Quem aguenta? Mães solo sobrecarregadas, desempregadas e sem a pensão dos filhos

coronavírus
04.10.2020, 07:00:00
Atualizado: 05.10.2020, 19:02:23
(Imagem: Shutterstock)

Quem aguenta? Mães solo sobrecarregadas, desempregadas e sem a pensão dos filhos

Piorou na pandemia: veja histórias de mulheres que estão tendo que conciliar falta de grana, tarefas domésticas, trabalho e educação com pouco ou nenhum suporte

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

“Tentei trabalhar em casa como professora, dando aulas online, só que não deu certo porque as meninas pulavam e gritavam, no meio da live, que queriam café com leite. Então, eu falei: cara, é o fim. Acabou a minha possibilidade trabalhar”. Existe aí alguém que ainda não tenha dado uma surtada na pandemia? Então, por favor, estenda uma mão amiga para as mães solo que precisam conciliar, neste momento, falta de grana, tarefas domésticas, trabalho e o acompanhamento da educação dos filhos. Isso, com pouco ou nenhum suporte. 

“Uma das meninas engoliu um ímã bem no auge do isolamento, quando estava tudo muito novo ainda e eu tive que partir para o hospital. Mãe solo em tempos de pandemia é isso”, complementa a professora e mãe das gêmeas Amani e Ilana, de 6 anos, e Sofia, 3 anos, Mariana Ordacowski, 38 anos.  

Um levantamento feito pelo Locomotiva Instituto de Pesquisa ouviu duas mil mães solo de 72 cidades do Brasil - entre elas, municípios na Bahia - para traçar um perfil dessas mulheres na pandemia. O retrato é o seguinte: sete em cada dez dessas mães disseram que a renda diminuiu (76%).

(Infografia: Axel Hegouet/ CORREIO Gráficos)

Só 23% estão empregadas com carteira assinada ou são funcionárias públicas. A maioria das mães solteiras pertence às classes C, D, E (87%). Ainda sobre estas mulheres, 50% têm menos de 44 anos, e 54% são negras (veja no gráfico). 

“Rotina? Que rotina? Minha vida virou de cabeça para baixo. Até hoje não consegui achar uma solução perfeita para retomar as atividades com uma criança em casa 24 horas por dia”, conta a designer de moda e mãe de Iara, de 3 anos, Ana Paula Pereira. A casa está uma zona, as paredes viraram exposição de arte e o caos se instalou.

Ana Paula Pereira e a filha Iara, de 3 anos
(Foto: Acervo Pessoal)

Sem apoio 
Em Salvador e Região Metropolitana, uma em cada cinco famílias era chefiada por mãe solo (o maior percentual do país), há cinco anos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Professora e diretora de uma escola na rede estadual, Fernanda Simões é mãe de Maria Eduarda, de 15 anos, e está dentro dessa estatística. “A pandemia só intensificou o que é o lidar sozinha com os conflitos e obrigações. Além disso, aumentou as desculpas para a ausência do pai”. 

Fernanda Simões é mãe de Maria Eduarda, 15 anos
(Foto: Acervo Pessoal)

Para a pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim/Ufba), Márcia Macedo, a pandemia evidencia a situação de desigualdade em que vivem essas mães.

“O momento não é novidade para quem vivencia, mas se intensifica. Isso mostra como ainda são muito mal divididos, com os homens, esses cuidados e que isso nunca é igualitário”. 

Desempregadas 
A autônoma Alexandra Conceição está desempregada faz um ano e, por isso, precisou recorrer ao Auxílio Emergencial para garantir o sustento dela e do filho Davi Lucca, de 3 anos. “Não consigo sair de casa para procurar emprego agora porque não tem quem possa ficar com ele”, afirma. 

Alexandra Conceição e o pequeno Davi Lucca, de 3 anos
(Foto: Acervo Pessoal)

O projeto Segura a Curva das Mães - que apoia mães solo e suas famílias, em situação de vulnerabilidade agravada pela covid-19 - tem, na Bahia, 6% das mulheres inscritas para receber o suporte mínimo de R$ 150 mensais. Ao todo, são 1.734 apoiadas no país.

Para uma das idealizadoras, Thaiz Leão, chamam a atenção as incertezas sobre renda, o excesso de trabalho e um recorrente processo de culpa. “Só a perspectiva de ter onde se debruçar e ser acolhida já é um grande apoio”. Quem quiser ajudar pode conhecer o projeto, fazer doações e/ou apadrinhar essas mães no site seguraacurvadasmaes.org.br.   

Falta pensão 
Em situação bastante comum, apesar de ilegal, Maria Luiza*, mãe de Davi*, de 16 anos, não recebe a pensão do filho desde quando ele era bebê. “Criei meu filho sozinha e tenho certeza de que ele se tornou um jovem do bem”. Afirma, saindo vitoriosa de um drama que se agrava durante a pandemia.

A advogada especializada em Direito das Famílias com perspectiva de gênero e mediadora de conflitos, Mariana Regis, destaca que esse é um dos principais problemas jurídicos que as mães solo estão enfrentando na pandemia. Em segundo lugar estão questões envolvendo o regime de convívio (direito de visita).

“Nenhum pai pode, espontaneamente, decidir que vai cortar a pensão, se existe um valor fixado na Justiça. A mãe pode entrar com uma ação já a partir de um mês de atraso para que ele seja obrigado a pagar”, dá a dica.

Suporte 
A jornalista e dj, Preta Barros, diz que se sente desgastada. Ela é mãe de Olga, de 4 anos. “Não existe romance na maternidade solo. Preciso cuidar de Olga. Eu sou a única pessoa que ela tem”, desabafa. 

É necessário que todas essas mulheres reconheçam que esse é um momento delicado e não tentem se cobrar tanto por isso, como aconselha a psicóloga da Clínica Holiste, Lara Cannone.

“Exponha de maneira legítima suas dificuldades, o que sente, e não deixe de buscar o suporte de um serviço de saúde para lidar com tudo isso”. 

Produtora cultural, Carine Araújo, 38 anos, é mãe de Joana, de 4 anos, e mais uma das que tentam — e vão continuar tentando — todos os dias.

Carine Araújo e a filhota Joana, 4 anos
(Foto: Acervo Pessoal)

“Cozinhamos juntas, assistimos filmes juntas, ouvimos música, fazemos yoga, dançamos e ela adora. Somos mulheres esgotadas tentando dar conta do humanamente impossível”. 

* Nome fictício, a personagem pediu para que ela e o filho não fossem identificados na matéria. 


O QUE DIZEM AS MÃES SOLO SOBRE A SOBRECARGA NA PANDEMIA?

1. “É coisa mais difícil que eu estou fazendo na minha vida” 

Estava dentro de um relacionamento mega tóxico e abusivo com o pai das meninas, no qual permanecei por três anos, justamente por essa dificuldade de ser mãe solo, que é a coisa mais difícil que eu estou fazendo na minha vida. Na pandemia, perdi totalmente a minha renda, pensão do pai, a escola e até a moça que cuidava delas, mas consegui o Auxílio Emergencial pago pelo governo.

Mariana Ordacowski é mãe das gêmeas Amani e Ilana, de 6 anos e Sofia, 3 anos
(Foto: Acervo Pessoal)

É muita energia, muita coisa que eu tenho que dar conta, então, são muitos pratos que acabam caindo. Eu estou medicada desde junho. Eu busquei ajuda psiquiátrica para poder dar conta. Uma grita a comida que quer, a outra a roupa que quer e que você prometeu isso ou prometeu aquilo e tem o ‘mãe, você é chata’.

A gente também é o depósito das frustrações, já que as crianças estão em casa e não têm a outra figura lá para dividir o 'ser ruim' comigo. As emoções estão à flor da pele.

Elas têm me ensinado a ver o quanto são capazes. Eu coloco para fazer algumas coisas, tipo o próprio Nescau ou ovo no micro-ondas. Forram a cama, penduram roupa.

Vejo que são responsáveis e entendem o que está acontecendo e as necessidades do momento. O significado de ser mãe solo na pandemia é estar sozinha nessa responsabilidade total.  (Mariana Ordacowski, 38 anos, professora e mãe das gêmeas Amani e Ilana, de 6 anos e Sofia, 3 anos)

*

2. “Agora sou eu e minha filha para tudo” 

Morei como pai da minha filha por quase sete anos em outro estado, nunca me adaptei à cidade e ele, a cada briga, quebrava tudo em casa. Pedi transferência do trabalho e voltei para a Salvador com  a promessa de que ele iria se tratar para que existisse a possibilidade de tentar recomeçar.

Cristiane Gonçalves com a filha Ceci, de 4 anos
(Foto: Acervo Pessoal)

Minha filha nasceu, o pai foi ver a criança no hospital e na hora da saída da maternidade, ele me disse que o casamento estava acabado. Depois de oito dias, foi embora e nunca mais voltou. Depois descobri que ele estava com outra mulher, há um bom tempo, e que ela estava grávida. Minha filha tem uma irmã paterna com 9 meses de diferença de idade. Foi uma dor tremenda, mas consegui me recuperar.  

Antes, eu tinha minha mãe para me dar apoio, mas eu a perdi em meio à pandemia por conta de um aneurisma e agora sou eu e minha filha para tudo. Estamos tentando montar uma rotina, mas Ceci reclama muito que eu trabalho demais e ela está sozinha, não tem ninguém para brincar.

Ceci me ensina demais o que é amor, companheirismo e esse tempo juntas nos fez aprender mais uma sobre a outra, nossos limites, nossas emoções. Lemos juntas, brincamos de pintar também. Ela me imita trabalhando e a parte melhor que existe no meu dia é ouvir ‘eu te amo’ do nada.  (Cristiane Gonçalves, 36 anos, servidora pública e mãe de Ceci, 4 anos)

*

3. “Minha rede de suporte foi o Minecraft” 

Minha rede de suporte na pandemia foram jogos online como Minecraft. Ele assistia às aulas de manhã e ficava no tablet a tarde toda para eu conseguir fazer as coisas. Cauê ficou um período muito abatido, nada interessava ele. Meu filho é tudo na minha vida e se ele não está bem, eu não consigo ficar bem.

Ludmila Meira é mãe de Cauê, 9 anos
(Foto: Acervo pessoal)

Converso muito com ele hoje em dia, sobre as emoções: que a tristeza é normal, o medo é algo que nós temos que respeitar e, aos pouquinhos, a gente vai trazendo a alegria e a coragem para perto. A pandemia trouxe a oportunidade destas reflexões.

Cauê não foi planejado e veio no final de um relacionamento. Eu já estava com 33 anos e pensei que era a hora mesmo de ter meu filho independente de companheiro ou não. Ser mãe solo, filha única de uma mãe idosa que já passou por um câncer de pulmão, pesa muito a questão emocional.

Eu comecei a não dar conta mais de trabalho e ia me dividindo para conseguir dar atenção a ele. Desabei. Não tinha essa rede de suporte, porque minha mãe era do grupo de risco e eu senti muito isso. Foi então que eu tomei a decisão mudar de ‘cativeiro’.

Saí de Cruz das Almas (BA) com meu filho para uma casa de praia, em Boipeba. Foi o que me salvou. O maior desafio é manter a cuca fresca, a cabeça no lugar. (Ludmila Meira, 42 anos, administradora, professora universitária e mãe de Cauê, 9 anos)

*

4. “Vivemos, sim, uma sobrecarga na pandemia” 

Me tornei mãe solo quando meu filho tinha apenas 10 meses. Meu casamento terminou após descaso e violência. Mudou tudo, não conseguia ter vida social, nem na academia podia ir. Igreja e trabalho eram os únicos locais que conseguia frequentar. Ser mãe solo é abdicar da própria vida em prol da vida do filho.

Cristiane da Conceição e Matheus, 8 anos
(Foto: Acervo Pessoal)

Aprendi com ele que sou suficientemente forte e que vale muito a pena. Vivemos, sim, uma sobrecarga na pandemia: trabalho, atividades, conteúdos escolares atividades, serviços domésticos. Ele tem assistido as aulas pela manhã e então, fazemos as atividades.

À tarde ele brinca e assiste televisão e, enquanto isso, eu faço as coisas do meu trabalho. De noite, entre uma demanda e outra, conseguimos ficar um pouco mais juntos.

Já o pai sempre foi ausente, mas aparecia de vez em quando. Com a pandemia, sumiu completamente. Ele não contribui financeiramente há três anos, o que me fez levar a questão à justiça.

Alguns dias, me sinto bem, outros nem tanto. Fico sem tempo para o auto cuidado, estressada e me culpo por não ser a mãe que gostaria de ser para ele. Sinto que preciso de ajuda psicológica. Matheus é a razão do meu viver. O amor da minha vida. Sei que se eu não fizer por ele, ninguém mais fará. (Cristiane da Conceição dos Santos, 40 anos, professora e mãe de Matheus, 8 anos)

*

5. “Todo título de guerreira, de mãezona, de mulher ‘da porra’, esconde uma mulher sobrecarregada” 

Minha coragem nasce do medo de não ser a mãe que eles três precisam que eu seja. Ser mãe solo é se compor um exército de uma mulher só. Com a pandemia, atualmente, minha convivência com eles é 24 horas por dia sete dias por semana. O maior desafio é equilibrar nossas diferenças, mantendo o respeito e o senso de humor.

Roberta Evelyn Passos é mãe de João Victor, 19 anos, Alexandre Ítalo, de 11 anos e Valdemir Neto, 9 anos
(Foto: Acervo Pessoal)

Eu sinto muita falta de ficar sozinha, de ter um tempo exclusivamente meu. E eles sentem falta da escola, dos amigos, da casa dos avós maternos. Nós quatro sentimos falta do mar. Muita falta. Dentro das possibilidades dele, o pai dos meninos mantém contato pelo Whatsapp. É um dia de cada vez.

Vivo imersa numa sociedade que acredita e reafirma que tudo que faço como mãe, nada mais é do que minha irrestrita obrigação. Todo título de guerreira, de mãezona, de mulher ‘da porra’, esconde uma mulher sobrecarregada.

Estamos mais íntimos e cuidadosos uns com os outros. Meus filhos são a razão dos meus sorrisos mais sinceros e das minhas emoções mais honestas. Eles são os motivos pelos quais eu preciso ser melhor e coerente entre o que digo e o que faço.   (Roberta Evelyn Passos, 41 anos, professora do universitária, coordenadora pedagógica na Rede Estadual de Ensino e mãe de João Victor, 19 anos, Alexandre Ítalo, de 11 anos e Valdemir Neto, 9 anos)


NÃO PIRE: CINCO DICAS PARA CONCILIAR CASA, FILHOS E TRABALHO

A psicóloga que atende tanto mães quanto crianças, especialista em Psicologia do Desenvolvimento e professora do UniRuy, Roberta Takei, orienta que o primeiro caminho é buscar ajuda na rede social imediata: “isso inclui nossos amigos, parentes, vizinhos”, afirma. 

Divida as tarefas possíveis com as crianças. “A pandemia pode ser um momento chave para ensinar autonomia e responsabilidade aos pequenos”.  

Outro conselho é tentar reservar um tempo do seu dia para atividades de lazer, autocuidado. “Estamos vendo cada vez mais mulheres com transtornos ansiosos, depressivos, psicossomáticos. Até a imunidade física baixa, diante de uma sobrecarga como essa, após a pandemia tornar a rede de apoio dessas mães, ainda mais restrita. Ainda que seja apenas 15 minutos, tente”, insiste a psicóloga.   

E aí vem mais uma dica: não se cobre tanto. “Você está fazendo seu melhor nesse momento”, acrescenta.  

Se precisar, sentir que não dá para atravessar esse momento sozinha, busque ajuda psicológica. “Existe uma série de serviços e profissionais disponíveis nesse momento, inclusive, gratuitos ou cobrando preços mais acessíveis nesse período de pandemia”.   
 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas