Quando meu filho descobriu que "podia" ser racista, se tivesse vontade

flavia azevedo
22.11.2020, 11:00:00

Quando meu filho descobriu que "podia" ser racista, se tivesse vontade


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Acaso de migrações, ele nasceu com pele e olhos claros, numa família multicolorida, tipicamente brasileira. Vinha crescendo sem saber se havia alguma hierarquia de cores humanas, que uma pudesse ser "melhor" do que outra, para o olhar de alguém. Vinha ótimo, saudável. Misturado com pessoas de diferentes cabelos, jeitos e olhares. Amigos, colegas, parentes. Nos batuques de candomblé e também nas rezas de Santo Antônio, mesmo sendo filho de mãe agnóstica. Pouco importa. Se não for pela fé, tem a cultura, reza bonitinha e canjiquinha pra comer. Vinha se lambuzando de dendê e provando bacalhau, ainda sem idade para as conversas sobre nosso processo de colonização.

(Estas, vieram em seguida. Intensas, como precisam ser.)

Naquele dia, eu tive vontade de gritar. Não com ele, mas com a pessoa (não negra) que, ao vê-lo abraçado com o amigo (sim, negro) fez um "elogio" ao não racismo do menino não negro que meu filho é. Coisa que ele, por volta dos três anos, escutou e entendeu perfeitamente. A minha resposta desaforada evaporou, não adiantou nada. Ao cruzar o olhar com o meu, Leo me disse - sem palavra - que havia percebido tudo: em algum lugar, ele estava autorizado a escolher se queria ou não perceber pessoas de pele escura como iguais. Mais do que isso, ele entendeu que ele mesmo era muito legal (digno de elogio!) porque "escolhia" conviver com, abraçar e amar pessoas negras.

Dias depois, o conteúdo veio. Inteiro. "Mãe, a gente convive com pessoas negras numa boa, né?". Quase confirmando que fazemos a "escolha" certa. Sim, se colocando acima, tomando posse do lugar onde foi posto pela observação da pessoa não negra que o elogiou por abraçar o amigo - sim, negro. Eu respondi além do que ele podia entender, naquela idade, acho: "ser racista, faria de você um lixo, mas não ser racista não transforma você em alguém especial". Ou algo desse tipo. A partir daquele dia, a palavra "racismo" entrou forte em nosso vocábulo familiar e, em torno dela, passaram a girar muitas das nossas conversas mais interessantes, fortes e necessárias.

Só que, por mais que eu faça, não sei se consigo tirar meu filho daquele lugar. Não sei se tiro completamente a mim mesma de onde fui posta, que dirá. É uma construção com séculos de estrutura, uma narrativa que nos surpreende em esquinas inusitadas essa de "branco (não negro) legal". E sempre, infelizmente, renovada . Antirracistas presentes, aqui. Claro. Meu filho, um grande aliado. Um cara que, aos nove anos, observa "isso foi racista" diante de matérias, histórias e posturas nas quais o foco nem é essa discussão. Muito melhor do que eu - porque alertado desde muito mais cedo -, dificilmente, vai repetir o padrão. Escuta, quer saber, se interessa, atua no que é possível, aos nove anos de idade. Mas olha a insistência desse orgulho aqui no meu peito, quando tudo isso devia ser absolutamente normal.

A "revelação" aconteceu em um lugar onde eu já havia percebido racismo e cheguei a comentar. Alguém me disse "relaxe, seu filho é branco, não pega nada" e a discussão foi longa sobre o sentido de "pegar". Não há lado seguro nessa briga. Não há uma cor de pele que salve. Pessoas  negras morrem, literalmente, apenas porque existem e essa é uma tragédia concreta, absurda, real.

Simbolicamente, morremos todos. E eu me perdoo pelo clichê porque sei o que é criar um filho não negro cuidando, todos os dias, para que ele não seja cooptado pela narrativa/máquina de fazer babacas. Não, não tô comparando essas dores, que eu não sou maluca. Mas, olhe: diante desse Brasil aí, criar gente minimamente digna tá dando um puta trabalho.

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