O desfile deveria ter continuado após a morte de Tales Cotta?

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05.05.2019, 05:00:00
Atualizado: 08.05.2019, 17:53:47

O desfile deveria ter continuado após a morte de Tales Cotta?

Modelo desmaiou na passarela do São Paulo Fashion Week, o maior evento de moda da América Latina, foi atendido numa emergência e morreu pouco tempo depois

A morte do modelo Tales Cota, após desmaio na passarela do SPFW, provocou um mal-estar geral no meio da moda. Afinal, os desfiles do maior evento do gênero na América Latina deveriam ter continuado?


O modelo Tales Cotta no desfile da Ocksa, no SPFW (divulgação)

Não

Morreu na passarela atrapalhando a grana

Emplacar um negócio de moda não é tarefa fácil. Mesmo que se alimente do constante desejo de mudanças, o sistema é, historicamente, tradicional, concentrado em mãos brancas e hegemônicas. Mas, é claro que na moda também há o aspecto da fantasia, e não é possível negar a força da aparência no cotidiano, da televisão à política – ainda mais na geração Instagram. No entanto, a morte do modelo Tales Cotta e a decisão pela continuidade da programação de desfiles na 47ª edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), expõem as entranhas da moda, enquanto negócio: o que importam são os números, a projeção, e obtenção de lucro. As marcas não podem frustrar investidores, devem ter crescentes números de venda.

Considerado um dos cinco maiores eventos de moda do mundo, a SPFW é uma oportunidade preciosa para qualquer marca aparecer na imprensa de todo o país e, quiçá, em veículos internacionais. No entanto, todo esse burburinho “fashion” não sai barato. Os desfiles ainda são plataformas caras, que envolvem meses de preparação. Por isso, poucas marcas permanecem há muito tempo no line-up do evento. Sabendo disso, imagina-se que não era baixa a expectativa da equipe da marca Ocksa para a estreia na semana de moda paulista. Não contavam com um inesperado e triste acontecimento logo nos primeiros minutos de apresentação das roupas, mudando o enfoque da cobertura midiática que a moda costuma receber.

A continuidade do desfile, e também da grade de atrações que viriam logo em seguida, mostra a ironia num evento que tinha como mote a pergunta: “qual a sua utopia?”. No início da programação, a produtora distribuiu um comunicado em que falava de “um mundo melhor e mais humano”, questionando: “qual o propósito e a intenção que move o fazer e a realização?” Depois da queda do modelo, e do modo como a situação foi conduzida, a humanidade não parece ter sido a prioridade das equipes envolvidas na produção da SPFW. Na moda, parece que um discurso do politicamente correto serve como pano de fundo para mais “lacração”. Por cima de corpos, como nas tantas oficinas de costura em condição análoga à escravidão, o negócio moda vai passando.


Luis Fernando Lisboa é jornalista, mestre em cultura e sociedade (UFBA). Foi colunista de moda, cobriu grandes eventos na área e pesquisa a história de vida do estilista baiano Ney Galvão (1952-1991).


Leia aqui outro tema tratado na coluna

Não

O espetáculo da morte real

O dramático episódio da morte do modelo Tales Soares foi um dos temas de maior repercussão nos últimos dias. Estremeceu as estruturas do mundo da moda e chocou a sociedade de um modo geral. Nas narrativas do ocorrido, a ênfase mais recorrente foi uma severa crítica à exacerbação dos ritmos de trabalho, em nome de um mercado, que além da sua visibilidade espetacular, gera cifras exorbitantes e que não pode parar. O modelo desfilava em uma das passarelas mais cobiçadas do país, na 47ª São Paulo Fashion Week (SPFW), para a marca Ocksa. Entrou em cena com passos firmes, mas após girar em direção à saída da passarela, Tales parece se desequilibrar e cai aparentemente desmaiado.

Parte da performance? Muitos se perguntaram até perceberem que o modelo continuou caído. Mesmo chocados, todos, atores e espectadores, continuaram em cena e assistiram ao espetáculo desfile durante 3 intermináveis minutos. Refletindo após o acontecido, concluímos que a morte rapidamente virou parte do espetáculo, e logo depois, virou ela mesma um espetáculo, apesar de todos acreditarem, inicialmente, que se tratasse de um mero desmaio. Assim, espetacularizada, a morte se banaliza mais uma vez.

De um ponto de vista conceitual, cotidiano, espetáculo e novidade constituem uma ambiência cênica e fugaz, em que objetos, pessoas e relações se cruzam de forma dinâmica e contínua. “O que [...] consumimos não é tal espetáculo ou tal imagem em si, mas a virtualidade da sucessão de todos os espetáculos possíveis [...] e a certeza de que nada irá emergir a não ser como espetáculo” (BAUDRILLARD, 1981, p. 147).

Mas por que esse acontecimento em especial parece ter ganhado tanta repercussão? Podemos sustentar duas hipóteses que, na verdade, se complementam: a primeira delas diz respeito ao fato de que a conjunção entre o inusitado e a morte sempre atraem a curiosidade humana e a mídia sabe se aproveitar muito bem desse filão. Ponto; a segunda, mais sutil, me parece estar alicerçada justamente porque a morte se deu no mundo da moda onde o corpo está associado ao eterno ideal da perfeição. Na cena da moda eventos como esse parecem se intensificar justamente porque na moda, o corpo, ou melhor, a aparição desse corpo, deve ser sedutora e bela.

É um corpo para ser visto e admirado, de maneira irrecusável; Sobretudo nos desfiles, temos um corpo em movimento que exalta a beleza e a vitalidade. Inerte, esse corpo é não só banalizado, mas rapidamente descartado. A SPFW, com uma espantosa naturalidade, descartou esse corpo que entrou em pane e parou de funcionar - causando um ruído na engrenagem do desfile -, e substituiu o nosso espanto pela morte pelo choque diante dessa atitude. Descartado o corpo inerte, os corpos sem órgãos continuaram a cena e o espetáculo da vida real nos legou mais uma narrativa... potencializada pela mídia. Afinal o espetáculo não pode parar!

Renata Pitombo Cidreira é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA), professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os Sentidos da mMda (2005), A Sagração da Aparência (2011) e As Formas da Moda (2013).


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade dos autores


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