O melhor de Elza está nos anos 1960

entretenimento
23.01.2022, 11:00:00
Os discos Baterista: Wilson das Neves e Elza, Miltinho e Samba. O segundo ganhou mais dois volumes. (reprodução)

O melhor de Elza está nos anos 1960

Discos com Miltinho e Wilson das Neves revelam fase áurea da cantora

Lembro bem da primeira vez que ouvi a voz de Elza Soares: foi entre 1985 e 1986, na casa de minha irmã, quando eu tinha entre nove e dez anos de idade. Ouvia o LP Velô, de Caetano Veloso, e a canção era a histórica Língua, para mim, até hoje, uma das obras-primas do compositor baiano e da música brasileira. Uma ode maravilhosa à língua portuguesa e, certamente, uma das melhores letras de Caetano.

Mesmo ainda bem novo, eu já era um ouvinte atento e apaixonado da música brasileira. Muito além da Turma do Balão Mágico, ouvia bastante MPB e rock brasileiro, que vivia naquela época seu apogeu. Já começava até a minha própria coleção de discos. Então, curioso, observava o jeito como os artistas cantavam. A minha favorita era Gal (cantando Balancê), até então minha referência de canto feminino.

Mas, voltemos a Elza Soares, afinal é para isso que estou aqui. Lembro bem de meu espanto ao ouvir aquele canto rouco dela em Língua. Além de meu espanto, preciso admitir que houve certa rejeição, afinal, era natural que, para um menino de dez anos, aquela voz estridente - quase berrando, cheia de trejeitos e tão diferente do usual - causasse aquela surpresa. O fato é que, naquele dia, achei muito chato o jeito dela cantar.

Durante mais ou menos duas décadas, Elza Soares foi para mim apenas aquela cantora de voz rouca que cantou Língua com Caetano. Mas o tempo passou e aquele menino, claro, amadureceu também como ouvinte de música.

E a minha impressão sobre Elza começaria a mudar no início deste século, quando ela finalmente reapareceu para a mídia com o álbum Do Cóccix Até o Pescoço.

Ali tive certeza que ela  era uma grande cantora, muito mais que aquela voz rouca que conhecera aos dez anos. Ela sabia cantar suave, como no samba Dura na Queda, que abria o álbum e havia sido composta por Chico Buarque, especialmente para ela. “A dor não presta/Felicidade sim/O Sol ensolará a estrada dela”, dizia a letra, uma referência à capacidade que a estrela teve de superar as dores que viveu.

Aos 12 anos, foi obrigada pelo pai a casar com Alaúrdes Soares, um homem dez anos mais velho. Ficou viúva já aos 21, depois de ter cinco filhos com ele. Dos cinco, dois morreriam de fome. E ainda perderia um terceiro (Garrinchinha, filho dela com Mané Garrincha) num acidente de carro. Não bastasse tudo isso, seria vítima de violência doméstica no casamento com Garrincha. E pior: para a conservadora sociedade brasileira, era ela mesma a vilã da história, afinal  teria sido a responsável pelo fim do casamento anterior do craque da Seleção e do Botafogo.

Em Do Cóccix Até o Pescoço, embora às vezes Elza caísse na tentação de recorrer àqueles rasgos de sua voz, ela mostrava, em gravações como Dor de Cotovelo, de Caetano Veloso, a sua força indiscutível como intérprete.

Ela sabia também se entregar à canção e era capaz de cantar com discrição, sem querer aparecer mais que sua obra. E confesso que aquela versão de Elza me agradava muito mais que aquela de Língua.

No mesmo ano, em 2002, teve também o indefectível dueto com Chico Buarque em Façamos (Vamos Amar), que estava na abertura da novela das 19h, Desejos de Mulher. Aquela versão de Let's Do It, Let's Fall in Love ,com letra de Carlos Rennó para a música de Cole Porter, se transformava num divertido jogo de sedução entre Elza e Chico. Ali, ela começava a me conquistar definitivamente.

Mas eu só fui reconhecer a importância de Elza quando a obra praticamente completa dela chegou às plataformas de música. Foi aí que conheci mais profundamente aquela versão suave do canto dela que tanto me agrada. Pude finalmente ouvir na íntegra a sua estreia no álbum Se Acaso Você Chegasse (1960), homônimo à canção de Lupicínio Rodrigues e cuja gravação a consagrou definitivamente.

E são da década de 1960 aqueles que provavelmente são seus melhores álbuns: Elza, Miltinho e Samba (1967) e Baterista: Wilson das Neves (1968). Nos dois casos, as canções são enxutas e raramente passam dos três minutos. Não havia tempo para firulas nem excessos. Além disso, os arranjos conquistam pela simplicidade.

Como bem lembrou Ruy Castro, no disco com Das Neves, Elza é acompanhada praticamente o tempo inteiro por uma discreta bateria. E ali podemos desfrutar quase exclusivamente de sua voz.

O repertório dos dois discos, com presença marcante do samba-jazz especialmente no álbum de 1968, é um primor. Basta dizer que começa com o suingue maravilhoso de Balanço Zona Sul, de Tito Madi. No fim da audição, fica o dilema para o ouvinte: afinal, a melhor versão era essa de Elza ou a de cinco anos antes, com Wilson Simonal?

Na dúvida, não hesite: fique com as duas, caro leitor. Afinal, estamos falando de duas das maiores vozes do país. E, não casualmente, negras. E, não casualmente, os dois artistas foram vítimas de racismo. Simonal foi injustamente tachado de delator na ditadura  e morreu com essa fama. E Elza ganhou a pecha de ser “a outra” de Garrincha. Pior: de ser a culpada pelo seu alcoolismo. Elza, felizmente, teve o privilégio de ser reparada ainda em vida, quando a nova geração de artistas fez questão de abraçá-la.

Os discos mais recentes de Elza foram certamente ousados e permitiram que ela experimentasse muito, o que era ótimo para uma artista que havia passado dos 80 anos. Aqueles álbuns se tornaram praticamente unanimidades e, quase sempre, estavam entre os melhores do ano. Mas acho que há certo exagero em torno disso. Embora fosse louvável a tentativa de Elza de se modernizar, às vezes, seu canto ficava ofuscado por excessos na produção das canções.

Também devemos destacar o engajamento político dela nos últimos anos e a escolha de músicas que refletiam esse posicionamento. Mas, às vezes, as letras soavam ingênuas, óbvias até.

Como em Menino, do álbum Planeta Fome: “Venha cá, menino/ Não faça isso não/ Sei que é muito triste/ Não ter casa/ Não ter pão”. Vale o protesto, claro. Mas há um certo simplismo na letra. O engajamento de Elza como artista e sua manifestação pelos direitos de minorias nos últimos anos de vida foram muito importantes, sem dúvida. Mas, se você quer conhecer a riqueza dela como intérprete, corra para a sua plataforma de música e aproveite o fim de semana para fazer uma viagem à discografia dela nos anos 60. Ela merece!

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