O embate entre a "pimentinha" Elis Regina e o jornalista Luís Claudio Garrido

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15.01.2022, 06:01:00
Capa do disco que resultou no show homônimo: Transversal do Tempo (Divulgação)

O embate entre a "pimentinha" Elis Regina e o jornalista Luís Claudio Garrido

Show da cantora em Salvador foi noticia muito além do palco

Sempre presente em qualquer lista que indique as melhores e maiores cantoras do Brasil, a gaúcha Elis Regina, que teve uma trajetória brilhante na MPB, nos deixou há 40 anos, em 19 de janeiro de 1982, vítima de uma overdose de cocaína, quando ela contava com 36 anos. Foi um choque tão grande na época, pois a artista, nascida dia 17 de março de 1945, em Porto Alegre, estava no auge e era mãe de três filhos (João Marcello Bôscoli, Pedro Mariano e Maria Rita), frutos dos casamentos com Ronaldo Bôscoli e Cesar Camargo Mariano.

Apesar de ser uma unanimidade entre o publico e os colegas de profissão quando o assunto era sua arte de cantar, Elis também era conhecida como “Pimentinha” por ter uma personalidade forte e um temperamento explosivo. E eu tive oportunidade de presenciar um desses momentos na única vez em que a vi pessoalmente. Foi no distante ano de 1978, dando meus primeiros passos no jornalismo e atuando na assessoria local da gravadora Philips (atual Universal), ao participar de uma entrevista coletiva da cantora em Salvador para o lançamento do show do disco Transversal do Tempo.

Elis tinha feito, dois anos antes, o antológico show Falso Brilhante, apresentado no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, resultando no disco homônimo que contém, entre outras pérolas, as músicas Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais, do compositor cearense Belchior. O show foi um sucesso arrebatador e o disco vendeu muito. Por isso, seu próximo trabalho, o Transversal do Tempo, era aguardado com muita expectativa.

Elis Regina em uma de suas visitas a Salvador (Foto: Arquivo Correio)

Naquela época, o contexto era de confronto e polarização entre uma ala da música popular brasileira, representada pelos pós-tropicalistas, e um grupo mais engajado, ainda remanescente dos traumas da ditadura militar. A obra de Caetano propunha uma trégua: Odara. A ala mais engajada politicamente, no entanto, buscava o discurso mais cru - na época, considerado “revanchista”. Neste grupo estava compositores como Aldir Blanc, que era o diretor musical do show de Elis, ao lado de Maurício Tapajós. E no lado oposto estava outro personagem que vamos falar agora: o jornalista Luís Claudio Garrido.

E foi no meio desse turbilhão que Elis Regina desembarcou em Salvador para uma temporada do show Transversal do Tempo, que foi realizado no Teatro ICEIA (Instituto Central de Educação Isaías Alves, atual CEEP Isaías Alves), aliás, um espaço que está abandonado. Mas, antes do show acontecer, começou outro show particular da cantora com o então iniciante Garrido, que terminou, sem querer, virando notícia. Como ele lembrou em conversa com o Baú do Marrom:

“Ao chegar à redação do extinto Diário de Notícias, onde trabalhava, recebi do chefe de reportagem Gutemberg Cruz a missão de cobrir a entrevista coletiva de Elis. Recém-admitido no jornal, inexperiente profissionalmente (meu primeiro emprego), fui para coletiva com 'sangue no olho'. Algumas coisas eram bem estanhas para os moldes habituais das entrevistas. Os jornalistas foram abrigados numa sala de aula, sentados na posição de alunos. Tipo Escolinha do Professor Raimundo.  Ao lado de Elis estavam o marido César Camargo Mariano, o irmão Rogério Costa, o baixista Nathan Marques, o diretor cênico Carlos Maia, além de Raimundo Carvalho e Dick Johnny, da gravadora. Quase nem cabiam na mesa escolar”.

A entrevista começou tranquila, com os repórteres dos grandes veículos fazendo perguntas que deixavam Elis à vontade, até que chegou a vez de Garrido, que teria direito a uma pergunta. E ele não se fez de rogado. Sob os olhares atentos do staff da gravadora e dos colegas mais velhos, ele se levantou e disparou: “Elis, você fala tanto de fome e pobreza no seu show, mas continua cantando para essa plateia de classe média pequeno-burguesa que não sabe se aplaude ou balança as jóias depois de cada música. O que você pretende com este espetáculo?”. Pronto: foi como se jogasse um palito de fósforo num rastilho de pólvora. E Garrido se sentiu como numa cova de leões, como ele relembra, 42 anos depois:

“Se arrependimento matasse... Primeiramente, os repórteres de grandes veículos (Veja, Folha, A Tarde, Estadão, Jornal do Brasil, O Globo, etc) dispararam olhares cortantes contra mim, virando-se para o fundo da sala onde eu me localizava. 'Quem ousa?', devem ter perguntado! Na mesa, quem estava de cabeça baixa (como o caso de César Camargo), levantava os olhos para ver de onde vinha tanta ousadia. Me sentei e só vi Elis se levantar, pegar um cigarro, que acendeu em seguida, e começar a disparar”.

Jornalista Luís Claudio Garrido que desafiou a Pimentinha (acervo pessoal)

Senhora de si e tendo a plateia ao seu lado, Elis, ardida que nem uma pimenta malagueta, soltou o verbo: “Não preciso ser pobre para falar de pobreza... Tenho muito orgulho do espetáculo” e mais e mais.

"E eu ouvindo aquilo e ninguém me defendendo – os colegas tentando mudar de assunto, mas ela só se virava para mim e disparava impropérios. Do meu lado só um jornalista que também a confrontou: o recém-falecido Waldemir Santana, da Tribuna da Bahia", continua Garrido.


Para um jovem repórter iniciante tamanha ousadia incomodou a estrela e seu séquito:

“Não foi fácil. A coletiva praticamente acabou. E Elis me olhava com raiva. Eu achei que tinha feito uma pergunta lógica, mas parece que ela mexia com a insegurança da artista – entregue aos ditames de tanta gente que parecia apenas coadjuvante naquele imenso projeto. Ao final, a gravadora distribuiu os discos para a imprensa. Fizeram uma animada fila e eu fiquei vacilando se pedia ou não um autógrafo. Claro que, apesar daquele show grandiloquente e equivocado, Elis era (e é) a maior cantora da música brasileira da segunda metade do século XX. E eu estava diante dela".

Pensa que Luís Claudio perdeu a pose? Que nada. E, hoje com o distanciamento do fato, ele relembra e até sorri da história:

“Foi chegando a minha vez e ao me aproximar dela, Elis levantou a cabeça e deu um sorriso – dentes pequenos, gengivas à mostra. Pegou o meu disco e escreveu: “Seu ‘crasse média’, um abraço médio. Elis Regina”. Dei uma risada tímida e, solitário na minha “insignificância”, sumi. O que ficou da história? Passei a ser “o jornalista que brigou com Elis Regina”. Mas me vi diante de uma estrela com tanta generosidade e grandeza que terminou me acolhendo naquele momento de aflição solitária. E o pior: emprestei esse disco raro e ele nunca mais voltou para minhas mãos”.

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