Pelados no Espanhol: show dos Mamonas em Salvador foi um verdadeiro Deus nos acuda

clarissa pacheco
12.09.2021, 11:00:00
Atualizado: 12.09.2021, 12:25:04

Pelados no Espanhol: show dos Mamonas em Salvador foi um verdadeiro Deus nos acuda

Público estimado era de 20 mil pessoas, a partir de 8 anos de idade, no Clube Espanhol
Show começou com Dinho vestido de Tartaruga Ninja
(Foto: Edson Ruiz/Arquivo CORREIO)

Dez anos depois da passagem apoteótica dos Menudos por Salvador, em 1985, mais cinco rapazes, desta vez bem brasileiros, provocaram um verdadeiro furdunço no Clube Espanhol. Quem foi ao show dos Mamonas Assassinas naquele 23 de dezembro de 1995 dificilmente esquece detalhes do episódio – pais e mães de meninos e meninas com mais de oito anos, a idade liberada, também devem ter na memória o Deus nos acuda para chegar, entrar, assistir à apresentação da banda e finalmente sair do Clube Espanhol já perto da meia-noite.

Era um sábado, antevéspera de Natal, e o CORREIO tentou descrever para um soteropolitano da melhor forma possível o auê provocado por aquele show, o primeiro da banda em Salvador. A repórter Liliane Reis, acompanhada do fotógrafo Edson Ruiz, tratou de arrumar uma boa comparação logo para a entrada do Espanhol: um “corredor da morte”.

“Explicando: o clube manteve o acesso padrão – cinco bilheterias estreitas – para receber um público estimado em mais de 20 mil pessoas. Exercício de paciência. Lembre o Beco Maria da Paz, em pleno domingo de Carnaval. Pior: com a feliz liberação de crianças a partir de oito anos, a molecada precisou subir nos ombros dos pais aflitos para não serem espremidos. Nada que o show que estava por vir não compensasse”, dizia um trecho da reportagem publicada pelo CORREIO no dia seguinte.

Guitarrista Bento Hinoto impressionou o público: "filho de Djavan com Milton Nascimento", brincou Dinho
(Foto: Edson Ruiz/Arquivo CORREIO)

O hoje historiador Daniel Rebouças tinha 12 anos na época – “era baixinho”, lembra. Não subiu nos ombros de ninguém, e também não conseguiu ver lá muita coisa, embora tenha chegado cedo na tentativa de conseguir um lugar perto do palco.

“Mas estava tão cheio que fomos sendo ‘empurrados’ para o fundo conforme cada música. Paramos quase no fundo. Lembro também do coro gigantesco em ViraVvira e Pelados em Santos, todo mundo pulando”, conta.

Foram quase duas horas de fila para entrar no espaço e assistir ao show, marcado para começar às 20h. Quando Dinho, Bento Hinoto, Julio Rasec e os irmãos Samuel e Sérgio Reoli finalmente subiram no palco já eram 21h. Era o tempo, disse Dinho, de esperar o público conseguir entrar no Clube Espanhol.

“Para acalmar (ou ouriçar?) os mais aflitos, que disputavam o metro quadrado em frente ao palco como se fosse o manjar dos deuses, Dinho (quem mais?) imitava Gil Gomes, Silvio Santos e outros tipos, com frases ‘estamos chegando, ra, rai’. Sua volta, solta no microfone, de dentro do camarim, ganhava o clube e a resposta vinha em forma de ‘ai, ui, é ele...’”, dizia outro trecho da reportagem.

Finalmente no palco, um show foi um espetáculo gigante. Gritos, empurra-empurra, coro para cada uma das músicas e figurino especial também, é claro. A troca de roupa, aliás, era feita no palco, como mostravam as fotos de Edson Ruiz.

Trocas de figurino do vocalista aconteciam no palco mesmo
(Foto: Edson Ruiz/Arquivo CORREIO)

Fumaça e trilha sonora
Em 2016, o fotógrafo contou ao próprio CORREIO uma das orientações que havia recebido antes de ir para o show: atenção aos fogos de artifício – e cuidado. Os fogos eram parte do show e, hoje, aguçam até a memória olfativa de quem estava lá. É sério. “Tinha um cheiro de fumaça que era forte. Era fumaça dos fogos dos efeitos da banda”, recorda Daniel, que sentiu, mas não viu tamanha a quantidade de gente em sua frente.

O voo que levou o quinteto de Salvador partiu às 23h40 daquele sábado, e o público continuou no Espanhol para mais dois shows: Ricardo Chaves e Gerasamba. Mas o repertório rendeu bem mais do que aquilo. O CD dos Mamonas, o único de estúdio gravado pelo grupo, era a trilha sonora das festas. Em qualquer lugar, só se falava nos meninos de Guarulhos.

Fogos de artifício faziam parte dos efeitos especiais do show
(Foto: Edson Ruiz/Arquivo CORREIO)

No camarim, Dinho prometeu tentar voltar no Carnaval do ano seguinte – a cantora Daniela Mercury estava no show naquele dia, foi levar os filhos Gabriel e Giovana Povoas. No Carnaval de 1996, só dava Pelados em Santos nos trios elétricos soteropolitanos. Poucos dias depois do Carnaval, há 25 anos, um acidente de avião abreviou os planos, matando todos os integrantes da banda, além da tripulação do jatinho que os transportava e mais dois integrantes da equipe. Os Mamonas venderam mais de 5 milhões de discos e, apesar da carreira curta, seguem entre os dez álbuns mais vendidos de todos os tempos no Brasil.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas