Panorama Coisa de Cinema revela diversidade da filmografia nacional

entretenimento
10.02.2021, 05:59:00
Atualizado: 10.02.2021, 06:38:31
No sentido horário, baianos indicados à Competitiva de Longas: O Amor Dentro da Câmera, Rio de Vozes e Eu, Empresa (Fotos: divulgação)

Panorama Coisa de Cinema revela diversidade da filmografia nacional

Festival acontecerá online e grátis a partir de 24 de fevereiro

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Há poucos meses, no auge da pandemia, Cláudio Marques, um dos coordenadores do Panorama Internacional Coisa de Cinema,  disse que resistia a realizar uma edição online do evento, como estava acontecendo com praticamente todos os festivais, já que as salas de cinema não estavam funcionando.

Para Cláudio, que é também cineasta e sócio do Espaço Itaú Glauber Rocha, o Panorama é marcado pelo encontro de pessoas, pelo “olho no olho”, pelo aperto de mãos. E o formato digital não proporciona isso. Mas, diante da permanência da pandemia, ele acabou cedendo: “A gente trabalhou muito no ano passado, vimos mais de mil filmes. Aí, só tínhamos duas opções: abdicar de tudo ou fazer online e marcar presença, para mostrar que estamos ‘vivos’, o que é muito importante”.

E, para a satisfação dos cinéfilos, começa no dia 24 mais uma edição do evento, que acontece pela 16ª vez. A programação, gratuita, segue até o dia 3 de março e os filmes permanecem disponíveis por 24 horas após seu lançamento.

Nesta semana, a Prefeitura de Salvador autorizou a reabertura dos cinemas. No entanto, não há tempo de preparar o Panorama para as salas. Por isso, Cláudio cogita exibir os premiados brevemente.

Competitiva

Dentro do Panorama, uma das mostras mais esperadas é a Competitiva Nacional de Longas, que desta vez tem oito concorrentes. E o CORREIO divulga hoje, com exclusividade, a lista: A Flecha e a Farda, de Miguel Antunes Ramos; O Amor Dentro da Câmera, de Jamille Fortunato e Lara Beck Belov; Depois da Primavera, de Isabel Joffily e Pedro Rossi; Filho de Boi, de Haroldo Borges e Ernesto Molinero; Rio de Vozes; de Andrea Santana e Jean Pierre Duret; Vil, Má - Divinely Evil, de Gustavo Vinagre; Eu, Empresa, de Leon Sampaio e Marcus Curvelo; e Voltei!, de Ary Rosa e Glenda Nicácio.

A Flecha e a Farda

Cada festival tem suas peculiaridades e normalmente há uma certa coerência na seleção de filmes em cada um deles. No caso da Competitiva deste ano no Panorama, Marques destaca a diversidade que marca os selecionados: “O Panorama desde sempre foi pensado em termos de diversidade de produção, na diversidade da forma como está sendo produzido o cinema brasileiro. Os filmes não se parecem entre eles, mas, juntos, formam um panorama da forma como o cinema brasileiro hoje está sendo pensado, seja esteticamente ou seja em conteúdo”.

Vil, Má

Há também algo em comum entre os diretores dos longas da Competitiva, segundo Cláudio: “Todos eles têm alguma experiência, mas não são consagrados. Então, o festival precisa promover esses filmes de artistas instigantes, que não estão consolidados".

Provocado pelo repórter a apontar os destaques da mostra, ele, compreensivelmente, prefere não “recomendar” nenhum filme especificamente. Afinal, na função de diretor do festival, não deve ser mesmo uma situação confortável. E ressalta: “Faço questão de dizer: gosto muito de todos os filmes”.

Conceição Senna

Mas Cláudio Marques destaca as qualidades de algumas produções, como O Amor Dentro da Câmera, realizado por diretoras (ambas baianas) que têm uma relação próxima com os personagens do documentário, o casal Orlando e Conceição Senna. “É difícil fazer um filme sobre e com alguém que é nosso ídolo. É ‘fácil’ errar. Mas há no filme uma tensão entre os personagens que me interessa muito”, ressalta o curador.

Jamile e Lara haviam sido alunas de Orlando num curso de cinema e acabaram ficando amigas dele e de Conceição. “O eixo do filme é o amor, é o cotidiano do casal na casa deles, a vivência do amor... E  a gente entrelaça isso com o cinema brasileiro, com o continente latino-americano e a arte”, diz Lara Beck Belov.

Ela ressalta que a “latinidade” é muito presente no casal, que viveu em Cuba por dez anos e viajou por muitos países da América Latina. Essas viagens estão registradas no documentário, em fotos e vídeos de arquivo que eram do casal.

Vale ressaltar que Conceição Senna é a homenageada desta edição do Panorama. Serão exibidos o documentário Brilhante (2005), dirigido por ela, e Abrigo Nuclear (1981), ficção científica de Roberto Pires em que ela participa como atriz. Brilhante aborda a relação criada, ao longo de 25 anos, entre a população de Lençóis e o filme Diamante Bruto, de Orlando Senna.

Outra dupla baiana está na direção do longa Eu, Empresa: Leon Sampaio e Marcus Curvelo. No filme, um jovem desempregado tenta obter renda trabalhando com aplicativos e criando um canal no YouTube, onde conta suas histórias de fracasso. “Eles conseguem fazer uma crítica a esse ‘novo empreendedorismo’, que as grandes empresas tentam vender pra gente, mas que no fim traz uma grande miséria”, explica Cláudio Marques.

O filme, segundo Marcus Curvelo, tem um formato híbrido, entre a ficção e o documentário: “Algumas cenas têm pessoas representando elas mesmas e em outras há pessoas interpretando personagens fictícios. O filme é um olhar crítico sobre este momento, em que há precarização do trabalho”.

Os indicados à Competitiva Nacional de Longas

Eu, Empresa (BA/MG) , de Leon Sampaio e Marcus Curvelo. Um trabalhador informal enfrenta problemas financeiros. Sem oportunidades de trabalho, cria um canal no Youtube pra tentar monetizar suas pequenas histórias de fracasso.

O Amor Dentro da Câmera (BA), de Jamille Fortunato e Lara Back Belov. Documentário que conta a história de Conceição e Orlando Senna, desbravadores do Audiovisual, que vivem um romance de quase 60 anos, atravessados pela História do cinema e da América Latina.

A Flecha e a Farda (SP) , de Miguel Antunes Ramos. Em 1970, oitenta indígenas marcharam, fardados, para a cúpula do regime militar. Cinquenta anos depois, o filme busca estes guardas, suas memórias. As fraturas, os silêncios, aquilo que permanece e aquilo que se perde na violenta história brasileira.

Filho de Boi (BA) , de Haroldo Borges e Ernesto Molinero. Um adolescente calado e tímido surpreendentemente é escolhido para ser palhaço de um pequeno circo que chega à sua cidade. Um retrato sobre o Brasil contemporâneo, um universo de masculinidade e preconceito.

Filho de Boi

Depois da Primavera (RJ) , de Isabel Joffily e Pedro Rossi. Os irmãos sírios Adel e Hadi Bakkour vão às ruas do Rio de Janeiro lutar por democracia. Antes, haviam feito o mesmo em Aleppo, na Síria. Agora, reencontram a família, seis anos após a separação, em um Brasil que está se transformando

Depois da Primavera

Voltei! (BA), de Ary Rosa e Glenda Nicácio. As irmãs Alayr e Sabrina estão ouvindo no radinho de pilha o julgamento que pode mudar os rumos de um país sem energia. Elas são surpreendidas por Fátima, a irmã que volta dos mortos para confraternizar nessa noite histórica.

Voltei!

Rio de Vozes (BA), de Andrea Santana & Jean Pierre Duret O rio São Francisco banha as terras semiáridas do sertão brasileiro. Está hoje fragilizado pelo desmatamento de suas margens e a superexploração da agricultura intensiva. A vida dos habitantes da vasta região abarcada por este grande rio está ameaçada.

Vil, Má - Divinely Evil (SP), de Gustavo Vinagre. Wilma Azevedo é uma escritora de contos eróticos e dominatrix de 74 anos. Mas ela é também Edivina Ribeiro, jornalista, mãe de 3 filhos, religiosa e esposa dedicada. Qual delas criou a outra?. Selecionado para o Festival de Berlim em 2020.


 

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