comigo. Tinham um olho vivo no mercado, coisa que eu nunca tinha pensado na vida. Não que isso fosse ruim, mas eu era imatura pra entender isso e me impor. 

Outro trabalho seu muito elogiado foi o disco A Dama do Encantado, no qual você gravou o repertório de Aracy de Almeida? O que o motivou tal escolha? E você a conheceu? 

A Dama do Encantado é uma outra viagem. Eu não conheci Aracy, mas ela foi um símbolo poderoso. Levantei mais de 200 músicas do seu repertório numa pesquisa feita com o Fundo Nacional de Cultura. Uma intérprete única que foi muito corajosa na sua carreira. Ela foi a grande cultuadora de Noel Rosa e eternizou muitas músicas dele. 

Você cantou com Tom Jobim e orquestra regida por Radamés Gnatalli; gravou um disco com o pianista João Carlos Assis Brasil (que morreu semana passada) baseado no recital de piano e voz com entre o erudito e o popular. Como foram esses encontros? 

Gregório, sua mulher Geovanna, Theodora, Olivia e Daniel Filho (Foto: Acervo Pessoal de Olivia Byington)

A relação que eu tive com o Tom Jobim foi muito divertida. Ele era encantador, inteligente e bem-humorado. Adorava ensaiar ao contrário do Radamés, que estava sempre querendo acabar o ensaio para tomar uns chopes. A música que rolou ali está marcada dentro do melhor e mais precioso da minha vida. O concerto que fizemos na Sala Cecilia Meirelles, no prêmio Shell que reuniu não só os dois gênios como também o Rafael Rabelo no violão. O show com o Assis Brasil tinha esse voo entre o popular e o erudito que eu sempre gostei muito. Ele é um musico extraordinário, fizemos mais de 100 shows juntos. 

Outra coisa que pouca gente sabe é que você produziu a trilha da série de programas como As Cariocas e As Brasileiras, para a TV Globo. O que difere a Olivia cantora da Olívia produtora? 

Isso foi depois do meu casamento com o Daniel. Participei bastante dos trabalhos que ele realizou. É muito curiosa essa troca de papel, ficar pensando o que os outros podem cantar fora do seu repertório. Fiz a produção musical das Brasileiras com o Pedro Luís e o Rodrigo Campelo. Nos divertimos muito, chamamos todo mundo que a gente gosta, Zélia Duncan, Teresa Cristina, Carlinhos Brown, hoje não acredito que conseguimos juntar tanta gente. 

Por ser um estado muito musical eu sempre pergunto a meus entrevistados do meio artístico qual a relação afetiva que eles têm com a Bahia. Qual é a sua? 

Minha relação é de amor e devoção. Minha mãe me ninou com Dorival Caymmi. Ela tocava violão e cantava pra filhas dormirem. Não tenho sangue baiano porque tudo meu é entre São Paulo e Minas. Eu não tive a sorte de nascer neste celeiro incrível que é a Bahia. João Ubaldo foi meu grande amigo e até hoje tenho uma grande saudade dos encontros com ele.  

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas