'Policiais não deram chances pro meu filho', diz mãe de adolescente morto em ação da PM

salvador
16.07.2018, 12:55:00

'Policiais não deram chances pro meu filho', diz mãe de adolescente morto em ação da PM

Welligton da Silva, de 17 anos, foi morto em São Cristóvão
Welligton ia para casa da namorada quando foi abordado por policiais, segundo a família (Foto: Divulgação)

O adolescente Welligton da Silva, 17 anos, foi morto pela polícia, na tarde deste domingo (15). Segundo os familiares, ele caminhava em direção à casa da namorada no bairro de São Cristóvão, quando foi atingido com um tiro no peito após uma abordagem policial. Já a Polícia Militar informou que o rapaz foi morto em confronto.  

De acordo com a mãe do adolescente, Welligton saiu de casa, na Rua 14 de Dezembro, em São Cristóvão, por volta das 13h, com destino à casa da namorada na Rua Lessa Ribeiro, no mesmo bairro. 

A poucos metros do destino final, a vítima, relata a mãe, estava de cabeça baixa, mexendo no celular quando foi surpreendido por policiais da 49°Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM/São Cristóvão). 

Ainda de acordo com ela, os policiais não pediram os documentos do filho e nem deram chances para que ele falasse o motivo de estar caminhado na rua. 

"Meu filho estava mexendo no celular, não viu que, em frente, estavam os policiais. Eles não deram chances pro meu filho. Ele nem conseguiu dizer que não tinha envolvimento com nada", desabafa a doméstica Nalva da Silva, 40 anos.

Segundo Nalva, o filho não tinha envolvimento com o tráfico de drogas e nem antecedentes. A Polícia Civil foi procurada pelo CORREIO e não confirmou a informação - se limitou a afirmar que o caso estava com a Polícia Miilitar.

Segundo a mãe, Welligton estava concluindo o sexto ano do ensino fundamental na Escola Municipal Brigadeiro Eduardo Gomes. A Secretaria Municipal de Educação (Smed) informou, no entanto, que não há matrícula em nome de Welligton em nenhuma escola da rede municipal neste ano.

A mãe denuncia ainda que abordagens truculentas são comuns no bairro e que só esse ano outras cinco mães perderam seus filhos na mesma circunstância. 

"Infelizmente, eles não querem saber quem é bandido e quem é inocente. Só chegam atirando. É difícil ser mãe solteira, criar o filho sozinha para perdê-lo assim", lamenta. Welligton era o mais velho de dois outros irmãos. 

Após o homicídio, a família, assustada, pretende se mudar do bairro. Um primo da vítima, também adolescente, diz que os jovens convivem com o medo de morrer. "Quero me mudar de lá. Todos andam muito assustados porque pode morrer qualquer um", diz. 

Os familiares contaram que, após ser baleado, a vítima foi colocada na viatura pelos próprios policiais e encaminhado para o Hospital Menandro de Faria, em Lauro de Feitas. Lá, o caso foi registrado como troca de tiros, o que nega a mãe. 

"Eu preferia que tivessem prendido ele, deixado na cadeia do que matar dessa forma. Cheguei no hospital e encontrei meu filho na maca já sem vida", lamenta a mãe.

Revide
Por meio de nota, a Polícia Militar informou que, por volta das 15h10, policiais militares da 49ª CIPM (São Cristóvão) realizavam rondas na Rua Lessa Ribeiro quando avistaram cinco homens armados. Segundo a nota, ao visualizarem a equipe, os suspeitos passaram a atirar contra os policiais, houve revide, e "um adolescente de 17 anos atingido e imediatamente socorrido para o Hospital Menandro de Faria, onde não resistiu aos ferimentos".

Com o adolescente os policiais afirmaram ter encontrado uma pistola calibre 380, um celular, 61 papelotes de cocaína e R$ 17 em dinheiro. A ocorrência foi registrada na Corregedoria da PM.

Ainda de acordo com a nota, a PM disse que, sobre a denúncia da família, orienta o registro do fato na Corregedoria da Polícia Militar que fica situada na Rua Amazonas, 13, Pituba, "a fim de formalizar o registro de queixa para que seja realizada a devida apuração. Contudo, é importante ressaltar que todo auto de resistência gera um Inquérito Policial Militar, apurado pela Corregedoria da Corporação e remetido ao Ministério Público”.

*Com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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