Por que há tanto torcedor de time estrangeiro no Brasil?

esportes
21.07.2020, 11:00:00
Atualizado: 21.07.2020, 12:02:35
Atual campeão mundial, Liverpool é uma das sensações do momento (Karim Jaafar / AFP)

Por que há tanto torcedor de time estrangeiro no Brasil?

Videogame, televisão, internet e até nacionalismo são motivos que explicam a explosão de torcida para times gringos

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Faustino Menezes, Felipe Silveira e Gabriel Nogueira. Três baianos com idades entre 24 e 27 anos que poderiam ter sua rivalidade limitada à dupla Ba-Vi, já que Faustino e Gabriel são tricolores e Felipe é rubro-negro. Contudo, a globalização do futebol deu conta de espalhar um pouco mais as preferências e anualmente faz o trio se enfrentar a uma distância de mais de 8 mil quilômetros.

Faustino torce para o Chelsea. Felipe, pro Arsenal. Gabriel é torcedor também do Tottenham. Os três clubes que formam o trio de ferro do futebol em Londres, capital da Inglaterra. E como todo o mundo já está cansado de saber, essa realidade de brasileiros torcendo para times gringos existe. Mas o que justifica? O CORREIO foi atrás de respostas.

Uma pesquisa feita pela consultoria Ibope/Repucom em 2016 mostrava que naquele ano 72% dos jovens usuários de internet afirmavam torcer por um time europeu. De acordo com o antropólogo mexicano Kevin Daniel Rozo Rondón, há várias justificativas, pessoais e estruturais, para explicar isso.

A pesquisa de Rondón analisou as torcidas de Real Madrid, Barcelona e Liverpool no México, Colômbia e Brasil, respectivamente. Cada lugar tem suas particularidades, mas pelo menos nove fatores costumam convergir:

1. Sucesso esportivo
2. Sentimento nacional
3. Admiração a um jogador específico
4. Críticas ao futebol local
5. Migrações
6. Videogame
7. Construção de narrativas que dialoguem o time estrangeiro com o local
8. Influência de amigos
9. Fascinação pela torcida de times europeus

O sucesso esportivo é um ponto fundamental, já que são raros os casos de torcedores do inglês Bournemouth, do espanhol Celta de Vigo ou mesmo do maior campeão francês, o Saint-Étienne, que já não vence a liga desde 1980, mas ainda assim é o único decacampeão local, acima até do badalado PSG - que chegou a nove títulos na atual temporada e se igualou ao Olympique de Marselha.

Há casos específicos como a explosão de torcedores do Real Madrid no México, no século XX, por causa do sucesso do atacante Hugo Sánchez na capital espanhola durante a segunda metade dos anos 1980, tendo marcado 208 gols em 282 jogos com a camisa do Real. Ele foi artilheiro do Espanhol por quatro temporadas seguidas.

"Pra eles era um pouquinho de México na camisa do Real Madrid e isso fica pra sempre mesmo hoje não tendo jogadores mexicanos no elenco. No Brasil isso acontece com o Barcelona, que teve Romário, Ronaldinho Gaúcho e Neymar mais recentemente. É interessante porque quebra aquela ideia de que a globalização termina a identidade nacional; isso mostra que alguns níveis de identidade andam juntos", explica o pesquisador.

O videogame também é um fator que precisa ser levado em consideração. Torcedor do Chelsea, Faustino Menezes começou a sua relação com os Blues porque via alguns jogos da equipe na TV parabólica e passou a utilizá-lo na realidade virtual. No caso de Gabriel Nogueira, a situação saiu da tela do Football Manager, jogo de computador em que o usuário é técnico do time, e partiu para a TV. Desta maneira nasceu o carinho pelo Tottenham.

"Eu nunca tinha ouvido falar no time, mas um amigo meu indicou que eu jogasse com o Tottenham lá nos idos de 2005 e começou assim. Aí depois eu procurei saber de um jogo ou outro, vi que o ataque tinha Robbie Keane, que me marcou muito por causa de um jogo que ele fez contra a Alemanha na Copa de 2002, e aí o amor foi crescendo. Quando vi já era tarde demais", conta Gabriel.

A admiração por um jogador específico também é fator fundamental, principalmente quando se trata de crianças. Aos 11 anos, Arthur Castro era Real Madrid até meados de 2018, quando Cristiano Ronaldo deixou os galáticos após o título da Liga dos Campeões da Europa e foi viver um novo desafio na Juventus, da Itália.

"Eu torcia antes, agora mudou. Eu gosto muito dos jogadores da Juventus também, eles me inspiram e é bom de ver os jogos", diz Arthur, que garante fidelidade à Juve mesmo em caso de saída de CR7.

O time pode ter mudado, mas a pose não esconde que a idolatria do pequeno Arthur tem nome e número: CR7 (Foto: Acervo Pessoal)

Perigo?
A onda de torcedores dos times estrangeiros, principalmente crianças, gera um certo temor no que diz respeito a um esquecimento ou subvalorização do futebol nacional e dos clubes brasileiros. 

Segundo Kevin Rondón, há casos em que a escolha por um escudo internacional é inclusive uma forma de crítica à maneira como o futebol é tratado na "periferia" do mundo - tomando o eurocentrismo como referência. No caso do Brasil ainda existe um certo saudosismo dos anos dourados, quando os clubes brasileiros batiam de frente com as potências europeias.

Esse é o caso de Hugo Araújo. Torcedor do Vitória, ele afirma que é fissurado por futebol internacional, mas não torce para nenhum time estrangeiro. A onda dele é acompanhar o máximo possível do melhor futebol praticado no mundo e por isso ele vê jogos do Alemão, Espanhol, Italiano, Inglês... e às vezes até dá uma escapada para ligas secundárias como a austríaca.

"Dá para curtir o Vitória na arquibancada e acho que isso é algo que não pode faltar. Mas quem gosta de futebol também precisa ver o jogo bem tratado e lá fora isso acontece. E isso não é só no futebol europeu. No México há um tratamento melhor da liga do que no Brasil e isso torna o jogo mais atrativo", pontua Hugo.

Torcedora do Tottenham, Renata Ramos diz que o futebol "é uma das poucas coisas que conseguem ultrapassar sem muita complexidade qualquer limite geográfico existente" e que torcer para um clube de fora ampliou os horizontes dela em relação ao esporte.

"Torcer para um time estrangeiro é uma experiência que me promoveu uma expansão de conhecimento sobre futebol muito enriquecedora. É maravilhoso estudar a história de um time distante e perceber toda amplitude estrutural de um clube e, para além disso, constatar o seu alcance universal", diz.

Mesmo torcendo para o Chelsea, Faustino Menezes diz que entende quem vê como um risco para os clubes locais o avanço das equipes internacionais. É algo sedutor principalmente para crianças de famílias que torcem para equipes que passam por um período de seca ou enfrentam dificuldades para se projetar nacionalmente - como ocorre com as equipes nordestinas, por exemplo.

"Se você pega o exemplo do Bahia, que passou uma década com dificuldade para ganhar clássicos ou até campeonatos estaduais, realmente é complicado. As crianças e adolescentes têm acesso a outras equipes que estão sempre sendo elogiadas, ganhando jogos e isso pode fazer com que alguns clubes daqui percam espaço", acredita. 

Rondón aponta que a dificuldade de reter jogadores somada ao apelo midiático e ao poderio econômico dos times dos grandes centros de fato pode contribuir para um certo esquecimento do futebol local. Há centros com uma cultura futebolística própria que são fortes, caso de países como Brasil, Argentina e Colômbia na América do Sul. Nesses casos, a influência de amizades e até da família pode servir para brecar essa ofensiva e pelo menos garantir as equipes europeias como o segundo clube.

No entanto, essa não é a realidade em outros centros como na Nigéria, onde o futebol é muito visto, mas o Chelsea é dono de uma das maiores torcidas do país - algo que aumentou com a contratação de muitos atletas da ex-colônia para jogar na Premier League nas últimas duas décadas.

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