Onze personalidades que foram eternizadas na cobertura de sepultamentos

bahia
15.01.2019, 02:00:00
Atualizado: 15.01.2019, 14:03:43
Irmandade da Boa Morte no funeral de Jorge Amado (Foto: Welton Araújo/Arquivo Correio)

Onze personalidades que foram eternizadas na cobertura de sepultamentos

Enterros sempre foram oportunidade de recuperar trajetórias e passagens pitorescas

Nos seus últimos momentos de vida, Mãe Menininha, a “maior de todas as Ialorixás”, sentiu fortes dores no abdômen. Jorge Amado teve o caixão sacodido por integrantes da Irmandade da Boa Morte para que seu espírito se libertasse. Fãs de Raul Seixas, acreditando se tratar de mais uma peça pregada pelo roqueiro, esperavam recebê-lo vivo no Aeroporto. Antes de seu coração parar, Irmã Dulce teve convulsões e manteve-se a madrugada inteira viva, apesar da pressão arterial 3x0.     

Narrados com essas e outras tantas minúcias, os desaparecimentos de personagens que a morte não encerrou enquanto obra foram transformados em verdadeiros réquiens jornalísticos nas páginas do CORREIO. Em 40 anos, o esmero ao cobrir grandes funerais se tornou uma das marcas do jornal. Mais do que obituários, relicários de memórias e curiosidades.

Os sepultamentos (ou cremações) sempre foram tratados como a oportunidade de recuperar as trajetórias, os feitos e, claro, as passagens pitorescas dos enterros de grandes figuras. Voltar a essas reportagens nos impôs o sentimento de implacabilidade do tempo e da morte. Algo que se revela especialmente quando um Jorge Amado comparece ao funeral de um Carybé e seu dia chega quatro anos depois, como num virar de páginas de um periódico.

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Ou quando uma Dona Canô vai no enterro de ACM e desaparece cinco anos mais tarde. Logo a mãe dos Veloso, uma entidade viva? É que, na hora da morte, somos todos humanos. No caso, humanos imortais, mas humanos. Somos frágeis como o próprio ACM, que, no enterro de Luis Eduardo, seu filho, decretou que ele mesmo havia morrido nove anos antes de morrer de fato. “Perdi minha vida! Porque meu filho e não eu?”, disse, aos prantos.   

A gente percebe que morre Clériston Andrade e Neguinho do Samba, Osmar Macedo, Dom Lucas Moreira Neves e Dom Avelar Vilela, mas a história segue em frente. Apresentamos aqui algumas das maiores coberturas de funerais realizadas em quatro décadas de Correio da Bahia ou simplesmente CORREIO. É hora de relembrar como se deu o fim desses homens e mulheres cheios de poder e fragilidades.

1 ● Jorge Amado

“Morre o maior escritor do Brasil”

Os terreiros de candomblé de Salvador silenciaram, relatou uma das matérias do Correio da Bahia no dia 8 de agosto de 2001. O obá de Xangô Jorge Leal Amado de Faria havia morrido aos 88 anos, quatro dias antes de completar 89, no Hospital Aliança. “Casa onde Mãe Senhora confirmou a iniciação do grapiúna agnóstico na seita afro-baiana em 1959, o Ilê Axé Opô Afonjá esperou o contato da família para iniciar o ritual do axexê, despedida fúnebre com culto aos Eguns (espíritos desencarnados)”, narrou o texto da época.

Jorge Amado passou mal à tarde e foi internado por determinação do médico particular Jadelson Andrade. Confirmada a morte, seu corpo foi levado para o Palácio da Aclamação. O velório de Jorge era um desfile dos seus personagens, narrou o repórter Elieser César, para quem quase toda a representação humana de sua obra foi se despedir do escritor. “Eram como uma vitrine, em carne e osso, dos personagens dos livros do artista grapiúna: Só faltaram os meninos de rua, focalizados em Capitães de Areia, as prostitutas e os beberrões, como em Quincas Berro D’Água”, observou.

(Foto: Arquivo/CORREIO)

Por outro lado, dez integrantes da Irmandade da Boa Morte se ocuparam de uma cena excêntrica. Vestidas de preto, com um manto branco sobre as cabeças e carregando castiçais com velas acesas, protagonizaram um dos momentos mais emocionantes dos rituais fúnebres de Jorge Amado. O culto culminou com o gesto de balançar o caixão, simbolizando a passagem do espírito para Deus. “Não podemos revelar os mistérios dessa cerimônia”, disse irmã Anália. “Ele nos tinha com muita solidariedade. Quando precisamos, ele passou a cuia entre os amigos para nos ajudar”.

(Foto: Welton Araújo/Arquivo Correio)

Longe de destacar apenas a ligação de Jorge com o candomblé, o Correio da Bahia trouxe também os atributos literários do único baiano da história a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. “Morre o maior escritor do Brasil”, manchetou. Impossível não percorrer a sua trajetória. “Autor de 32 livros traduzidos para 48 idiomas e publicados em 50 países. Vendeu, só no Brasil, mais de 20 milhões de exemplares de suas obras. Seu trabalho foi transposto para a televisão, teatro e cinema. Tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras (cadeira 23), para a qual foi eleito em 1961”.

Tá tudo lá nas mais de 20 páginas destinadas ao mais amado dos escritores baianos. Da infância em Itabuna, uma de suas fontes de inspiração, à fama de escritor internacional. A morte de Jorge Amado teve repercussão no exterior. New York Times destacou a importância de Amado: “Em um país que o futebol é rei, Amado era chamado de Pelé do mundo literário”. Não podia ficar de fora o amor entre ele e Zélia Gattai. “Ela é meu ideal de felicidade”, disse Jorge, certa vez.

No mesmo dia em que o STF quebrava o sigilo bancário de Jader Barbalho, políticos como FHC e José Sarney marcavam presença no velório. Jorge teve o corpo cremado no Cemitério Jardim da Saudade, para onde foi levado em um carro do Corpo de Bombeiros, sob aplausos nas principais avenidas da cidade. Para realizar seu pedido, suas cinzas foram enterradas no jardim da casa do Rio Vermelho, sob uma mangueira.   

Com a morte de Amado, Oxóssi pôde juntar três dos seus filhos ilustres, escreveu o Correio da Bahia na época, inspirado na fala de uma das maiores Ialorixás dessa terra, ainda viva. “Os três filhos de Oxóssi estão se encontrando no Orum: Jorge Amado, Carybé e Camafeu de Oxóssi”, disse Mãe Stela, que na época já era Ialorixá do Afonjá há 25 anos. “Ele acreditava em Oxóssi, fazia obrigações e já era iniciado”, contestou Mãe Stela, sobre o materialismo de Amado.

2 ● Dom Avelar

“Os baianos choram a morte do seu pastor”

Os sentimentos humanitários, a capacidade conciliatória e a paciência foram destacados nos depoimentos de anônimos e autoridades políticas e religiosas durante a cobertura da morte do Cardeal Avelar Brandão Vilela. Dos mais exaltados arcebispos primazes do Brasil em toda a história, não por acaso Dom Avelar hoje é nome de bairro em Salvador. E a grandeza do seu funeral só confirmou o tamanho de sua importância.

O homem que dedicou 15 anos de sua vida à evangelização dos baianos foi sepultado com honras e uma multidão de milhares de pessoas no Centro Histórico. A Catedral Basílica, local do velório, ficou completamente lotada. O Terreiro de Jesus, do lado de fora, também se encheu de fiéis, que acompanharam o cortejo no carro do Corpo de Bombeiros, que retornou à Catedral. A homilia foi realizada por dom Eugênio Salles, que falou também dos longos dias de sofrimento de Dom Avelar.

(Foto: Arquivo CORREIO)

Teria aceitado tudo com “magnanimidade, paciência e uma fé inabalável, na certeza de que o morrer não é o final de uma vida”. Para o presidente Sarney, presente na cerimônia, Dom Avelar era uma “referência de fé sempre recorrida nos momentos difíceis do país”. À época, Sarney aproveitou a oportunidade em Salvador para visitar Irmã Dulce. A freira não pôde comparecer ao enterro do cardeal por estar com crise de insuficiência respiratória.

Em meio ao clima de pesar, já havia expectativa para o substituto do cargo e o desejo dos fiéis de que o novo cardeal de Salvador tivesse a mesma bondade que Dom Avelar tinha para com os pobres. Uma das fotos publicadas mostra o caixão cercado pela multidão e uma faixa citando uma das comunidades mais humildes da capital: “A Malvinas está de luto Dom Avelar”.

3● Raul Seixas

“Raul, você não morreu”

Eis que, aos 45 anos, Raul Seixas se foi como um bom roqueiro. “Sozinho e sem estardalhaço”, disse Dionísio Amêndola Valença, um dos fãs que desde as 7h30 estava no então Aeroporto 2 de Julho para aguardar a chegada do corpo do cantor. Havia quem sequer acreditasse no que aconteceu. “Estou aqui quase que convencido que essa é uma das peças dele”, declarou Fernando Aranha, amigo e companheiro de Raul ainda na década de 60.

Raul havia sofrido uma parada cardíaca enquanto dormia. O corpo foi encontrado em seu flat, na rua Frei Caneca, região central de São Paulo. Na chegada do corpo, em Salvador, também não teve estardalhaço. “Apenas três carros no cortejo com mais uma viatura escoltando durante todo o percurso. Somente amigos e familiares, entre eles a mãe, Maria Eugênia Seixas, acompanharam o tímido cortejo”.

(Foto: Fernando Amorim/Arquivo Correio)

Por outro lado, ao chegar no cemitério Jardim da Saudade, uma multidão de roqueiros o aguardava para a despedida ao som dos seus maiores sucessos. Foi preciso o apoio do Batalhão de Choque para evitar que a multidão entrasse na capela. O caixão foi aberto, contou uma das reportagens do CORREIO.

“O caixão foi parcialmente aberto para a retirada de um adesivo da Sociedade Alternativa e de vários bilhetes escritos à mão colocados pelos fãs em São Paulo”. No ano em que o Brasil vivia a sua primeira campanha presidencial depois do retorno da democracia após 20 anos de ditadura, a foto estampada na capa do jornal mostrava o caixão cercado pela multidão e uma grande faixa estendida: “Raul, você não morreu!”, ao lado de uma nota sobre a visita do candidato Fernando Collor de Mello (PRN) a Belo Horizonte (MG).

(Foto: Arquivo CORREIO)

O corpo de Raul foi cremado, como ele mesmo pediu na música “Canto Para a Minha Morte”. “Que meu corpo seja cremado e que as cinzas alimentem a erva. E que a erva alimente outro homem como eu”. Enquanto os fãs começavam a sentir saudades do artista, a família sofria a perda de um dos seus. “A mãe dele, dona Maria Eugênia, com os olhos inchados de chorar, segurava um terço de marfim com o qual ficou ao lado do caixão o tempo todo”. A essa altura, o amigo Fernando Aranha estava convencido. “Parece que desta vez ele se foi mesmo”, disse.

4 ● Neguinho do Samba

“Lágrimas de samba”

A melhor homenagem ao maestro tinha que ser ao som do ritmo que ele criou: “Eram 10h55 quando, do alto do casarão, um velho trompetista quebrou o silêncio cheio de luto”, descreveu o jornal na sua página 3 do dia 04 de novembro de 2009, com o título “Lágrimas de Samba”. Aos primeiros acordes do instrumento de sopro se juntou uma grande percussão, formada por dezenas de tambores tocando samba-reggae. “Apesar das lágrimas, era impossível resistir ao ritmo inventado por Neguinho”, narra a matéria.

O cortejo com o caixão parou na porta da Casa do Olodum, onde Neguinho ajudou a fundar a escola de percussão que mudou a vida de milhares de jovens. A sequencia de homenagens incluiu as mais diversas entidades. “Logo à frente o ritmo mudou para o Ijexá. Os Filhos de Gandhy e seus agogôs despediram-se de um amigo. Grupos de capoeira saíram às ruas. No Largo do Pelourinho reuniram-se os afros Ilê Ayê, Muzenza, Malê de Balê e Cortejo Afro”.

(Foto: Arquivo CORREIO)

A genialidade de Neguinho do Samba explodiu no Carnaval de 1987, com a música Faraó. A carreira musical de Antônio Luiz Alves de Souza, seu nome de batismo, começou no Ilê e, em 1983, passou a integrar o Olodum, onde fundou a escola de percussão do grupo. Em 1993, criou a Associação Educativa e Cultural Didá. O auge da carreira ficou marcado pela gravação do clipe “They don´t care about us”, de Michael Jackson no Pelourinho.

Neguinho regeu os músicos baianos que participaram da produção. Na morte do mestre, referenciando música de Gilberto Gil, o jornalista Hagamenon Brito relembrou o momento em que o neguinho Jackson encontrou o outro neguinho. “Tem dois neguinhos - um nasceu em Gary, Indiana, Estados Unidos; o outro, em Salvador, Bahia, Brasil. Um se chamava Michael Joseph Jackson (1958-2009) e o outro, Antônio Luiz Alves de Souza (1955-2009). Um, criado desde cedo para ser um astro da black music, se transformou no artista solo de maior sucesso da história da música pop após o essencial Elvis Presley (1935-1977). O outro, nascido em um país (pobre? em desenvolvimento? do pré-sal?), driblou o destino de necessidades e se tornou, no final dos anos 80, maestro de um subgênero musical (o samba-reggae) que encantou o Brasil e possibilitou seu encontro com o americano Rei do Pop, em Salvador, em 1996”.

Neguinho do Samba conheceu Michael Jackson
(Foto: Divulgação)

Neguinho morreu de infarto na sede da própria Didá. Famosos e outros personagens que beberam de sua fonte fizeram questão de marcar presença no velório e sepultamento.    Carlinhos Brown ajudou a segurar o caixão até o carro do corpo de bombeiros. Cada um dos que se inspiraram na música de Neguinho deu o seu depoimento. São falas que mostram bem a importância de Neguinho do Samba para a música da Bahia. “Ele estabeleceu o samba-reggae, que é uma escola difícil, intuitiva”, disse a cantora Margareth Menezes. “Neguinho dominava o repique tocado com duas baquetas. Gostava de experimentar. Além de grande músico, sempre foi um formador de homens”, emendou Vovô, presidente do Ilê Aiyê.

E seguiram. “Um pedaço do samba-reggae morreu junto com ele”, acreditava João Jorge Rodrigues, presidente do Olodum. “O Pelourinho está perplexo. O brilho do som do mestre Neguinho nunca mais será percebido”, lamentou o comerciante Clarindo Silva.  “Com ele, a música afro do gueto passou a ser reconhecida, a ter valor. Ele fez história”, destacou a jornalista Wanda Chase.

5 ● Mãe Menininha

“A estrela mais linda agora mora no céu”

Ainda em vida, Maria Escolástica da Conceição Nazaré já era praticamente uma entidade espiritual, uma estrela de luz própria. Por isso, chega a chocar o fato uma sacerdotisa de primeira grandeza de um grande terreiro de candomblé experimente o sofrimento nos seus últimos momentos, como mostrou uma das reportagens do Correio da Bahia em agosto de 1986. “Seu médico, Dr. Edivaldo Brito, disse que ela já chegou à clínica em estado torposo e levava a mão ao abdômen como se quisesse dizer que ali sentia dores”.

(Foto: Arquivo CORREIO)

Uma peritonite aguda lhe provocou insuficiência renal e parada cardíaca. Da clínica São Marcos, onde morreu antes mesmo de entrar na sala de cirurgia, o corpo de Menininha foi levado para o Terreiro do Gantois. “Muitas mães-de-santo choravam e deixavam estampar em suas faces o desespero e a dor sob olhares de populares e admiradores”. Ali, claro, houve culto para os Orixás. “As filhas e filhos de santo arrumavam os preparativos para a cerimônia secreta que aconteceu durante toda a noite”. Era o início do Axexê, durante 7 dias, cerimônia fúnebre secreta realizada com todas as janelas da casa fechadas.

Conhecido internacionalmente, o Candomblé de Mãe Menininha recebia visitas dos artistas mais diversos, dos políticos mais respeitados, de escritores e admiradores. Jorge Amado, por exemplo, era um dos ministros da casa, além de Carybé e o compositor Dorival Caymmi. Boa parte esteve presente na despedida. Alguns, inclusive, não conseguiram superar a multidão e se aproximar do caixão.

Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, a atriz Lúcia Veríssimo chegaram a solicitar ajuda da segurança. “A segurança não foi suficiente e Caetano preferiu se retirar com sua família”, narrou a reportagem. Enquanto isso, a comunidade não parava de cantar: ‘Ah, minha Mãe, minha Mãe, minha Mãe Menininha’, música de Dorival Caimmy que contribuiu para popularizar a figura da ialorixá em todo o Brasil’”.

(Foto: Paulo Neves/Arquivo Correio)

Filhos de santo levaram o corpo pela famosa ladeira do Gantois para o carro do Corpo de Bombeiros, que o conduziu até o Cemitério Jardim da Saudade, em Brotas. “Dezenas de ônibus e automóveis pequenos acompanharam o cortejo pelo bairro do Garcia, Campo Grande, Avenida Joana Angélica, Vale do Bonocô, Avenida Antônio Carlos Magalhães e, finalmente, Brotas, perfazendo um percurso de 15 quilômetros”, detalhou o jornal na época.

Na Bahia afro-brasileira de meados dos anos 80, filhos de santo já entravam em um cemitério da elite branca carregando um caixão e cantando em iorubá. Fazendo valer o sincretismo, uma das marcas de nossa fé, se submeteram a uma missa de corpo presente ministrada pelo Padre Hélio Rocha, da Paróquia de São Pedro dos Clérigos. Segundo a reportagem, o padre reconheceu ser uma “incoerência” rezar uma missa para uma representante do Candomblé. Em outros tempos, disse, isso seria impossível.

(Foto: Arquivo CORREIO)

“Contudo salientou que hoje a Igreja Católica está mais ecumênica ‘procurando atrair o povo e não afastando-o do seu seio’”. Resultado: “Durante a missa, muitas pessoas receberam seus orixás”. Pelas palavras do historiador Cid Teixeira, lembranças do tempo que Menininha enfrentava a violência policial. “Menininha foi a última das chefes de casas de candomblé da geração perseguida pela polícia baiana, que invadiam os terreiros com a cavalaria para acabar com o culto”, disse. O jornal então estampou um título muito sensível: “A estrela mais linda agora mora no céu: Mãe Menininha”. 

(Foto: Arquivo CORREIO)

6 ● Irmã Dulce

“Adeus, irmã dos pobres”

O coração de Irmã Dulce parou de bater às 16h45 do dia 13 de março de 1992. Segundo o texto de capa do Correio da Bahia do dia seguinte, era o fim de um martírio que duraria 16 meses, quando foi internada pela primeira vez. Antes da parada cardíaca, Irmã Dulce teve convulsões e manteve-se a madrugada inteira viva, apesar da pressão arterial 3x0. “A medicina não tem mais como explicar a resistência orgânica de Irmã Dulce”, declarou, no dia anterior, o pneumologistao Almério Machado, que acompanhou a freira desde a primeira crise.

As primeiras pessoas a serem comunicadas de sua morte, o cardeal Dom Lucas Moreira Neves e o governador Antônio Carlos Magalhães, estiveram no Hospital Santo Antônio. ACM decretou luto oficial de três dias. Na época, o Correio da Bahia iniciou uma vigília na porta do Santo Antônio muito antes do óbito. Na verdade, mais de um ano antes, confirma Ana Paula Ramos, então repórter do jornal. “Quando o estado de saúde de Irmã Dulce se agravou, pouco mais de um ano antes da sua morte, o caderno Aqui Salvador preparou um esquema de vigília no Hospital Santo Antônio. Repórteres se revezavam para a empreitada, e o jornal bancava lanchinhos para que a equipe pudesse passar a noite”, lembra.

(Foto: Arquivo CORREIO)

Confirmada a morte, o jornal inteiro foi direcionado para a cobertura, inclusive Ana Paula. “A Bahia chora a perda de uma de suas maiores líderes espirituais. Aos 77 anos, morreu Irmã Dulce, a Mãe dos Pobres”. O funeral foi gigantesco. Primeiro, uma romaria até o bairro de Roma começou a acontecer logo que a notícia foi divulgada. No dia seguinte, a Cidade Baixa foi tomada por populares, religiosos e autoridades. Depois de embalsamado, o corpo foi levado em um carro do Corpo de Bombeiros, em um cortejo até a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, como em uma Lavagem do Bonfim às avessas.

“Do enterro, lembro que fiquei a postos na região da Basílica da Conceição da Praia. Parecia uma Lavagem do Bonfim com sinal trocado: imensa tristeza ao invés de alegria. Lembro da multidão. Lembro da comoção. Lembro de grupos que passavam chorando, outros rezando terços. Lembro do Hino do Bonfim, arrepiante como sempre. Lembro do silêncio que caía de vez em quanto, pesado como um fardo, meio incompreensível. E o que mais ficou, de toda aquela experiência, foi a percepção de um sentimento de vazio que tomou conta da multidão. Nunca tinha visto nada parecido com aquilo e, como repórter, também não vi nada igual depois”, afirma Ana Paula.

7 ● Luís Eduardo

“Dor e saudade”

Depois que o então deputado federal Luís Eduardo Magalhães morreu enquanto fazia um cooper matinal, no dia em Brasília, o Correio da Bahia dedicou quase que a totalidade de sua cobertura ao fato. Ao final, após o sepultamento do seu corpo, o jornal havia dedicado mais de 40 páginas ao ocorrido. Isso porque, o falecimento prematuro do deputado, provável candidato ao governo da Bahia em 1998 (com projetos para disputar a presidência da República em 2002), causou comoção em todo o país.

“Morte prematura interrompe uma trajetória de sucesso”, titulou uma das dezenas de reportagens. A morte de Dudu, como era chamado por amigos próximos e familiares, levou muita dor aos parentes. O pai, ACM, então presidente do Congresso Nacional, se mostrava inconsolável. “Minha vida acabou! Porque ele e não eu”, se perguntava ACM quando o médico cardiologista Bernardino Tranchesi deixou a sala da UTI. Ele havia fracassado na reanimação do deputado.

(Foto: Paulo M. Azevedo/Arquivo CORREIO)

“Dor e saudade”, estampou o CORREIO em outra matéria do adeus a Luis Eduardo. O corpo do deputado havia sido trazido a Salvador no Boeing Presidencial para ser velado na Assembleia Legislativa da Bahia. Uma multidão incalculável superlotou as partes interna e externa da Alba. Uma das grandes lideranças políticas da Bahia e do Brasil no governo FHC, a morte de Luis Eduardo parou Salvador e interior. O Governo do Estado, o poder judiciário e a Prefeitura de Salvador decretaram luto oficial de sete dias. Não houve expediente nas repartições públicas e a prefeitura colocou dezenas de ônibus extras para que o público fosse levado para a Assembleia.

O próprio FHC cancelou compromissos que teria na Espanha para vir à capital baiana. “Estamos aqui para compartilhar a dor com o senador Antonio Carlos”, disse, emocionado, ao desembarcar na Base Aérea de Salvador. Políticos dos mais diversos partidos, bases e ideologias políticas também marcaram presença, confirmando o homem de diálogo que Luis Eduardo foi. Essa, aliás, era uma de suas marcas. No dia do adeus, o jornal calculou um público de mais de 100 mil pessoas entre o Aeroporto 2 de Julho, o velório na Assembleia e o Cemitério Campo Santo, onde Luis Eduardo teve seu corpo enterrado no mausoléu da família.

8 ● ACM 

“A última reverência”

Uma multidão se aglomerava na porta do Campo Santo. O Correio da Bahia de 21 de julho de 2007 descreveu a cena com pessoas nas janelas dos prédios vizinhos ou pendurados nas árvores. No total, seriam mais de 15 mil no cemitério. “Multidão disputa espaço na sua última reverência”, chamou uma das páginas.

Uma salva de tiros anunciou a entrada da comitiva. Em um evento gigantesco, que se iniciou mais cedo no velório no Palácio da Aclamação, no Centro, Antônio Carlos Magalhães tinha um funeral à altura de sua trajetória. Morreu em 20 de julho de 2007 em decorrência de falência múltipla dos órgãos.

(Foto: Arquivo CORREIO)

O caixão com o corpo de ACM foi acomodado no jazigo da quadra 16 do Cemitério Campo Santo, o mesmo que nove anos antes ele mesmo enterrou seu filho. Mais de dez carros trazidos pelos funcionários do cemitério, repletos de arranjos, foram colocados na sepultura.

A família Magalhães demonstrava união. “ACM Neto, bastante abalado, chorou na fase final da cerimônia e recebu do pai, ACM Júnior, um afago nos cabelos”, escreveu o Correio da Bahia. A cerimônia não durou mais do que 20 minutos. Mesmo depois da saída da família, anônimos que conseguiram entrar no cemitério passaram cerca de uma hora rezando e reverenciando a memória de ACM.

9 ● Osmar Macedo

“Terça-feira de cinzas”

O último desejo de Osmar Álvares Macedo, o Osmar, provavelmente reiterado em um leito do Hospital Espanhol, onde morreu, era de que o seu enterro não tivesse choro, mas festa. Exatamente como ocorreu quase 20 anos antes, em 1978, no enterro de Adolfo Nascimento, o Dodô. “O velho queria uma festa e a gente tem de fazer essa homenagem na despedida dele”, disse Armandinho Macedo, um dos seus filhos.

(Foto: Arquivo CORREIO)

Desejo cumprido. “Pelo menos dez trios elétricos participam hoje do enterro de Osmar Macedo. Eles acompanharão o corpo do inventor do trio elétrico pelas ruas do circuito principal do Carnaval de Salvador - do Campo Grande à Praça Castro Alves/Campo Grande”, anunciou o Correio da Bahia de 1º de julho de 1997. “Carnaval da Bahia sem Osmar”, manchetou. “Hoje, durante e depois do sepultamento, haverá festa no Centro da cidade, circuito

O velório no Palácio da Aclamação recebeu artistas, autoridades e jornalistas de todo o país. Os trios Tiete Vips, Top 69 e Espacial estavam entre os caminhões trieletrizados que percorreram o trajeto do Carnaval junto com o carro do Corpo de Bombeiros que levou o corpo de Seu Osmar até o Jardim da Saudade.

Apesar dos trios e da música, o clima era de quarta-feira de cinzas. Na verdade, “terça-feira de cinzas”, escreveu o Correio da Bahia em uma foto de anúncio em forma de homenagem ao pai do trio elétrico. Músico e engenheiro, Osmar foi um dos inventores do trio elétrico junto com Dodô, em 1950, quando transformaram um Ford 1929 que usavam para transportar ferro em palco das apresentações. “No último Carnaval, Osmar reinou, soberano, no seu último adeus à folia que ele trieletrizou”.

10 ● Carybé

“Luto nos terreiros”

Ao conhecer Salvador, o argentino Hector Júlio Páride Bernabó, o Carybé, teve certeza que essa terra seria sua eterna e inesgotável fonte de inspiração. Essa relação apaixonada foi destaque nas homenagens do Correio da Bahia quando o artista plástico morreu, em 1º de outubro de 1997. “O vínculo mantido com o Candomblé foi tão forte que se transformou em uma das principais fontes de inspiração de sua obra”, publicou em uma das reportagens sobre a despedida.

Em quatro páginas, o jornal revelou a forma curiosa com a qual Carybé conheceu a Bahia: “Conheceu Salvador, primeiramente, através do livro Jubiabá, de Jorge Amado. Encantado com a descrição do escritor, que mais tarde se tornaria um dos seus melhores amigos, veio ver de perto a “cidade de sonho. Aqui, Carybé se entregou ao candomblé, levado por Mãe Senhora, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá”.

(Foto: Paulo M. Azevedo/Arquivo CORREIO)

“Eu sou pagão. Não fui batizado. Minha religião é o candomblé”, disse ao Correio da Bahia, anos antes de morrer. Quis o destino que Carybé sofresse um ataque cardíaco no terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, onde era Obá de Xangô. Mãe Stella de Oxóssi, líder espiritual do terreiro, não foi ao sepultamento do irmão de santo por estar cumprindo uma obrigação de Oxalá.  

Seu funeral, no Jardim da Saudade, teve a participação até mesmo de um abade: “O abade dom Emanuel, do Mosteiro de São Bento, prestou homenagem a Carybé e rezou pela sua alma: “Carybé é um amigo e amizade não tem religião. A amizade é ecumênica”, disse. Vários famosos participaram do velório: os escritores Jorge Amado, Zélia Gattai, os atores Carlos Petrovich e Nilda Spencer, o historiador Cid Teixeira, o escritor Claudius Portugal, os artistas plásticos Tati Moreno e Mário Cravo e o cantor Bell Marques. “Eu perdi um amigo. Não sei se ele é mais artista ou gente. O que é que vou dizer sobre Carybé? Um cara porreta. Outros artistas da Bahia estão aí, mas nenhum comungou tanto a humanidade com a arte. Nisso ele foi insuperável”, disse Cid Teixeira.

11 ● Dona Canô

"Tô indo pro céu"

A Igreja de Nossa Senhora da Purificação só ficava lotada, todos os anos, no dia da padroeira da cidade. Mas, essa regra só valeu até o dia 27 de dezembro de 2012. Quando Dona Canô morreu, o templo ficou tão cheio quanto no dia da santa. A diferença era que, em vez da festa e da música, o clima era de tristeza e silêncio. Um cortejo com mais de 4 mil pessoas, a maioria de branco, acompanhou o corpo da mãe de dois gênios da Música Popular Brasileira (MPB). Era gente que sempre rezou ou que nunca tinha rezado a novena de Claudionor Viana Veloso, quase uma entidade viva do Recôncavo Baiano. “Cidade saudosa”, trouxe no título umas das matérias do CORREIO”.

(Foto: Arquivo CORREIO)

Com o olhar abatido e as mãoes trêmulas, Maria Bethânia chegou às 7h45 do dia do funeral. “Borrifou sobre o caixão o perfume preferido de Dona Canô (Jo Malone-London)”. Caetano, Clara, Mabel, Rodrigo, Roberto e Irene, os outros filhos, se juntavam à Bethânia nos cuidados com o corpo. Na frente do cortejo, representantes da Irmandade de Nossa Senhora do Amparo. O cortejo com o corpo de dona Canô, conhecida pela sabedoria, simplicidade e generosidade, chegou ao cemitério municipal às 10h40. “Nunca vi isso aqui assim”, disse o antigo coveiro do cemitério.

Dona Canô havia morrido dois dias antes, em 25 de dezembro, em pleno Natal. “Enquanto o resto do mundo celebrava, a pequena Santo Amaro chorava a morte de sua filha mais querida”, escreveu uma das reportagens. Aos 105 anos, não resistiu a insuficiência respiratória seguida de parada cardíaca. Uma semana antes, quando sofreu uma isquemia e foi levada ao Hospital São Rafael, disse ao compadra Jorge Portugal: “Tô indo por céu”. “Há um vazio, uma tristeza, uma saudade, mas a gente teve o privilégio de tê-la por 105 anos”, disse a filha Mabel.


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