Pra te lembrar do Moa do Katendê

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11.10.2018, 05:00:00
Atualizado: 11.10.2018, 12:57:40

Pra te lembrar do Moa do Katendê

“Fale o que for mas não esqueça que...” Essa foi a canção que projetou, nos idos de 1977, a carreira de Romualdo Rosário da Costa, o Moa do Katendê, como compositor de blocos afros e que deu origem ao nome daquele afoxé mar azul que fundou, juntamente com o seu grupo Jovens Loucos, no dia 13 de maio de 1978, na Curva do Asilo, no Engenho Velho de Brotas, bairro onde nasceu, se criou, se fez artista e, infelizmente, foi morto.

A canção Ilê Aiyê/ Bloco Beleza, também chamada de Badauê por causa do refrão que fazia subir poeira na quadra de ensaios do mais belo dos belos, dizia assim: “sua criolada engalanada / 100% emocionada / delirando toda massa cantando assim – Badauê ê ê, Bada bá auê auê...”. Antes de se consagrar no Curuzu, ‘do Katendê’ já havia composto e saído vitorioso de muitos festivais em blocos carnavalescos da cidade, como do bloco Os Românticos, em 1976. Recordou Moa: “eles lançaram o tema ‘Tourada em Madri’, né, e em seguida, no ano seguinte, eu viajo para a Espanha. Pra mim foi muito engraçado porque eu faço a música e ganho o carnaval e, de repente, eu tô lá na Espanha vendo a tourada e tudo.... nossa...”.

Foi no Apaches do Tororó, onde apareceu pela primeira vez como compositor entre 1974/1975. E ganhou prestígio, em 1979, depois do sucesso do Afoxé Badauê que, em seu primeiro desfile, despontou como campeão no carnaval, com o tema ‘Explosão Afro Cultural’ e uma homenagem ao Filhos de Gandhy. Naquele ano, Caetano Veloso, gravou seu ijexá Badauê, no emblemático disco Cinema Transcendental: “misteriosamente, o Badauê surgiu, sua expressão cultural, o povo aplaudiu”. Também nesse LP, o nome do afoxé foi evocado pela canção Sim/Não, de autoria do próprio Caetano: “No Badauê, toda grandeza da vida no sim/não”.

Desde que inauguramos, em 2013, junto com Jorjão Bafafé, um dos seus parceiros da época do afoxé, o Movimento Pra te Lembrar do Badauê, tivemos muitos encontros onde ele me narrava a sua trajetória artística e suas andanças pelo mundo, o percurso dos blocos afros e afoxés e compartilhávamos ideias e sonhos. Sobre o nome Badauê, Moa me confidenciou: “não sei se foi algum sopro espiritual que mandou eu falar isso, Badauê, eu só sei que veio junto, eu só sei que veio mesmo...” Nas artes negras, Mestre Moa era bruxo, na capoeira, na percussão, na dança afro, na composição, no canto. E não cansava de dizer que a Liberdade foi sua grande inspiração.

Depois que saiu do Badauê, no carnaval de 1984, com o tema Mito Sagrado, o Mestre Moa tornou-se um peregrino da cultura afro-baiana, difundindo-a para os quatro cantos do Brasil e do mundo. Volta e meia me mandava uma mensagem pelo Face ou Zap dizendo que estava em São Paulo, dois dias depois já estava na Alemanha, depois em Belo Horizonte, no Rio Grande Sul, na França. Às vezes, também me fazia uma surpresa e batia na minha porta pra gente prosear, molhar a palavra (com cerveja) e me contar o que tinha lembrado dos tempos do Badauê, pra contribuir com a escrita da minha dissertação. E cantarolava alguma canção da época áurea do Afoxé, que ele ia recordando aos poucos, ou alguma que acabara de compor, como foi a BrownMaChi, um presente que me deu: “Brown fez esta canção/ só pra te lembrar/ hoje é nossa inspiração/ foi Mateus Aleluia quem/ pediu a Chicco Assis/ acordar o Badauê...”

E lá se ia Moa, com seu mocó cheio de cabaças, agogôs, caxixis, xequerés, colares, de conhecimento sobre capoeira, ijexá, afoxé, negritude, baianidade jêje banto e nagô. “Bê bê bê bê bê, A/ Bê bê bê bê bê, Fó/ Bê bê bê bê bê, Xé / Bê bê bê bê bê, Ba/ Bê bê bê bê bê, Dá/ Bê bê bê bê bê Auê/ Afoxé Badauê/ Afoxé Badauê...” Agora, ele se foi de vez, sem se despedir e não temos dimensão da bagagem que ele levou com ele. Pegaram o velho capoeira na crocodilagem, na traição, na covardia e com brutalidade. Mas, capoeira, que é bom, não cai... Com certeza, ele seguirá tocando e dançando seu ijexá, inspirando novos afoxés, jogando sua capoeira no Orum, junto a sua ancestralidade.

Mestre Moa do Katendê hoje é ancestral, mas seu legado, sua obra, seus ensinamentos permanecem como uma toalha para enxugar nossas lágrimas. Por isso cantamos assim:

“Não chore Gandhy/ não chore não/ você é um bom irmão/ eternamente será lembrado/ seu mundo é abençoado”.

#moadokatendêpresente

Chicco Assis é gestor, produtor, pesquisador cultural e artista. Defendeu dissertação de mestrado sobre a memória do Afoxé Badauê no Pós-Cult da UFBA e atualmente assume a Gerência de Equipamentos Culturais da Fundação Gregório de Mattos.

Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores



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