Paulo Sales: O mundo é um monstro

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  • Paulo Sales

Publicado em 31 de março de 2017 às 03:51

- Atualizado há um ano

Eu hoje acordei meio deprimido, sem saber exatamente o motivo, como de vez em quando acontece. Algo se processa em minha mente enquanto durmo e de manhã percebo o estrago. Então lembrei que, pouco antes de dormir, tinha lido a notícia de que a garotinha de 5 anos estuprada e torturada na Índia havia morrido no hospital. Aquilo doeu de uma forma estranha, como se houvesse uma implosão em algum ponto do meu corpo. Devo ter dormido com esse fato provocando pequenas incisões nos meus sentimentos e acordei com uma desesperança, um desalento e uma constatação óbvia: o mundo é um monstro.Na semana passada, sonhei que vi da varanda do meu apartamento uma briga de trânsito que culminou numa execução. Foi um pesadelo muito real: dois carros (curiosamente de modelos antigos) fechando-se mutuamente, os xingamentos e por fim um dos carros invadindo a calçada, um dos sujeitos saindo do carro e descarregando o revólver no outro. Lembro com nitidez do corpo já inerte,encostado num muro, enquanto as balas ainda iam na sua direção. Lembro de ter pensado em ligar para a polícia, mas permaneci paralisado pelo pavor. Então acordei, o corpo tremendo, suando, como se acabasse de presenciar um assassinato de verdade.

Escritor Paulo Sales reflete sobre o fascínio e assombro da vidaPara mim ficou claro: minha mente processava naquele momento o estado de torpor, medo e impotência em que vivemos. Um estado latente, que se exacerbou em sonho, mas que nos deixa em permanente alerta quando estamos acordados. Temos motivos para isso, como os animais da savana que ficam o tempo todo de olhos, nariz e ouvidos atentos a qualquer balançar de arbusto ou arrastar de patas no solo. Somos como zebras, tentando proteger a nós mesmos e a nossas crias do ataque iminente, da banalidade do mal. Curioso como é oportuna nos dias atuais essa expressão criada por Hannah Arendt para explicar o que sentiu durante o julgamento do nazista Adolf Eichmann. De acordo com Hannah, os atos de Eichmann não eram desculpáveis, muito menos ele era inocente. Mas não foram atos executados por um ser dotado de imensa capacidade de crueldade, e sim por um funcionário burocrata dentro de um sistema baseado em atos de extermínio. Um sujeito banal, em suma.O que percebo hoje é que o mal – sistemático, gélido e praticado em escala industrial – serve não a um regime, mas a toda uma civilização. Padecemos de uma enfermidade moral, que ora se expressa no estupro absurdo de uma criança, ora num assalto que termina com a vítima incendiada sem qualquer possibilidade de defesa. Ou também em uma bomba dentro de uma panela de pressão, detonada por rapazes com feições angelicais e, num estágio acima, em um avião não-tripulado que despeja bombas e transforma famílias em escombros. É como se todos os princípios morais e humanistas sedimentados durante séculos tivessem evaporado. O tudo é permitido de que falava Dostoievski finalmente chegou. Vivemos em um mundo pré-iluminista, pré-renascentista. Um mundo à beira da pré-história.Pergunto a mim mesmo como o ato tão extremo e tão profundo de matar pode ser cometido com tamanha regularidade e das formas mais prosaicas. Que mecanismo se processa em nós e nos transforma em assassinos? Não busco aqui explicações sociológicas, já que a profunda desigualdade social de países como Índia e Brasil é diretamente responsável pela violência urbana, mas não necessariamente por atos gratuitos de crueldade. Gostaria de compreender como é gestado um assassino potencial, até para não me sentir tão vulnerável diante de um, dos tantos que habitam o país onde vivo. Mas a chave está mesmo com Hannah Arendt: o mal é banal e não comporta compaixão, piedade ou remorso. Paulo Sales é jornalista*Texto extraído de Erguer e Destruir, livro recém-lançado pela Editora Penalux