Orquestra Afrosinfônica lança disco para ouvir e lavar a alma

entretenimento
24.11.2020, 06:00:00

Orquestra Afrosinfônica lança disco para ouvir e lavar a alma

Selo do BaianaSystem assina o trabalho

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As mensagens não paravam de chegar. Eram tantas, que o maestro Ubiratan Marques, 53 anos, não deu conta e desligou o celular um pouco. Bira, como é conhecido, conta que ficou surpreso com a repercussão do novo disco da sua Orquestra Afrosinfônica: Orin – A Língua dos Anjos, lançado na última sexta-feira pelo selo do grupo BaianaSystem, o Máquina de Louco. 

“Não sei o que tem dentro desse negócio, não, mas pela quantidade de artistas falando, alguma coisa a gente mexeu. Está tocando as pessoas”, disse sorrindo, em conversa com o produtor André Magalhães. O maestro pode até não saber explicar o que despertou a sensibilidade das pessoas, mas acredita que vai além do mundo físico e diz respeito ao campo espiritual.

O próprio nome do álbum já sugere esse conceito que costura as músicas. Orin - que tem participação de Mateus Aleluia, Gerônimo, Lazzo Matumbi, BaianaSystem e Dodo Miranda - é “uma forma de tentar traduzir essa ideia platônica do mundo das ideias e o mundo dos sentidos”. Ou seja, serve de ponte entre aquilo que se vive e o que se sente.

“Branco (2015), primeiro álbum da gente, era uma espécie de homenagem a oxalá. Já em Orin, eu vou falar sobre a conexão com esse mundo dos terreiros, dentro das catedrais e dentro de cada um”, explica Bira, sobre o álbum que reúne letras em português e iorubá. A proposta partiu de uma provocação do cantor e compositor Mateus Aleluia, com quem Bira tem forte relação espiritual.

"Maestro Bira Marques é uma parceria que já estava escrita nas estrelas. Antes de conhecer o maestro nós já fazíamos músicas juntos. Tudo começa na espiritualidade e nós fazemos assim. Parceiro de ontem, parceiro de hoje, parceiro de sempre" - Mateus Aleluia, cantor e compositor

A primeira vez que encontrou Seu Mateus, como respeitosamente chama o amigo, “foi como se fosse uma pessoa que fizesse parte da minha família”. Imediatamente Bira, que é filho e neto de ialorixás, se transportou para sua infância. “A música dele era muito próxima da música que minha avó tocava”, justifica. Desde então, Bira e Mateus Aleluia se falam toda semana.

Nesses encontros, não foram poucas as vezes que Seu Mateus disse a frase: “Vamos usar a língua dos anjos”. Bira acatou o convite. “O disco fala sobre esses mistérios, essa ponte que liga o homem ao mundo invisível. A música vem de um lugar totalmente invisível e se materializa no instrumento. De repente, a gente tem nesse mundo físico, nesse mundo dos sentidos, aquela imagem”, explica.

O produtor André Magalhães com Lazzo Matumbi, Gerônimo, Roberto Barreto, Russo Passapusso e o maestro Ubiratan Marques
O produtor André Magalhães com Lazzo Matumbi, Gerônimo, Roberto Barreto, Russo Passapusso e o maestro Ubiratan Marques (Foto: Wesley Rosa/Divulgação)

Cinema
Como na trilha sonora de um filme, o disco cria imagens na mente de quem escuta. “Sempre procuro ‘enxergar’ o que estou escutando. Orin é como um riacho coberto de milhares de folhas coloridas pelo outono, formando e dissipando elegantes formas quase que simultaneamente. Formas dinâmicas, fluidas, modernas e ao mesmo tempo ancestrais”, compara o artista plástico Vik Muniz, que assina a arte de capa do disco.

Apesar do forte componente instrumental, e do coro feminino, esse álbum foi todo feito com imagens, explica Bira. Isso só é possível, continua, porque a música “tem a capacidade de abrir uma janela para diferentes cenários”. “Ela te leva para muitos lugares, o tempo todo, ela tem essa força”, reforça, entusiasmado. Ou seja, para escutar Orin, é necessário se despir da tradicional ideia da música de concerto.

“A Afrosinfônica, com essa relação afro-jazz-espiritual-baiano, traz nesse disco camadas diferentes do trivial, que o público já consegue entender dentro dessa musicalidade de orquestra. É um disco mesmo para ouvir com o coração, tirando as racionalizações musicais e os referenciais que a gente já tem”, defende o cantor do BaianaSystem, Russo Passapusso.

A capacidade imagética do disco é para Russo uma válvula de escape. “Traz um alento, um alívio conduzido pela musicalidade da orquestra”, elogia. “Esse disco tem um sentido premonitório no que diz respeito a como a energia musical e artística está se comportando dentro da pandemia. É um disco rezado para lavar a alma. Cai como uma luva no coração dolorido desse país”, conclui o cantor.

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