Quando Caetano, Gil, Gal e Caymmi invadiram Roma, na Itália, por nove dias para sambar

entretenimento
29.08.2020, 06:37:00
Atualizado: 29.08.2020, 07:37:24

Quando Caetano, Gil, Gal e Caymmi invadiram Roma, na Itália, por nove dias para sambar

Evento na capital italiana reuniu nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, João Gilberto, Dorival Caymmi e foi registrado em filme

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

O ano era 1983. O mês agosto. Os dias: 23 a 31 de agosto. Um grupo de ilustres baianos saiu de Salvador, conhecida como a Roma Negra, para “invadir” com muita música, suingue e a nossa conhecida malemolência, a chamada Roma Branca ou a Cidade Eterna. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, João Gilberto, Dorival Caymmi estavam à frente dessa trupe que tinha também Nana Caymmi, Moraes Moreira, Naná Vasconcelos,  Paulinho Boca de Cantor, Walter Queiroz, o trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar e Batatinha, o saudoso sambista baiano autor de clássicos Toalha da Saudade, que é o nome de um bar tocados por filhos e netos, nos Aflitos.

Caetano conversa com Caymmi em Roma(Divulgação)

Durante nove noites cerca de 150 músicos, dançarinas e capoeiristas mostraram aos italianos a força da nossa música e da nossa cultura. Inclusive com as presenças de duas grandes figuras como Dorival Caymmi e Osmar Macedo um dos criadores do trio elétrico. Lá estava ele com o Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar. Tudo isso foi registrado e transformado num belo filme documentário dirigido por Paulo César Saraceni e Leon Hirszman, dedicado ao cineasta baiano Glauber Rocha.

Uma das cenas mais bonitas, mostra um diálogo entre Caetano Veloso e Caymmi.  O grande cancioneiro de obras primas como O que é que a baiana tem; Marina; Só Louco; Suíte dos pescadores, entre tantas, explica a Caetano como ele deu dicas para Carmem Miranda (a pequena notável) comportar-se como uma baiana. Ensinando a ela os trejeitos e como usar a bela indumentária. Os dois se mostram bem à vontade enquanto os técnicos estão preparando o palco para os shows que se sucederiam.

Durante a conversa eles falam das semelhanças de Roma com Salvador, como estavam se sentindo como se estivessem na capital baiana com aquelas ruelas da capital italiana e o jeito alegre e festeiro dos italianos. Eu tive uma experiência de ir a Roma, com o Ilê Aiyê e, também, tive essa sensação. Além dos homens ficarem loucos quando viram as belas dançarinas do Mais Belo dos Belos.

Gilberto Gil num passeio pela cidade eterna (divulgação)


Também o filme registra o grupo Viva Bahia, criado por Emília Biancardi, dando show de capoeira e samba de roda em plena Piazza Navona uma das jóias do barroco italiano. Outro momento bonito é Batatinha cantando e tendo como acompanhante Tuzé de Abreu e no vocal Fafá Leonardo (há muitos anos morando em Paris) e que criou a Lavage da Sacré Couer junto com Robertinho Chaves que depois passou a fazer a Lavage de La Madeleine. Em outra cena Batatinha aparece falando sobre a música baiana com Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira. Tem também Gilberto Gil passeando por Roma além de cantar na Piazza de Spagna.

Silvana magda é destaque no jornal italiano (Acervo pessoal de Silvana) 

Outro achado do filme é a participação de dois baianos que mais tarde ficariam conhecidos por seus trabalhos. A dançarina e cantora Silvana Magda (mora há muitos anos nos Estados Unidos) que participou como solista do Viva Bahia e dançou com Caetano, Gil e se destacou na apresentação do trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar com direito a destaque no principal jornal de Roma. Outro foi Walson Botelho, que ao lado de Silvana fizeram vocais para Dorival e Nana Caymmi. Silvana é a criadora da Lavagem de New York e Walson (Vavá) criou o Balé Folclórico da Bahia, reconhecido em todo o mundo.

Além das imagens históricas o filme registra os belos momentos musicais com um repertório impecável. Desde a abertura quando se vê Armandinho e Tuzé de Abreu tocando o belo choro Lamento (Pixinguinha). Aí segue com Batatinha cantando Ago Baba Okué. Tem João Gilberto (Estate), Moraes Moreira (Festa no Interior); Gilberto Gil (Toda menina Baiana), Caetano Veloso (Lua de São Jorge), Gal Costa (Índia); Caymmi (O que é que a baiana tem) entre tantas pérolas que vale a pena assistir o filme. Afinal, reunir um elenco estelar desse modo hoje seria impossível pelas ausências de Osmar Macedo, Dorival Caymmi, João Gilberto, Moraes Moreira e Batatinha que já nos deixaram.


 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas