'Não podemos deixar a alegria morrer', diz maestrina em homenagem no Pelourinho

salvador
27.05.2021, 17:08:00
Atualizado: 27.05.2021, 17:42:00
Elem Silva ao lado dos percussionistas Bruno Amorim (de amarelo) e Eider Ferro (de rosa) (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

'Não podemos deixar a alegria morrer', diz maestrina em homenagem no Pelourinho

Tambores e repique gritaram pelos 450 mil mortos da pandemia

Não existe nota musical que conforte o coração de quem perdeu um filho ou os pais para a pandemia, mas a música pode ao menos acalentar. Foi pensando assim que 40 percursionistas, comandados por três maestros e uma maestrina, se reuniram no Terreiro de Jesus, no Pelourinho, nesta quinta-feira (27), e fizeram uma homenagem aos mais de 450 mil brasileiros mortos pelo novo coronavírus.

Os tambores soaram por volta de meio-dia, e provocaram a revoada de pássaros e pombos. Comerciantes, baianos e turistas que passavam no momento resolveram interromper a rotina para assistir os artistas. Em menos de cinco minutos de repique a plateia já estava formada. A apresentação foi uma iniciativa do projeto República dos Tambores que reúne quatro grupos de percussão do Pelô.

Tambores quebraram o silêncio (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

A maestrina Elem Silva, única mulher no comando, contou que a música tem um caráter terapêutico. Ela está a frente do grupo Meninos da Rocinha. “A arte faz bem para a alma, afugenta a depressão e torna a vida mais alegre. Essa é uma homenagem e ao mesmo tempo uma lembrança de que não podemos deixar a alegria morrer”, contou.

Isaque Messias, do grupo Meninos da Rocinha (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

Ela não se conteve e caiu na dança enquanto comandava os percussionistas. Os músicos também não deixaram por menos, e com batuques, coreografias ensaiadas e passos improvisados deram um show diante das lentes dos milhares de celulares que registravam a apresentação. Eider Ferro, 20 anos, contou que estava há quase dois anos sem tocar.

“É uma sensação de reencontro. A gente pegar o instrumento, colocar na cintura, parece que é a primeira vez de novo. Vem um flashback na memória. O instrumento é nosso amigo, com ele a gente esquece os problemas e acaba colocando todos os sentimentos para fora através da arte, da nossa música”, contou, ainda recuperando o fôlego.

Eider Ferro estava sem tocar há quase dois anos (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

No último ano, ele tem trabalhado como profissional de educação física para conseguir pagar as contas. Outro percussionista que encerrou a apresentação com a camisa encharcada de suor foi Bruno Amorim, 23 anos. Ele castigou o tambor que estava parado há mais de um ano.

“A percussão é o Pelourinho. O turista quando pensa no Pelourinho, ele pensa na percussão. Eu toco desde os 5 anos, e não consigo me ver sem a música. Não é apenas um hobby, é a minha vida’, afirmou.

Percussionista exibe tambor durante apresentação (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

O público contou que teve reações variadas. Teve gente que se arrepiou com a batida dos tambores, outros que ficaram mais dispostos ao som do repique, e houve quem gingasse o corpo para um lado e para o outro ao toque da percussão.

Maestro Ivan Santana suou a camisa (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

A maioria disse que os músicos provocaram saudade dos tempos de carnaval sem pandemia. Para os turistas foi uma festa, como contou a paulistana Isabela Godói, 28 anos.

“Estava andando pelo Pelourinho, tinha visitado algumas igrejas e museus, e de repente ouvi o barulho dos tambores. Adorei a apresentação. Foi tudo muito bonito. Já postei os vídeos”, disse.

Dificuldades
Projetos como a República dos Tambores foram impactados diretamente pela pandemia. Sem poder aglomerar, as apresentações foram suspensas e os músicos ficaram sem recursos. O maestro Pacote do Pelô, que comanda o grupo Tambores das Cores, pediu ajuda dos órgãos públicos e da iniciativa privada.

“A gente já vinha passando por dificuldades antes da pandemia, ela só piorou a situação. Algumas pessoas conseguiram receber auxílio ou cesta básica, mas a maioria dos músicos ficou parada. Precisamos de apoio para manter os projetos”, desabafou.

Maestro Pacote do Pelô comanda a apresentação (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

O maestro Ivan Santana, que lidera o Swing do Pelô, tem cerca de 50 jovens envolvidos na música. Já o mastro Yure Santos coordena o Movimento Percussivo, com 30 integrantes, a maioria formada por meninos e meninas da Cidade Baixa. “Eles veem até o Pelourinho para tocar porque gostam do que fazem, mas, muitas vezes, falta recurso até para pagar o transporte”, contou.

Maestro Yure Santos destacou as dificuldades para manter o projeto (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

O projeto República dos Tambores colocou no ar a vídeo-série digital O Tambor Me Move, exibida no canal YouTube/republicadostambores. A série conta a história dos quatro maestros da organização. No sábado (29), às 16h, os músicos farão uma live no canal do youtube com a participação do cantor e compositor Tonho Matéria. Será o último encontro deles, porque o projeto será encerrado em maio. 

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