O dendê é o tema do Afro Fashion Day deste ano

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19.10.2020, 06:00:00
Atualizado: 19.10.2020, 16:04:21
Em cima: Vitória Carmo, Ednei Willian e Kaká Cardoso; embaixo: Deivid Silva, Rafa Araújo e Thalia Neres

O dendê é o tema do Afro Fashion Day deste ano

Reza o ditado popular que mancha de dendê não sai. E a sexta edição do Afro Fashion Day quer usar e abusar do ouro baiano, que dá o norte de todo o conceito do evento em 2020. No último mês de agosto, o repórter especial Alexandre Lyrio contou que o dendê pertence a Exu, orixá da fertilidade. Na mitologia iorubana, o óleo de palma é o seu esperma, seiva da reprodução, metáfora do sexo, a força vital. Mas o dendê também é o amarelo de Oxum, o fogo de Xangô, o brilho dourado de Omolu.Deu pra ver que o dendê é coisa divina - literalmente. É pensando nisso que vai vestir 30 deuses, deusas, reis e rainhas na passarela do Afro Fashion Day. 

Editora de conteúdo do Estúdio CORREIO, Gabriela Cruz conta que em todas as edições o planejamento é feito em conjunto com o produtor de moda Fagner Bispo, que assina o Afro Fashion Day desde a primeira edição. As primeiras conversas sobre o conceito deste ano iniciaram ainda durante o carnaval, quando o coronavírus parecia uma realidade distante.

"Fagner sugeriu falar da ancestralidade diaspórica do povo negro para promover uma discussão sobre quem somos hoje. Depois de algumas reuniões, batemos o martelo e o tema Dendê foi o preferido de todos por ser um ingrediente representativo da gastronomia baiana e ser símbolo de resistência e identidade, fatores importantes na formação cultural e social do nosso povo", contou Gabriela.

De tema definido, é hora de colocar a mão na massa. Como colocar o dendê na passarela? Gabriela conta que a paleta de cores do desfile foi pensada no ciclo de vida do fruto: da hora que nasce até quando amadurece. É isso que vai nortear os 30 looks que serão montados no Fashion Film, que vai substituir o desfile neste ano por conta das condições sanitárias impostas pelo coronavírus.

"O Afro fala sobre identidade mas também reforça o valor da economia criativa, afinal são 35 marcas de roupas e acessórios locais conduzidas por pequenos empresários que lutam por se manter no mercado, assim como quem vive do dendê", disse Gabriela.

O resumo da ópera é que o dendê chegou ao Afro Fashion Day antes mesmo da crise que se instalou na Bahia e já foi fruto de especial aqui no CORREIO. A safra da Costa do Dendê esteve muito abaixo do que o esperado em 2020 e isso culminou em situações como o aumento do balde com 16L do ouro baiano, que pulou de R$65 para R$120.

"A escolha pelo dendê veio antes da crise do azeite e percebemos que foi uma coincidência importante por reforçar a importância desse item fundamental para a sobrevivência de tanta gente na Bahia", completou Gabriela Cruz.

Fagner Bispo conta que o dendê estava perseguindo suas ideias neste ano. Antes, durante e depois da pandemia, se mostrou necessário para um evento com a proposta do Afro Fashion Day: de valorizar a negritude, suas diversas belezas e referências.

O curador conta que pensava em abordar um tema mais específico como conceito para este ano para variar um pouco em relação às edições passadas, como a de 2019, que homenageou os blocos afros.

"Quando você pensa em blocos afro, há várias referências porque são diversos blocos. Isso é muito legal, mas desta vez pensava em algo mais específico e o dendê surgiu. Dendê é dendê. Você faz várias coisas com ele, mas o dendê em si é uma coisa só", contou.


Fagner Bispo é curador do Afro Fashion Day (Foto: Divulgação)

O Fashion Film será gravado em cinco etapas, dividindo os modelos para evitar aglomerações. De acordo com Fausto, que ainda não quer revelar quais serão as locações de gravação, todos os lugares por onde o Afro Fashion Day passar vão dialogar com a baianidade, tentando fugir ao máximo dos clichês. Criatividade é a chave da vez. E isso o Afro Fashion Day tem pra dar e vender.

O Afro Fashion Day é um projeto do jornal CORREIO em parceria com o Sebrae.

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