Pelé 80 anos: craque surgiu e fez história no Santos

esportes
23.10.2020, 09:35:00
Atualizado: 23.10.2020, 09:51:17
Pelé fez 1.116 jogos e marcou 1.091 gols com a camisa do Santos (Foto: Centro de Memória do Santos/Divulgação)

Pelé 80 anos: craque surgiu e fez história no Santos

2 de outubro de 1974 foi a data do último jogo do ídolo pelo time

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O dia 25 de junho de 1957 ficará marcado para sempre na história do Santos. Não por um gol especial, uma vitória épica ou um título conquistado. Nessa data, o feito mais importante acontecia fora de campo: Edson Arantes do Nascimento assinava seu primeiro contrato como jogador profissional do clube. 

Incrivelmente, antes mesmo do vínculo, Pelé já havia jogado no time principal do clube. Exatas 30 partidas, marcando 18 gols. Algo impensável nos dias de hoje. A jovem promessa, ainda aos 15 anos, tinha chegado na Vila Belmiro pouco mais de 1 ano antes, em agosto de 1956, na companhia do ex-atacante Waldemar de Brito - que foi o técnico do garoto no infantil do Bauru Atlético Clube. Bastou o primeiro treino para acertar que de lá não sairia tão cedo. Foram-lhe garantidos alojamento, alimentação e salário de 6 mil cruzeiros.

Pelé assinando seu primeiro contrato profissional com o Santos
(Foto: Centro de Memória do Santos/Divulgação)

A estreia no profissional não demoraria. No dia 7 de setembro de 1956, em um amistoso comemorativo pelo Dia da Independência, o jovem - que na época era apelidado de Gasolina - entrava no duelo contra o Corinthians de Santo André para substituir o veterano Del Vecchio. Aos 36 minutos do segundo tempo, veio o primeiro dos seus 1.091 gols pelo Santos. Aquela tarde ensolarada acabou com goleada do Peixe por 7x1.

A súmula do primeiro jogo de Pelé como profissional do Santos
(Foto: Centro de Memória do Santos/Divulgação)

Pelé voltaria a usar a camisa alvinegra por mais 1.115 vezes até deixar o Santos, em 1974. Mas, por pouco, a história não foi diferente. Tudo graças ao roupeiro Sabuzinho, que impediu que o jogador deixasse o clube ainda em 1956.

O caso aconteceu em outubro daquele ano, após sua estreia no profissional. Pelé foi emprestado para as divisões de base e disputou a final do campeonato amador santista, contra o Jabaquara AC. Naquele jogo, o garoto perdeu um pênalti, chutado por cima do travessão, e foi muito vaiado por isso. 

Segundo o Centro de Memória do clube, quando a partida acabou, ele chorava sem parar. Naquela mesma noite, decidiu que sairia da cidade e voltaria a Bauru, com saudade dos pais. Sabuzinho viu o jovem saindo da concentração e mandou que ele retornasse, falando que ele iria perder muitos outros pênaltis ao longo da carreira, mas que também marcaria muitos gols. A conversa do roupeiro com Pelé deu certo. O jogador desistiu da ideia e ficou no Santos. 

Pelé foi impedido por um roupeiro de deixar o Peixe
(Foto: Centro de Memória do Santos/Divulgação)

Dois meses depois do pênalti perdido, viria a oportunidade de jogar entre os profissionais. Vasconcelos, titular da meia-esquerda do Santos, fraturou a perna numa jogada com o zagueiro Mauro Ramos de Oliveira, então no São Paulo, em partida do Campeonato Paulista, na Vila Belmiro, em 9 de dezembro de 1956. O suplente direto? Pelé.

A partir daí, o jovem virou presença constante no time principal do Santos. Com boas atuações, logo chamou a atenção de Sylvio Pirillo, então técnico da Seleção, que o convocou para atuar contra a Argentina, pela Copa Rocca. Marcou o único gol do Brasil na derrota por 2 a 1, no Macaranã, em 7 de julho de 1957. Três dias depois, foi um dos titulares e, mais uma vez, marcou. A equipe canarinha venceu por 2x0 e Pelé conquistava seu primeiro título.

Reinado começava
De volta ao Santos, anotou 17 gols pelo Campeonato Paulista e terminou como artilheiro da competição - o que voltaria a acontecer seguidamente até 1965 e ainda em 1969 e 1973, estabelecendo o recorde de 11 vezes como o maior goleador do torneio.

O ano seguinte foi especial. Pelé foi chamado para a Copa do Mundo e, decisivo, ajudou o Brasil a faturar o título, na Suécia. É até hoje o jogador mais jovem a marcar em uma decisão da competição e o mais novo a vencer o Mundial, com 17 anos e 8 meses. Ainda em 1958, anotou 58 gols no Paulista e também ficou com o taça do estadual.

A década de 1960 traria a Pelé outro título: de Rei do Futebol. Com ele, o Alvinegro Praiano ganhou troféus atrás de troféus. Foram dois Mundiais de Clubes (1962 e 1963), duas Libertadores (1962 e 1963), seis Campeonatos Brasileiros (1961, 1962, 1963, 1964, 1965 e 1968), 10 Campeonatos Paulistas (1958, 1960, 1961, 1962, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969 e 1973), Recopa Sul-Americana (1968), Recopa Mundial (1968), fora inúmeros outros torneios internacionais.

O clube que mais sofreu com o brilhantismo de Pelé foi o Corinthians. Ao todo, o Timão viu o Rei balançar suas redes 50 vezes. Mas foi o Botafogo-SP quem sofreu a maior quantidade de gols do multicampeão de uma só vez. No dia 21 de novembro de 1964, o time foi arrasado por 11x0, sendo oito deles anotados por Pelé. Isso mesmo, oito. 

A equipe do Santos que conquistou o Mundial em 1962 tinha Gilmar; Olavo, Mauro e Dalmo; Calvet e Zito; Dorval, Lima, Coutinho, Pelé e Pepe e era dirigida por Luiz Alonso, o Lula
(Foto: Centro de Memória do Santos/Divulgação)

Em 1961, ainda marcou o gol histórico contra o Fluminense, no Maracanã, quando recebeu a bola na intermediária, driblou sete jogadores adversários e balançou as redes. O lance foi tão bonito que rendeu a Pelé uma placa no estádio - e aí nascia a expressão 'gol de placa'.

O mais bonito da carreira dele, porém, é outro. Foi anotado quando o Rei tinha 19 anos, em um jogo entre Santos e Juventus, pelo Campeonato Paulista de 1959. Naquele 2 de agosto, recebeu passe de Dorval, deu quatro chapéus - incluindo um no goleiro Mão de Onça - e, de cabeça, mandou para o fundo da rede. Na comemoração, Pelé saiu socando o ar, comemoração que passou a ser sua marca registrada. Foi o terceiro do jogador na partida e o quarto do Peixe, que ganhou por 4x0.

O gol sobre o Fluminense foi tão bonito que rendeu a Pelé uma placa no Maracanã
(Foto: Centro de Memória do Santos/Divulgação)

Outro gol memorável, claro, foi o de número 1.000 da carreira do Rei. Ele veio no dia 19 de novembro de 1969, na vitória por 2x1 sobre o Vasco.

Pouco mais de dois anos depois, Pelé assinalou outro milésimo, dessa vez valendo somente com a camisa do Santos. Foi em 1974, no 2x0 sobre o time da Universidad Unam, do México, em duelo disputado nos Estados Unidos.

O astro na comemoração pelo seu gol de número 1.000
(Foto: Centro de Memória do Santos/Divulgação)

A data de 2 de outubro de 1974 foi mais uma que entrou para a história do Santos. Naquela noite, Pelé se despediria oficialmente do clube. Mesmo sentindo uma contusão, ele entrou em campo para duelar contra a Ponte Preta, na Vila Belmiro. Mas, aos 21 minutos, percebeu que não teria mais condições de atuar. Pegou a bola com as mãos, dirigiu-se ao centro do campo, ajoelhou-se e agradeceu a todos. Ainda deu uma volta olímpica, para delírio da torcida. O Peixe ganhou, por 2x0.

Dessa forma, Pelé encerraria a monumental e brilhante carreira pelo Santos. Ainda jogaria pelo Cosmos, de Nova York, no período de 1975 a 1977, até aposentar oficialmente em 1º de outubro de 1977, com um jogo entre os dois times, vencido pelos americanos por 2x1.

Em 2014, o Rei foi chamado à cerimônia da premiação Bola de Ouro da FIFA 2013. Ali, finalmente era coroado com sua taça, em uma homenagem inédita da entidade máxima do futebol. "Para consertar uma injustiça", disse Joseph Blatter, então presidente da Federação.

Quando começou a ser realizado, o prêmio só era dado a jogadores que atuassem na Europa. Pelé, que só jogou no Brasil e nos Estados Unidos, ficou de fora. "Sempre senti falta deste troféu. Agora minha coleção está completa", falou o Rei, na ocasião.

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