Quando a (falta de) vacina do outro interfere: Ômicron traz debate sobre distribuição

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05.12.2021, 07:00:00
(Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Quando a (falta de) vacina do outro interfere: Ômicron traz debate sobre distribuição

Entenda como o surgimento da nova variante do coronavírus está relacionado à falta de vacinação - inclusive de quem tem acesso e não toma

De repente, a vida havia quase voltado ao normal. Talvez não tão ‘de repente’ assim no Brasil, com seus mais de 615 mil mortos por covid-19 e uma longa saga para a distribuição de vacinas. Mas o fato é que, em países como os da Europa e Estados Unidos, os altos índices de imunização trouxeram algum conforto. Nas últimas semanas, o Brasil passou a fazer parte dessa bolha. Por aqui, começou até o debate sobre a liberação de máscaras em locais abertos. 

Só que não passava de uma bolha. E se teve algo que a pandemia do coronavírus ensinou foi que não há bolhas de segurança no mundo. Em algum momento, o desequilíbrio nas coberturas vacinais entre os países cobraria a conta: enquanto alguns passam dos 75% da população imunizada, como Portugal, França e Canadá, outros têm menos de 1%, como a Nigéria e a República Democrática do Congo, de acordo com dados do projeto Our World in Data, da Universidade de Oxford. 

Por isso, o surgimento da variante Ômicron, inicialmente em Botsuana (mas hoje há indícios de que ela estava circulando na Europa antes de ser detectada na África), tem servido para que cientistas e profissionais de saúde reforcem que a vacinação deve ser uma estratégia coletiva. 

E isso vale tanto para o plano macro - com países mais ou menos vacinados - quanto para o plano individual. E aí entra cada rincão do Brasil, também com realidades diferentes entre si. No país, já são seis casos confirmados da Ômicron, cujos primeiros estudos indicam que é mais transmissiva do que as anteriores. Na Bahia, não havia registros de casos suspeitos da Ômicron até sexta-feira (3), segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). 

“Essa cepa nova tem características que a distinguem da forma original do vírus. São características extremamente preocupantes, porque ela tem mais mutações, sendo 32 na proteína S, e uma maior capacidade de disseminação. Provavelmente isso vai trazer enormes dificuldades no manejo dela, mas precisamos de ter estudos para conclusões definitivas”, explica o imunologista e pediatra Celso Sant’Anna, professor do curso de Medicina da UniFTC e da Universidade Federal da Bahia (Ufba). 

De fato, ainda não se sabe se a Ômicron pode provocar infecções mais graves, se é mais letal ou mesmo se escapa à proteção das vacinas existentes. Na África do Sul, onde foi primeiro identificada pelos projetos de vigilância genômica, a nova cepa já é dominante e tem causado uma nova onda de infecções. Ao todo, a linhagem tem mais de 50 mutações, algo que não tinha sido registrado até então com o Sars-cov-2.

Em dois dias - entre 24 e 26 de novembro - a Organização Mundial da Saúde (OMS) alterou a classificação da Ômicron de variante em monitoramento para ‘variante de preocupação’, ao lado das já conhecidas Alpha, Beta, Gamma (que teve origem no Brasil) e Delta, responsáveis pelas piores ondas até então. 

Variante
Não é anormal que vírus passem por mutações. Pelo contrário: elas fazem parte do processo de replicação de qualquer um deles. Os vírus têm, inclusive, ciclos de mutação. Alguns, como os de DNA, são mais estáveis e se replicam menos - como os adenovírus, que provocam doenças como conjuntivites e pneumonias. Os de RNA, como os da gripe e da covid-19, são menos estáveis. 

No caso da variante Ômicron, ainda há muito a ser investigado. Inicialmente, ela foi sequenciada por pesquisadores da África do Sul, em novembro. A identificação seria de que teria surgido em Botsuana, também no continente africano. No entanto, esta semana, a Holanda confirmou casos da nova cepa em seu território antes dos testes que detectaram 14 passageiros infectados em voos que chegaram da África do Sul, o que indica que ela já circulava na Europa há mais tempo. Não é conhecido, ainda, se as pessoas infectadas tiveram contato com pessoas que estiveram nos países africanos onde houve registro da linhagem.

Segundo a biomédica e neurocientista Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid, há indícios de que a ômicron tenha emergido de uma infecção prolongada de um paciente possivelmente imunossuprimido.

“Isso faz sentido porque, nesses pacientes, o sistema imunológico sofre supressão e isso dá oportunidade ao vírus de adquirir mais e mais mutações cada vez que faz cópias dele mesmo. Pode estar atrelado à alta transmissão”, diz. 

A maior parte das mutações dos vírus não têm importância, nem segue nas ‘populações’ de vírus que serão formados. Só uma parte dessas alterações acaba mesmo levando às novas cepas. Dentre essas, apenas uma parcela é que pode trazer alguma adaptação ao vírus.  No Painel Genômico da Fiocruz, a Bahia tem pouco mais de 1,8 mil genomas de amostras do Sars-cov-2 sequenciados, enquanto o Brasil tem pouco mais de 78 mil. Desde agosto, a variante delta representa a maioria - ou o total - dos sequenciamentos feitos

"A transmissão é o problema porque é a oportunidade de o vírus infectar tantas pessoas ao mesmo tempo que ele vai conseguir, a partir dessas mutações, adquirir alguma adaptação importante. Por isso as vacinas são importantes: além de controlar a transmissão, elas conseguem suprimir a frequência dessas mutações", reforça Mellanie. 

Em locais onde a transmissão do vírus está descontrolada, a chance de mutações acaba sendo maior. “Apesar de não sabermos exatamente quando e onde surgiu (a variante ômicron), isso revela um problema grande de desigualdade na distribuição de vacinas em lugares com baixa cobertura vacinal”, acrescenta. 

Desigualdade
Desde o anúncio da ômicron, países como Estados Unidos e membros da União Europeia fecharam fronteiras para países da região Sul da África. O Brasil também suspendeu voos com passagens por dez países do continente, incluindo África do Sul, Moçambique e Angola. Outros, como Japão e Israel, não têm aceitado visitantes de nenhum país. 

Para especialistas, as medidas também evidenciam a desigualdade na distribuição de imunizantes contra a covid-19. Na avaliação da epidemiologista e biomédica Joilda Nery, doutora em Saúde Coletiva e vice-diretora do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba, essa situação é um reflexo do modelo social e econômico capitalista de acesso à saúde, que inclui vacinas e medicamentos. 

"Essa distribuição se organiza tal qual esse modelo predatório. Não me admira que o Norte global tenha esse monopólio das vacinas e controle também a questão das patentes, que a gente vê não só com a covid, mas com as doenças anteriores à pandemia", analisa, citando doenças tropicais negligenciadas. "Ainda se morre e se adoece por doenças que a indústria farmacêutica não têm interesse em investir, porque esse Sul global não é um mercado consumidor forte", diz. 

Ela critica o que chamou de sensacionalismo com relação aos países africanos, diante dessas medidas adotadas para enfrentar uma cepa que pode nem mesmo ter surgido lá. "Isso tem muito a ver com a forma de organização do Norte e do Sul globais", reitera. 

Por outro lado, a preocupação de diferentes governos em fechar voos com origem em alguns países da África pode ser explicada pelo fato de que 62% dos casos notificados da Ômicron no mundo estão na África do Sul e em Botsuana, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou na quinta-feira. “A detecção e a notificação oportuna da nova variante, por Botsuana e África do Sul, fizeram com que o mundo ganhasse tempo”, acrescentou a diretora regional da OMS para o continente, Matshidiso Moeti. A entidade ressalta que os governos desses dois países estão “redobrando as medidas para detectar e controlar” a propagação da nova variante.

Ao longo de todo o ano, a OMS tem reforçado a necessidade de os países mais ricos - em especial, os integrantes do G20 - doarem imunizantes aos países onde a vacinação não avançou. Na última segunda-feira (29), a entidade divulgou um novo posicionamento ao lado de autoridades como a Unicef e o consórcio Covax (iniciativa para distribuição de vacinas aos países pobres) defendendo que a imunização de 70% da população do continente africano seja uma meta global. 

Mas é preciso ir além das doações, como explica a biomédica e neurocientista Mellanie Fontes-Dutra. "A doação seria um ponto relevante, mas é preciso levar em consideração a acessibilidade. Podem ter lugares de difícil acesso onde é necessário fazer com que o imunizante chegue até a população", pondera. 

Assim, iniciativas como essa devem vir acompanhadas de estratégias de entrega. "Não adianta só mandar um monte de vacina lá e deu. Muitas vezes implica numa distribuição com maior capilaridade, para uma população que nem sempre consegue ir para um centro urbano", diz. 

Coletiva
O problema é que isso não acontece apenas entre países. Dentro de um país continental, como o Brasil, é possível que existam ‘ilhas de assimetria’ com a distribuição de vacinas, como destaca o imunologista e pediatra Celso Sant’Anna, da UniFTC e da Ufba.

"Essas áreas podem ser potenciais celeiros de cepas perigosas para nossa saúde. Nós só vamos estar seguros quando tivermos mais de 90% ou 95% da população vacinada, incluindo crianças, jovens e adultos em todo o mundo", avalia o médico.

Para ele, o momento exige um esforço global para atingir também esses países. "Não adianta o Brasil ter 95% e o continente africano ter menos de 20%. O mundo precisa acordar que não adianta a Europa achar que está vivendo numa ilha e vai conseguir se isolar do resto do mundo", acrescenta.

E onde entra a decisão de cada um? É justamente no fato de que a vacinação não se trata de uma estratégia individual. Ainda que os imunizantes ofereçam algum grau de proteção individual a cada pessoa, além de evitar infecções graves, elas têm melhor resultado quando a população vacinada cresce. 

Nesse cenário, como explica a pesquisadora Mellanie Fontes-Dutra, a chance de o vírus encontrar uma pessoa não-vacinada é muito pequena. Isso vale tanto para a vacina contra a covid-19, com todas as três doses, quanto para o calendário periódico vacinal.

"A gente vai conseguir rastrear os novos casos e contatos e conseguir isolá-los com certa antecedência antes de gerar aumento significativo da transmissão novamente. Além de estar promovendo a proteção na sociedade, inclusive nas pessoas ainda suscetíveis, também isolamos a transmissão quando chegamos a uma cobertura altíssima", completa. 


Medidas de prevenção devem continuar, defendem especialistas

Com a vacinação desigual, a possibilidade de surgirem novas variantes aumenta. Por isso, ainda que a localidade onde você vive tenha uma alta cobertura de imunização contra a covid-19, a orientação dos especialistas é não deixar de adotar as outras medidas de prevenção contra o vírus. 

"Não é hora de desobrigar o uso de máscaras, não só em ambientes fechados, mas também em ambientes abertos. Mesmo em ambientes abertos, se tiver aglomeração, como estádios de futebol ou feiras, é importante seguir fazendo essas medidas enquanto não atingimos índices maiores", defende a biomédica e neurocientista Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19. 

Entre os estados que debatiam a liberação de máscaras em espaços abertos, o governo de São Paulo anunciou, na última quinta-feira (2), que suspendeu a medida. A liberação estava prevista para entrar em vigor no próximo dia 11, mas o comitê científico do estado fez a recomendação de voltar atrás depois que três casos da variante ômicron foram confirmados lá. 

A preocupação dos cientistas e profissionais de saúde agora é que o abandono às medidas de proteção comprovadamente eficazes faça com que todo o avanço conquistado até aqui acabe se perdendo.

"A gente tem tido avanços no que se refere à diminuição da letalidade também por causa da vacinação, só que isso tudo pode cair por terra. Isso se refere também à baixa cobertura vacinal - não adianta ter tomado só a primeira dose", reforça a epidemiologista Joilda Nery, doutora em Saúde Coletiva e vice-diretora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (Ufba). 

A vacinação deve continuar sendo combinada com as estratégias de prevenção como o uso de máscaras, evitar aglomerações e garantir o distanciamento social. "Se a gente entra numa falsa normalidade de que não precisa usar máscaras porque está vacinado e começa a aglomerar de novo sem a devida cobertura, joga todo o esforço por água abaixo", acrescenta. 

Além disso, ela defende que é preciso ter atenção especial às fronteiras. Até hoje, o Brasil não adotou um passaporte vacinal para visitantes estrangeiros. "A gente tem que avaliar com muito cuidado nossa baixa capacidade de testagem, porque temos casos também silenciosos. Se temos ampla difusão de máscaras, por que não continuar usando", reforça.

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