O Ba-Vi que Chico Buarque jogou defendendo o Bahia no Encontro das Águas

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29.05.2021, 06:03:00
Atualizado: 29.05.2021, 10:02:52

O Ba-Vi que Chico Buarque jogou defendendo o Bahia no Encontro das Águas

Torcedor do Fluminense, artista vestiu a camisa do tricolor baiano num baba com placar incerto; entenda

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Foto: Reprodução

Calma, não pense que estou delirando por ser torcedor do Bahia e fã desse artista que, para mim, integra a chamada Santíssima Trindade da MPB, ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Essa história que vou contar foi testemunhada por um Bi campeão brasileiro, um professor, compositor e um ex-vice presidente da Federação Bahiana de Futebol.

Entrei em contato com o assessor de Chico Buarque, Mário Canivello, mandei as fotos perguntando se o artista se lembrava e o motivo de vestir a camisa do Esquadrão de Aço. Direto de seu sítio em Itaipava, no Rio de Janeiro, onde está passando a pandemia, Chico mandou recado:

“Não me lembro particularmente desta porque foram muitas peladas ao longo da temporada. Mas sou sempre tricolor, onde quer que vá.” Só para lembrar, o artista é torcedor fervoroso do Fluminense, tricolor do Rio. 

Chico Buarqe e Gersinho Guimarães (Foto: Jorge Zarath) 

Vamos aos fatos. Tudo aconteceu no dia 19 de março de 2006, quando, de passagem por Salvador, onde se apresentou no Teatro Castro Alves, Chico Buarque foi participar de um baba (como os baianos chamam a pelada futebolística) no condomínio Encontro das Águas, em Lauro de Freitas.

“Eu fui convidado por Adailton (Dadá) e Yeda, da Palco Produções, para um evento esportivo inusitado: um baba domingo à noite, no condomínio Encontro das Águas (onde eu residia), com a participação de várias personalidades da cena cultural baiana, ex-atletas, e a presença luxuosa do Chico Buarque, que fazia shows em Salvador, produzido pelo querido casal citado".

O relato é do executivo Marcos Ferreira, na época vice-presidente da Federação Bahiana de Futebol (FBF) e, atualmente, radialista e diretor da Rádio Bandeirante FM, em Vitória da Conquista.

“Foi um privilégio. Uma noite agradabilíssima, festiva e honrosa para mim, jogando ao lado de craques e ídolos como João Marcelo, Bobô e o craque tricolor carioca, Chico Buarque de Holanda, uma simpatia! Em tempo, foi um Ba-Vi, joguei pelo meu Vitória (lógico), Chico pelo seu Jahia, e vencemos por 5 a 2, deu a lógica [risos]. No final da partida, dei uma sacola esportiva da FBF ao Chico, nas cores azul, vermelho e branco, infelizmente”, arrematou Marquinhos, como os amigos chamam o rubro-negro inveterado.

João Marcelo (Acervo Pessoal)

Bi-Campeão em 1988, quando o Esporte Clube Bahia levantou a taça do certame nacional, o ex-jogador João Marcelo, um zagueiro até hoje lembrado e admirado pelos tricolores baianos, guarda com riqueza de detalhes o que foi aquele encontro.

“Fui convidado para um Bahia x Vitória dos artistas, o Ba-Vi de Chico Buarque. Chegando lá, não tinha camisa do Bahia sobrando, times completos e com vários reservas todos querendo servir Chico para que ele fizesse vários gols!”, relembra o ex-atleta.

E mais, prossegue ele: “a primeira dama me escalou no Vitória, sem saber que eu iria marcar a estrela do clássico dos artistas. Juiz apitou, começou o Ba-Vi. Bobô (ídolo e também Bi campeão pelo Bahia em 1988) tabelou com Chico, eu roubei a bola de Chico, fiz um gol, dei vários passes em meu ídolo e, no final, o baba terminou 4x1 para o Vitória. Todos os fãs chateados porque Chico não viu a cor da bola”.

Foto: Reprodução

Mas o inusitado aconteceria na volta do intervalo para o segundo tempo, como continua relatando João Marcelo: “A organizadora do baba deu uma de Paulo Maracajá (lendário ex-presidente do Bahia na época do Bicampeonato), me deu a camisa do Bahia e falou: 'agora você vai jogar no Bahia, você foi campeão no meu Bahia'. Para arrematar a história, eu levei no meu carro uma amiga, Carla Barreto, esposa do juiz Eduardo Barreto, apaixonada por Chico! Ela voltou brigando porque eu não deixei Chico fazer um gol!", relembra. 

Terceiro personagem da história, o professor e compositor Gersinho Guimarães, torcedor rubro-negro, também relembra desse dia: "João Marcelo havia me convidado para o Ba-Vi de Chico. 'Você é fã do cara, velho. Vamos que a gente joga e depois ainda rola uma resenha. De repente, vocês fazem até uma música', disse ele, tentando me convencer".

Marcos Ferreira (Acervo Pessoal)

"Outro convidado da barca foi Jorge Zarath, compositor e cantor uruguaio além de grande amigo da galera. 'Jorge, vou levar uma máquina fotográfica e, quando acabar o jogo, queria que tirasse uma foto minha com Chico, preciso guardar essa recordação'. O parceiro topou, mas me alertou dizendo-me que Chico, sempre que acabam esses jogos, ganhando ou perdendo, vai embora rapidinho. Se perder vai mais rapidinho ainda. Isso me tirava a esperança de uma resenha pós-peleja", continua o relato.

"Como fui para seu show no dia, em função da demora na saída do estacionamento, acabei chegando no jogo com a partida já começada. Frustração. Era um evento disputadíssimo, todo mundo queria jogar e eu havia chegado atrasado. Sentei-me conformado no banco de reservas do Vitória, time que torço", complementa Gersinho.

Mas o final da história seria benéfica para ele, que conseguiu jogar e tirar a foto, como ele fez questão de relatar: “Foi nesse momento que estava no banco que João gritou para mim: 'Gersinho, venha, entre aqui no meu lugar'. E aí se instalou uma bigorna nas minhas costas. Como substituir uma lenda viva do futebol baiano, jogando contra uma lenda viva da MPB? Como marcar Chico? Como marcar como João? Óbvio que, com a minha entrada no jogo, mais a fim de conversar com o ídolo do que defender o time, acabou havendo um certo equilíbrio, terminando Bahia 5, Vitória 6, com o último gol sendo marcado por mim, diminuindo um pouquinho a responsabilidade na desastrosa substituição”.  

Como você pode perceber, meu caro leitor, o placar do jogo é um mistério. Cada um lembra de um jeito. Deve ter sido a emoção de ver Chico jogar.

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