Performance de rua debate machismo de forma inusitada

entretenimento
23.10.2018, 20:55:00
Atualizado: 23.10.2018, 21:06:11
Performance O Peso Masculino abriu o FIAC 2018 (Foto: Arisson Marinho)

Performance de rua debate machismo de forma inusitada

Atores foram da Praça Castro Alves até o Teatro Vila Velha e causaram burburinho

Eles pararam, no meio da rua, para analisar aquela cena curiosa. Uma mulher, de salto alto, descia e subia ladeiras enquanto empurrava, literalmente, um homem de paletó e gravata em um carrinho, onde ele lia tranquilamente seu jornal. Homens e mulheres de faixas etárias diversas se aglomeraram desde a Praça Castro Alves até o Teatro Vila Velha, no Campo Grande, para acompanhar o trajeto da moça. "Fiquei me perguntando se o moço tinha alguma doença e, por isso, não quis me meter. Mas achei estranho ela estar assim, de salto, no meio da noite, fazendo esse esforço todo", pontuou uma das mulheres que tentava entender a situação.

Maria Ramos, vestida de branco à direita, resolveu acompanhar a performance com as amigas enquanto discutiam casos de machismo que viram no Brasil
(Foto: Vanessa Brunt/CORREIO)

Pura encenação, o que estava acontecendo ali era a performance de rua intitulada de O Peso Masculino, que abriu, nesta terça-feira (23), o 11º Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (Fiac Bahia), que acontece até domingo (28) tomando teatros, praças, ruas e esquinas soteropolitanas. A atriz Jacqueline Vasconcelos evitava os carros que passam e pessoas que tentavam ajudar. Por outro lado, o ator Diogo Lula, em seu personagem, sequer olhava o mundo ao redor e o possível esforço feito pela mulher.

"É artístico e é uma denúncia. É sobre algo extremamente real e que prossegue acontecendo: o machismo. A exploração da mulher, infelizmente, é algo que grande parte da sociedade ainda acha normal, e depois ainda vem chamar a gente de 'sexo frágil'. É importante que o feminismo prossiga em pauta pra que isso vá se quebrando", afirmou Maria Ramos, 63, que trabalha como professora do ensino fundamental e resolveu seguir a performance com um grupo de amigas.

"Ele está no maior conforto e ela firme e forte em cima desse saltão. Caramba! Só entendi que era teatro porque o pessoal contou, já ia me oferecer pra ajudá-la", contou uma das amigas de Maria.

O francês Manfred Stoffl ficou surpreso com a reação geral dos homens; leia abaixo
(Foto: Vanessa Brunt/CORREIO)

Em meio a quem fazia cara de surpresa, algumas pessoas já estavam cientes do festival e apareceram já no intuito de acompanhar a apresentação. Foi o caso do francês Manfred Stoffl, que está passeando pela terra do dendê e promete acompanhar todos os outros dias do evento. "Ele se informa no conforto, enquanto ela faz todo o trabalho. São tantas analogias nisso... e o bacana é reparar que o pessoal percebe essas várias nuances, com interpretações que mostram o quanto, aos poucos, estamos quebrando o machismo mundialmente", disse o turista.

"Vi muitos homens dando risada, entendendo como uma 'brincadeirinha'. Enquanto isso, as mulheres se preocupavam em tentar estender a mão para ela. Olha a diferença: é isso o que acontece todos os dias na maior parte das situações machistas. Isso quando as próprias mulheres ainda não se sabotam", finalizou o francês.

José Henrique, 17, foi com a namorada Natália Souza, 14, e dois amigos, para acompanhar a performance
(Foto: Vanessa Brunt/CORREIO)

Ao lado de Manfred, estava José Henrique, 17, que teve uma visão um pouco diferente do caso. "Não enxergo somente o machismo nisso, mas uma disputa de classes também. Os mais pobres prosseguem fazendo um grande esforço e são tratados como lixo, enquanto alguns ricos, que ficam em seu conforto, não valorizam quem está fazendo os seus arredores funcionarem para que ele continue ali", pontuou o jovem.

Enquanto isso, a dançarina Wilena Weronez, 36, entendeu a cena como uma mensagem sobre empoderamento. "Ela escolhe o trajeto. Ela está no comando. A questão é que ela perceba isso para que possa, realmente, guiar também a si mesma", refletiu  Wilena. Cujo amigo, que a acompanhava (e preferiu não se identificar), também teve uma outra interpretação:

"A mulher abre caminhos para o homem... e quando isso é visto como 'obrigação dela' e ele também não se esforça pra 'empurrar' ela de uma forma equilibrada, isso acaba sendo um peso pra ela, que pode atrapalhar todo o seu caminho", ponderou o rapaz.

"Bom, pode ser uma mensagem forte sobre os relacionamento abusivos também. Ela acha que não tem escolha e que o destino dela é aquele. No caso, ela acaba não percebendo o mundo de oportunidades ao seu redor: como a possibilidade de entrar em um ônibus e seguir por outra rua. O nosso papel é intervir nesses casos sim! Não devemos tratar essas mulheres como culpadas. É tudo culpa da nossa cultura, ainda absurda", finaliza Wilena.

A dançarina Wilena Weronez chegou até o final da caminhada e refletiu sobre diferentes interpretações para a arte
(Foto: Vanessa Brunt/CORREIO)

Em meio a tantas opiniões, uma coisa é certa: o mundo parece estar, ainda que aos pouquinhos, com visões mais críticas e mentes mais abertas. A arte, desde uma novela até um espetáculo, tem incentivado os debates. E, com pautas delicadas, polêmicas e importantes, é o que o Fiac promete continuar fazendo em todas as suas outras apresentações. Confira a programação dos próximos dias clicando aqui. As próximas apresentações feitas nas ruas continuam gratuitas, enquanto as que ocorrem dentro dos teatros ficam por R$ 30 ou R$ 15.

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