PSG apoia Neymar: 'Não há lugar para o racismo na sociedade'

esportes
14.09.2020, 15:59:00
Atualizado: 14.09.2020, 20:54:52
Neymar acusou de racismo o zagueiro espanhol Álvaro González (Foto: Franck Fife/AFP)

PSG apoia Neymar: 'Não há lugar para o racismo na sociedade'

Brasileiro desabafa e pede punição a zagueiro; por agressão, Ney pode ser suspenso por até sete jogos, enquanto González teria gancho de até 10 partidas

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Um dia depois de Neymar acusar o zagueiro Álvaro González, do Olympique de Marselha, de racismo, durante partida realizada no último domingo (13), o Paris Saint-Germain divulgou uma nota de apoio ao craque. No comunicado, o clube diz que "apoia fortemente" o jogador e pede que a Ligue 1, organizadora do Campeonato Francês, investigue a denúncia feita por Ney ainda em campo.

"O clube lembra que não há lugar para o racismo na sociedade, no futebol ou nas nossas vidas e apela a todos para que se manifestem contra todas as suas manifestações em todo o mundo", publicou o PSG.

Ainda no primeiro tempo da partida, que terminou em 1x0 para o Olympique, Neymar foi até o quarto árbitro dizer "racismo não!", como captado pelos microfones. Ele se referia a González, embora não fosse possível saber se o brasileiro era o alvo das ofensas. O espanhol, por sua vez, falou que recebeu uma cusparada de Di María, que também alegou ter sido ofendido. O zagueiro pediu que o VAR fosse utilizado, mas o o árbitro Jêrome Brissard não puniu ninguém.

No segundo tempo, Neymar voltou a discutir com Álvaro González e deu um tapa na cabeça do espanhol. A arbitragem viu o lance e expulsou o brasileiro. Ele saiu irritado e, mais uma vez, acusando o defensor de racismo.

Ainda no domingo (13), depois da partida, Ney foi às redes sociais e disse que o zagueiro o teria xingado de "macaco filho da p...". Ele também escreveu que seu único arrependimento era "por não ter dado na cara desse babaca". Nesta segunda-feira (14), o atacante voltou a desabafar, mas, dessa vez, em tom mais pacífico.

"Refletindo e vendo tanta manifestação quanto ao que ocorreu, fico triste pelo sentimento de ódio que podemos provocar quando no calor do momento nos revoltamos. Deveria ter ignorado? Não sei ainda... Hoje com a cabeça fria respondo que sim, mas oportunamente eu e meus companheiros pedimos ajuda aos árbitros e fomos ignorados. Esse é o ponto", escreveu Neymar.

"Nós que estamos envolvidos no entretenimento precisamos refletir. Uma ação levou a uma reação e chegou onde chegou. Aceito minha punição porque deveria ter seguido no caminho da disputa limpa do futebol. Espero, por outro lado, que o defensor também seja punido. O racismo existe, mas temos que dar um basta. Não cabe mais, chega", continuou o brasileiro (leia todo o desabafo abaixo).

Segundo a rádio RMC, a Ligue 1 abriu uma investigação sobre o caso, e o comitê disciplinar da Liga de Futebol Profissional (LFP) da França decidirá sobre as sanções. Neymar pode ser enquadrado em alguns artigos diferentes, sendo o mais grave "ato de brutalidade ou golpe cometido fora do ato de jogo", que lhe renderia até sete partidas de suspensão. 

Se o artigo for "tentativa de golpe", a pena máxima seria de seis confrontos, de acordo com a RMC. Já "comportamento de ameaça ou intimidação" renderia um gancho de até quatro duelos.

Acusado por Neymar, González poderia ser enquadrado no artigo "palavras, gestos ou atitudes dirigidas a uma pessoa em particular devido à ideologia, raça, etnia, religião, nacionalidade, aparência, orientação sexual, gênero ou deficiência", podendo pegar até 10 partidas de suspensão.

O comitê disciplinar se reunirá na próxima quarta-feira (16), mas a decisão pode demorar mais uma semana. 

O brasileiro estará fora do próximo jogo do PSG, contra o Metz, na próxima quinta-feira (17), por ter levado o cartão vermelho. Além dele, o clube teve Kurzawa e Paredes também expulsos. Já o Olympique viu, no mesmo duelo, Benedetto e Amavi levarem a punição máxima em campo.

Veja o desabafo de Neymar:

"Ontem me revoltei, fui punido com vermelho porque quis dar um cascudo em quem me ofendeu. Achei que não poderia sair sem fazer nada porque percebi que os responsáveis não fariam nada, não percebiam ou ignoravam. Durante o jogo, queria dar a resposta como sempre, jogando futebol. Os fatos mostram que não consegui, me revoltei.

No nosso esporte, as agressões, insultos, palavrões são do jogo, da disputa. Não dá para ser carinhoso. Entendo esse cara em parte. Faz parte do jogo. Mas o preconceito e a intolerância são inaceitáveis. Eu sou negro, filho de negro, neto e bisneto de negro. Tenho orgulho e não me vejo diferente de ninguém. Ontem eu queria que os responsáveis pelo jogo (árbitro, auxiliares) se posicionassem de modo imparcial e entendessem que não cabe tal atitude preconceituosa.

Refletindo e vendo tanta manifestação quanto ao que ocorreu, fico triste pelo sentimento de ódio que podemos provocar quando no calor do momento nos revoltamos. Deveria ter ignorado? Não sei ainda... Hoje com a cabeça fria respondo que sim, mas oportunamente eu e meus companheiros pedimos ajuda aos árbitros e fomos ignorados. Esse é o ponto!

Nós que estamos envolvidos no entretenimento precisamos refletir. Uma ação levou a uma reação e chegou onde chegou. Aceito minha punição porque deveria ter seguido no caminho da disputa limpa do futebol. Espero, por outro lado, que o defensor também seja punido.

O racismo existe, mas temos que dar um basta. Não cabe mais, chega! O cara foi um tolo, eu também fui por me deixar ser atingido... Eu ainda hoje tenho o privilégio de me manter com a cabeça levantada, mas todos nós precisamos refletir que nem todos os pretos e brancos podem estar na mesma condição. O dano do confronto pode ser desastroso para ambos os lados, quer seja preto ou branco. Não quero e não podemos misturar assuntos. Cor de pele não há escolha. Perante Deus somos todos iguais.

Agora... Ontem perdi no jogo e me faltou sabedoria... Estar no centro dessa situação ou ignorar um ato racista não vai ajudar, eu sei. Mas pacificar esse movimento "antirracismo" é obrigação nossa para que o menos privilegiado receba naturalmente sua defesa. Vamos nos encontrar novamente e vai ser do meu jeito, jogando futebol... Fica na paz! Fica em paz! Você sabe o que falou... Eu sei o que fiz! Mais amor ao mundo!".

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas