Pai da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa revela bastidores de sua vida em biografia

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26.06.2017, 09:47:00
Atualizado: 26.06.2017, 09:51:31

Pai da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa revela bastidores de sua vida em biografia

Mauricio: A História que não está no Gibi é escrito em primeira pessoa, a partir do depoimento do desenhista para o jornalista Luís Colombini

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Quem conhece os planos infalíveis de Cebolinha contra a Mônica, sabe da paixão de Magali por melancia e acompanha a eterna saga de Cascão para não tomar banho não imagina o que o cartunista paulista Mauricio de Sousa, 81 anos, pai da famosa turminha, ouviu há mais de 60 anos: “Desista, menino. Desenho não dá dinheiro nem futuro para ninguém. Vá fazer outra coisa da vida”.

A frase desmotivadora veio como resposta à tentativa de emprego no jornal Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo), aos 19 anos. “Achei que o chefe de arte ia fazer algum comentário sobre meu trabalho, um elogio ou reparo, uma observação, alguma crítica, mas nada, nem tocou no assunto”, lembra o criador da Turma da Mônica em sua primeira biografia, Mauricio: A História que não está no Gibi (Sextante | 336 páginas | R$ 49,90 | R$ 30, e-book).

O desenhista Mauricio de Sousa, 81, revela detalhes da vida e da carreira em biografia (Foto: Divulgação)

Escrito em primeira pessoa, a partir do depoimento de Mauricio para o jornalista Luís Colombini (autor de Guga: Um Brasileiro), o livro revela os detalhes por trás do sucesso das histórias em quadrinhos que atravessam gerações. A obra conta, por exemplo, como o garoto tímido do interior de São Paulo acabou virando repórter policial no mesmo jornal que fechou as portas para seus desenhos, no primeiro momento: “logo eu, que desmaiava quando via sangue”, narra Mauricio.

Além disso, a biografia revela que antes de ser dono do estúdio Mauricio de Sousa Produções - com cerca de 400 funcionários, quase 400 personagens criados, mais de 3 mil produtos licenciados e mais de 1 bilhão de gibis vendidos -, Mauricio foi engraxate, trabalhou de graça como ilustrador em uma fábrica de discos e até virou datilógrafo de uma empresa que aplicava golpes nos clientes sem ele saber. Por conta disso, acabou sendo preso e passou algumas noites na cadeia.

Aprender a ler
“O mais importante que tenho para contar é que minha carreira não foi pautada só com sucessos e coisas que deram certo. Seguiu uma trilha de muito trabalho, muito esforço”, explica o cartunista de fama internacional, ao telefone. “Mas o que não dá certo, nos ensina novos caminhos e nunca na vida eu desanimei. Então queria passar para os jovens leitores e candidatos a desenhista que a vida não é fácil, mas que não é impossível atingir os objetivos que a gente sonha”, completa, otimista.

A biografia de Mauricio de Sousa reúne fotos de arquivo da família do desenhista, como no Natal onde reuniu seus dez filhos, além de netos e bisnetos. Entre os filhos, estão Mônica, atual diretora executiva da Maurício de Sousa Produções, e Marina Takeda, desenhista e roteirista da Turma da Mônica (Foto: Acervo Pessoal)

Um dos principais cartunistas do país, Mauricio resgata momentos marcantes em sua autobiografia, que teve os direitos vendidos para o cinema e deve estrear em 2018. A começar pela época em que era apenas um garoto tímido que morava no interior de São Paulo, onde descobriu os primeiros gibis em uma lata de lixo.

O fascínio pelos quadrinhos fez com que o futuro desenhista aprendesse a ler, história que se confunde com a de muitos brasileiros que desde cedo mergulharam no universo da Turma da Mônica e cresceram com suas inconfundíveis HQs. “Me sinto orgulhoso por ter contribuído com a alfabetização de milhões de brasileiros”, agradece Mauricio, em tom doce e simpático.

Dividida em 39 capítulos, a biografia reúne fotos da infância, da família que inspirou as principais personagens e de outros momentos. Entre as imagens, está uma com o primeiro carro comprado com o dinheiro da venda dos três primeiros livros da Turma da Mônica. Publicados pela editora FTD, todos foram feitos em apenas sete dias, com “expedientes extensos, refeições rápidas e noites maldormidas”.

“Realizar aquela proeza deu a sensação de que eu podia vencer qualquer obstáculo, superar qualquer limite, fazer qualquer coisa. Então, dias depois, comprei um carro zero quilômetro sem ter carteira de motorista e sem saber dirigir”, revela Mauricio.

Sem Polêmica
Após ganhar uma falsa fama de comunista, como também conta no livro, Mauricio virou persona non grata na imprensa em plena Ditadura Militar e desde então evitou misturar ideologia e arte. Uma das críticas ao seu trabalho, inclusive, é a de que seus personagens abordam poucos temas polêmicos.

O livro resgata, ainda, o registro do encontro com o cartunista argentino Quino, criador da Mafalda, em Buenos Aires, em 2015. Na ocasião, Mauricio doou um desenho da Mônica com a Mafalda para o Centro Cultural Brasil-Argentina (Foto: Divulgação)

“Um gibi tem custo e ele precisa viver da venda, tem que viver do que rende na banca e na livraria. Se eu puser temas que de alguma maneira conflitem com o gosto do público, com as tendências, não vou vender, não vou ter resultado. Como fico para pagar meus 400 funcionários? Tenho realmente que pensar de forma prática”, justifica, dizendo que só trata de assuntos já aceitos pela sociedade.

“Quero ampliar nosso hall de temas e eventualmente tratar assuntos meio problemáticos”, continua. “Mas não posso jogar nas livrarias um livro que vá provocar polêmica. Somos uma empresa comercial e não temos verba especial para experimentação. Temos que ir devagar. Foi essa maneira mais prática e menos perigosa que me trouxe até aqui”, explica o dono da maior indústria brasileira de quadrinhos.

Apesar de não investir em polêmicas, Mauricio ressalta que aborda muitos temas delicados e busca conduzir suas histórias de forma educativa, tendo o desejo antigo de participar do ensino formal. “O gibi da Mônica é uma cartilha informal que faz seu papel e ajuda bastante. Cada vez mais vou fazer o possível para entrar nas publicações paradidáticas”, garante.

Registro feito nos corredores da 23ª Bienal do Livro de São Paulo, em 2014, com o cartunista Ziraldo, “grande inspiração e amigo desde 1960, quando ele trabalhava para os Diários Associados” (Foto: Divulgação)

Apesar disso, Mauricio lamenta não ter conseguido ainda. “Conscientemente, as pessoas sabem que precisam valorizar a cultura e a educação, mas os caminhos de investimentos são difíceis e confusos. Muda o governo e todo o processo planejado a longo prazo (porque educação não é de uma hora para a outra), cessa e agente continua no vazio”, critica. “É uma pena que não posso trabalhar, ainda, com autoridades de ensino nesse país”, lamenta.

Mesmo com as dificuldades relatadas, o desenhista garante que é apaixonado por sua profissão. “Adoro ser artista, porque é uma liberdade tão grande que você tem de mostrar o universo... A arte é a cópia agradável da realidade do mundo. É uma maneira gostosa que o artista tem de retratar o que sente, o que acha das observações do mundo. Arte é uma varinha mágica que transforma qualquer coisa”, se declara.

Com quase 82 anos, Mauricio garante não temer o fim da sua produtiva vida. “Não temo, porque não existe finitude. Pelo que você faz, realiza no período de vida, você influencia o futuro. A humanidade caminha com tropeços, momentos de não paz, mas com esperança de que o homem procura a felicidade, seja onde for. Sou um otimista por princípio”, garante.

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