Paraíso perdido: queda na produção de petróleo afasta empresas e gera desemprego

bahia
10.04.2019, 05:30:00
Atualizado: 10.04.2019, 11:39:12
Edson Fernandes da Silva, proprietário do Paradise (Foto: Evandro Veiga)

Paraíso perdido: queda na produção de petróleo afasta empresas e gera desemprego

Crise muda rotina em cidades com reservas de óleo e gás na Bahia

“Estamos entrando em colapso”. O aviso é do engenheiro Edson Fernandes da Silva, 63 anos, em voz baixa, pausada. Mas a observação não se refere a uma unidade industrial à beira da destruição, ou a alguma estrutura prestes a despencar. Edson, 63 anos, fala sobre a cidade de Catu, há 90 quilômetros de Salvador. O empresário do setor de hospedagem e alimentação foi atraído há quase 30 anos para uma “cidade que não dormia” e de “pleno emprego”. Uma cidade que não existe mais. 

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Em 1990, o ex-funcionário do Polo de Camaçari encontrou o lugar perfeito para realizar o sonho de cuidar do próprio negócio. Nascia o Hotel e Restaurante Paradise. Um paraíso para o empresário, que via o empreendimento crescer junto com a produção de petróleo na própria Catu e em outras cidades da região, como Alagoinhas, Pojuca, Mata de São João e Entre Rios. Nos tempos de glória, o Paradise chegou a servir 1,2 mil refeições por dia. Hoje saem, em média,  80. Nos melhores momentos, o empresário chegou a ter 50 funcionários – quase três vezes mais que os atuais 16. 

O baque no Paradise está longe de ser um caso isolado e pode ser compreendido a partir de uma outra retração. Em 90, quando Edson iniciou a atividade empresarial em Catu, a produção média de petróleo nos poços em terra (onshore) na Bahia tinha sido de quase 70 mil barris/dia, contra pouco mais de 30 mil barris/dia no último ano. 

“Nossa cidade está se tornando decadente há alguns anos. Primeiro houve o problema com o preço do petróleo, depois foi a Petrobras quem perdeu o interesse pelos poços terrestres. Hoje só pensa no pré-sal”, lamenta Edson.

A explicação, à altura de um especialista no setor de óleo e gás, não se dá por acaso. Em Catu e nas outras cidades da Bacia do Recôncavo, o que acontece no mercado do petróleo tem caráter decisivo para a vida das pessoas. “O petróleo é a vida de Catu. Nós estamos entrando em colapso neste cenário”, lamenta.

Em 2008, ele iniciou uma reforma para a ampliação na quantidade de leitos do hotel. Os planos eram de construir 45 leitos, mas a crise interrompeu as obras com 25 leitos prontos. “Parei de investir. Hoje, se der para fechar as minhas contas, dou graças a Deus”, diz. 

Reação em cadeia
Entre a arrecadação de royalties e a arrecadação de tributos com empresas que atuavam diretamente com a produção de petróleo, ou dando suporte à atividade, a indústria de óleo e gás responde por aproximadamente 8% da arrecadação de Catu, calcula o prefeito Geranilson Requião. Há 20 anos, os números superavam os 30% da receita bruta, estima. 

Tivemos uma perda brutal no ICMS (Impostos sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), com a saída de empresas que atuavam aqui e com a redução no caso de outras que permaneceram”, conta o prefeito.

Segundo ele, o município tenta se ajustar à nova realidade, mas o petróleo é fundamental para a sobrevivência do município. 

Requião conta que a rede de serviços públicos, nas áreas de educação e saúde, principalmente, está sobrecarregadas. Além de uma queda nas receitas, houve um aumento nas despesas. “Antes tinha muita gente aqui que trabalhava diretamente na Petrobras, ou em empresas prestadoras de serviços, que tinham salários bons e condições para bancar a educação dos filhos, além do plano de saúde. Agora, quando alguém fica doente, o único recurso é a rede de saúde pública". 

Catu tem o cavalo mecânico quase como um monumento. Os principais marcos de localização são antigas estruturas da Petrobras. Mas, hoje, o que se espera por lá é uma posição da empresa, ainda que seja no sentido de passar seus ativos para outros operadores. “Nós não fomos os únicos que sofreram com a crise na Petrobras. Este processo de saída da empresa está deixando um legado terrível”, lamenta.  

Estruturas que são utilizadas na produção de petróleo em terra, abandonadas no município baiano de Catu (Foto: Evandro Veiga)

Queda na demanda
A locadora que a família do empresário Paulo Mathias possui atua em Catu há 23 anos. Ele conta que há 15 anos a realidade da cidade era totalmente diferente. “Nos últimos dois anos, a situação da cidade se agravou bastante. Todos sentimos o impacto. A Petrobras reduziu bastante a demanda por serviços e muitas empresas que atuavam aqui simplesmente desapareceram”, conta. 

Nos melhores momentos, a locadora chegou a empregar 60 motoristas, todos com carteira assinada, lembra. A frota, que era de 120 veículos, foi reduzida para 40. “Não temos mais motoristas contratados, a nossa equipe se resume a nossa secretária”, diz. 

Ivo Garcia de Santana, 37 anos, motorista carreteiro e montador industrial, conhece bem os efeitos da crise. O morador de Pojuca explica que hoje as oportunidades são escassas e com salários piores. “É muito comum ser contratado e depois de um tempo a empresa falir”, conta. Na montagem de linhas, ele conta que chegou a trabalhar numa empresa com 800 funcionários, que hoje não emprega mais de cem. 

Um caso emblemático na região é o da Lupatech, uma antiga potência no setor de sondas, que chegou a ter 19 equipamentos de perfuração e fechou as portas em 2015, deixando para trás mais de 800 desempregados. A antiga sede da empresa abriga apenas um vigilante, que guarda o prédio em ruínas. 

Perto dali, na Estação Santiago, da Petrobras, o mesmo cenário. Nos bons tempos, um pool de 50 ônibus transportava trabalhadores de diversas cidades baianas. 

No Campo de Santana, o operador Fabrício Estrela de Souza, 41 anos, é uma exceção. Há seis anos, ele trabalha para a Santana Energia, monitorando a produção no poço de 1,6 mil metros de profundidade. A entrada no mundo do petróleo se deu por curiosidade. O pai trabalhou na área. O tio, o irmão e um primo. “Hoje o mercado de trabalho está menos aquecido porque tem muitos poços parados. A gente torce muito para reaquecer”, afirma.

Fabrício Estrela de Souza realiza o sonho de viver do trabalho com petróleo. O operador de campo, de 41 anos, conta que o trabalho na área de óleo e gás é uma tradição na família dele (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Bruna Santo Ato tem como único sinal de que vive numa área com grande riqueza no subsolo o barulho intermitente do gerador que mantém o cavalo mecânico funcionando dia e noite nos arredores da Estação Santana, em Catu. Só recentemente a iluminação pública chegou por lá, mas “só para iluminar lá no poço”. Falta segurança, água e um projeto educacional, para evitar que as filhas da dona de casa de 19 anos tenham que percorrer 15 quilômetros de estrada de terra todos os dias para estudar.

"Na realidade, a gente sabe que existe essa riqueza aqui, que vem empresas para explorar, mas não há nenhum tipo de relacionamento com a comunidade", afirma Bruna.

Bruna Santo Ato (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Faltam empregos e água em Buracica
A cozinheira Elisângela Teles Damasceno, 37 anos, nascida e criada no distrito de Bonião, acompanha de perto o dia a dia da produção de petróleo em uma das mais importantes áreas produtoras do estado. Em frente ao restaurante em que ela trabalha com a irmã está a Base de Produção de Buracica, sede da Petrobras na região. 

O campo de Buracica, no município de Alagoinhas, é um dos mais antigos ativos da Petrobras no Brasil. Sua descoberta, no dia 20 de abril de 1959, ajudou a redesenhar não apenas a realidade econômica daquela região, mas da própria Bahia e do Brasil. Hoje, entretanto, com o declínio da produção, restou aos moradores lidar com o desemprego e a falta de água potável. 

Mesmo nos dias mais fracos, o restaurante recebe pelo menos 40 pedidos de trabalhadores da base da Petrobras. “Quando tem alguma empresa prestando serviço, aí é mais do que o dobro”, conta Elisangela. Os PFs de churrasco, mocofato, caruru e feijoada não dão para quem quer. “Eles gostam de comida pesada mesmo”, ri. 

Entretanto, o que tem tornado um peso insuportável à vida naquelas bandas é a dificuldade para arrumar trabalho e a falta de água, que vem se tornando um problema crônico, segundo os relatos da população.  “Aqui se vive da zona rural mesmo, mas sem água tem muita gente passando dificuldades”, conta a cozinheira.

O presidente da Associação da Comunidade de Buracica, Davi Barbosa, acredita que a falta de água é o mais grave problema da região. Ele acusa a Petrobras de utilizar toda a água disponível para injetar nos poços de petróleo e deixar a população sem nada. 

“Nós já vivemos da pesca no Rio Una. A comunidade era rica, mas os lençóis freáticos foram destruídos. Até o ar está poluído”, reclama Barbosa. Segundo ele, recentemente, a Petrobras substituiu a água, que era fornecida em tubos de ferro para a população por carros-pipa, que demoram a passar. “Empregos, quando tem, são muito poucos, mas conseguimos negociar. Essa questão da água que é mais grave”, aponta. 

A reportagem questionou a Petrobras sobre a produção de petróleo na Bahia e os questionamentos da população sobre a oferta de água, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.


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