O São João que Dominguinhos chegou com o dia amanhecendo em Dias D'Ávila

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19.06.2021, 12:34:00
Atualizado: 19.06.2021, 12:34:20
(Foto: Divulgação)

O São João que Dominguinhos chegou com o dia amanhecendo em Dias D'Ávila

Sanfoneiro que não viajava de avião atrasou show pois estava vindo de carro

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A história que vou contar hoje aconteceu há muitos anos, precisamente no São João de 1992 na cidade de Dias D'Ávila.  Naquele ano, tomou posse na prefeitura o jovem Claudio Cajado, que é filho do meu ex-professor de Português, Osmar Muricy. Com ele assumiu uma secretaria Américo Maia, com quem eu tinha trabalhado como diretor artístico de uma casa de shows chamada Voyage, que funcionou nos anos 90 em Patamares.

O novo prefeito resolveu fazer um São João com o que havia de melhor. Uma festa autêntica. Naquela época, só existia o chamado forró pé de serra. Eles me convidaram e eu fui conhecer o projeto. Era o São João do “Beira Ri”, que seria realizado às margens do Rio Imbassai, então em processo de revitalização na cidade que ficou conhecida como um grande balneário por possuir uma lama medicinal. Conhecendo o projeto, fui responsável em montar a grade de atrações.

Procurei chamar forrozeiros de ponta como Virgílio, Oswaldinho do Acordeon, Carlos Pitta e o grande Dominguinhos, o discípulo maior de Luiz Gonzaga. Qualquer festa junina tinha que ter a presença desse pernambucano de Garanhuns, autor de clássicos como Só Quero um Xodóm composto por ele e Anastácia, que explodiu nacionalmente na voz de Gilberto Gil. Além de outros sucessos como Lamento Sertanejo, Isso Aqui Tá Bom Demais e por aí vai.

Durante cinco dias de festas, o balneário do “Beira Ri” ganhou decoração temática, barracas que comercializavam comidas e bebidas típicas, as famílias chegavam cedo para encontrar um local privilegiado junto ao palco principal. Tudo no maior astral.

E ainda tinha o coreto onde os sanfoneiros faziam a festa. A expectativa era grande não só pela novidade (era a primeira vez que cidade presenciaria um mega São João), como as atrações eram esperadas ansiosamente.

 

Ai é que começa a história. O sanfoneiro Dominguinhos era esperado na noite de São João como a grande atração. A praça abarrotada e todo mundo esperando sua apresentação, que estava marcada para começar por volta das 23h. Depois a festa prosseguiria até o amanhecer. E o forró comia animado com os outros artistas que faziam a abertura.

Enquanto esses artistas se apresentavam, a produção já tinha preparado o camarim para receber Dominguinhos e seus músicos. O tempo começa a passar e nada do sanfoneiro aparecer. Como naquele tempo ainda não tinha celular, a gente ligava para o escritório dos empresários para saber o que estava se passando.

Certo é que o sanfoneiro teria que fazer três shows nessa noite conforme estava acordado no contrato. E a cidade de Dias D'Ávila seria a terceira, pois ele começaria sua maratona mais cedo em cidades próximas. Não havia como dar errado. No máximo um atraso tolerável.

E o tempo passava, deu meia noite, uma hora, duas horas e nada de Dominguinhos. A essa altura eu já nem curtia mais a festa, tamanha a tensão. E grudado no telefone.

O desespero foi tanto que mandei alguém a Salvador para falar com o contratante e saber o que estava acontecendo. Enviei um produtor que estava trabalhando comigo para tal missão. Como Dias D'Ávila é próxima da capital baiana, eu fui ajeitando as atrações, antecipando suas apresentações. Mas por volta das 4h da manhã, o povo já estava retado. Afinal, o que teria acontecido com Dominguinhos?

Quando o produtor voltou de Salvador, o mistério foi resolvido. Dominguinhos tinha pavor em viajar de avião. Só viajava de carro. E como ele estava rodando o Nordeste cumprindo uma grande agenda de shows, chegou atrasado à Bahia. E quando foi começar a cumprir seus compromissos, foi como uma bola de neve: começou o primeiro show com muito atraso na cidade que não lembro o nome, e só apareceu em Dias D'Ávila já com o dia amanhecendo.

Assim que ele chegou ao local do show foi um alívio, apesar de termos ouvidos muitos xingamentos e reclamações. Com razão.

A demora foi demais. Porém, quando o genial sanfoneiro entrou no palco e tocou os primeiros acordes em sua sanfona, puxando xotes e xaxados, todo mundo esqueceu e começou a dançar. Eu e minha equipe, exaustos, sentamos e ficamos apreciando o belo show. Se estivesse vivo, Dominguinhos teria completado 80 anos dia 12 de fevereiro de 2021.

Sempre que terminava as apresentações no palco, por volta das 2h da madrugada, eu ficava na praça curtindo a festa comendo uma canjica, um amendoim, tomando um licor e jogando conversa fora. Mas nesse dia eu fui direto para o hotel e me joguei nos braços de Morfeu. Recuperando energia para outra noite de São João. Que felizmente deu certo. Viva São João. Viva!

*O São João no Correio conta com o apoio da Perini, Mahalo, E Stúdio, ITS Brasil, Hotel Vila da Praia e Blueartes.

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