O prazer proibido do "homem hetero tradicional"

flavia azevedo
15.04.2018, 15:05:00
Atualizado: 15.04.2018, 15:05:44

O prazer proibido do "homem hetero tradicional"

Flavia é produtora e mãe de Leo

Tem uns que nem limpam o bumbum direito (e cueca "freada" tá aí pra provar) que dirá assumir que tem prazer sim, lá atrás. Nem eles podem se tocar. E eu acho engraçadíssimo esse terror e pânico que a maioria dos homens tem de mexer "naquele lugar'. De vez em quando puxo conversa e ouço maravilhas, confesso. Orgasmo prostático. Muitos deles, gostariam de tentar. Mas aí têm vergonha de propor à namorada, ficam sem graça e tal. Mais importante manter a "fama de macho" do que a descoberta de qualquer novidade sexual.

É tocar a próstata, apenas. O "ponto g" masculino, apontado em muitos artigos. Tem literatura farta, tem vídeos explicando como se faz. E diversos estudos mostram que prazer maior não há. Dizem que lá há múltiplos orgasmos antes da ejaculação, que quem experimenta não esquece jamais. Mas homens guardam seus bumbuns de forma tão veemente que a grande maioria não se permite sequer rebolar. 

(Muitos andam com as bundas pra dentro parecendo cachorro com o rabo entre as pernas. O corpo fala demais!)

Se fosse por um não gostar pessoal, tudo certo. Taí uma coisa que todos e todas precisam respeitar. Mas não é. A viagem é coletiva. O brasileiro hetero tradicional acha que o único lugar onde pode ter prazer é o pau. Vem cá, vamos conversar.

Há possibilidades de prazer no corpo inteiro, entenda. E nada é obrigatório. Cada um gosta de um jeito, mas sobre esse ponto aí, não há como deixar de pensar. Veja se não faz sentido: o horror coletivo de ser penetrado tem tudo a ver com o sentido que o discurso patriarcal deu à penetração. 

Dominação, humilhação, submissão de quem "dá". Toda uma vivência distorcida de vida sexual. Na lógica de lá eles, quem é penetrado é inferior àquele(a) que penetra. Mulheres sempre estão abaixo e pior ainda é o homem que "se faz de mulherzinha". É muito nó pelas costas, muita narrativa subliminar, muito jogo de poder num âmbito onde deveríamos, apenas, brincar.

Mesmo no sexo hetero, há escala de valores de atos sexuais. Basta um pouco de conversa para se entender o que muitos deles pensam, por exemplo, sobre sexo anal. Digo, do que pensam que estão fazendo quando penetram uma mulher "por trás". É galhofa, muitas vezes. Tão galhofa (tão "meto mermo em qualquer lugar") que muitos penetram outros homens e não percebem neles mesmos nenhum traço homossexual. "Viado" é só quem "dá". E isso eu acho incrível, incompreensível, absolutamente surreal!

Mentira? Né não. Observe as piadinhas que entregam tantas coisas. Já viu dois bofes brincado de "o viado é você"? Um diz que vai "comer" o outro e esse é o "macho". O outro, o hipoteticamente "comido" é que tem que se "defender". Eles acham a brincadeira linda. Morrem de rir! Marrapaz...

Talvez uns pontos nos "is" possam ajudar. Vejam só: sexo entre homem e mulher será sempre heterossexual, não importa o que se faça. Sexo entre dois homens será sempre homo, não importa que o "macho ativo" nem olhe para a cara do rapaz na sauna. E não há qualquer prática humilhante, desde que entre adultos e consensual. Achar que "comer alguém" é dominar, é pura fantasia, algo construido com preconceitos e convenções. E não há parte do corpo onde seja errado tocar. 

Isso tudo pra dizer: algozes também são reféns. O inimigo é a narrativa e não um gênero, em especial. É o discurso machista impregnado em nossos lençóis que também diz onde e como homens podem gozar. É ainda por manter a pose esperada que muitos morrem de câncer de próstata (porque não se pode examinar) e que a grande maioria sequer pensa que sim, há prazer além de apenar "meter". E que há outros movimentos além de "sair e entrar". 

(Beijunda. Tchau)