Quem disse que game não é coisa séria?

entretenimento
15.05.2018, 06:10:00
Atualizado: 15.05.2018, 09:50:57
Criação da empresa baiana Aoca, o jogo Árida mostra o viver sertanejo (Foto: Divulgação)

Quem disse que game não é coisa séria?

Desenvolvedores baianos defendem que o jogo, mais que lazer, é negócio

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Quem nunca passou horas em frente ao computador, celular ou videogame, mergulhado nos jogos eletrônicos até perder a noção do tempo? “Minha geração cresceu com o Atari”, justifica o historiador baiano Filipe Pereira, 32, apaixonado por games que até hoje dedica boa parte do tempo a eles. Fato que a família não entende muito bem, mesmo quando ele explica que se trata de trabalho.

“Para o senso comum, é difícil entender o que é trabalhar com jogos. Minha mãe até hoje não entende”, revela Filipe que também é game designer e professor da primeira graduação tecnológica em Jogos Digitais da Bahia, oferecida pela Uneb. Com mestrado em game design voltado para jogos educativos, Filipe é um dos desenvolvedores que defendem: “jogo é coisa séria”.

Outro que dá corpo à classe é o baiano Daniel Silveira, 28, primeiro brasileiro a lançar um jogo no Nintendo Switch (um dos videogames da Nintendo), o Rocket Fist. Radicado no Canadá, Daniel participa esta semana da Campus Party Bahia, que acontece na Arena Fonte Nova, de quinta (17) a domingo (20), e compartilha um pouco sobre sua trajetória profissional. 

“Socialmente, ainda tem um estigma em relação ao trabalho de desenvolvedores de jogos no Brasil. O pessoal não vê como trabalho sério. Sempre falam: ‘Ah, você ‘só’ joga o dia inteiro’”, aponta Daniel, que também é criador do What The Box, game que viralizou ao cair no gosto do maior youtuber do mundo, o sueco PewDiePie, que reúne 62 milhões de seguidores.

Trabalhando atualmente em um novo game que será lançado pela Nintendo, o jogo de tiro Immortal Quest, Daniel vai compartilhar detalhes do produto e do processo de trabalho na palestra que apresenta sábado, às 13h30. Além disso, vai conversar sobre sua empresa, a Bitten Toast.

“Vou falar como começo um jogo, como faço playtests, como avalio e lanço. Vou falar o que aprendi com os jogos passados e o que as pessoas podem levar de dicas”, explica Daniel, que também vai testar um dos jogos no evento junto com a Bahia Indie Game Developers (Bind), coletivo de desenvolvedores de games independentes da Bahia.

Radicado no Canadá, o baiano Daniel Silveira, 28 anos, está produzindo seu segundo jogo para a Nintendo (Foto: Divulgação)

Sobrevivência
Outro jogo que será mostrado em primeira mão na Campus Party é o Árida: um game de sobrevivência e aventura que se passa no sertão baiano com lançamento previsto para o segundo semestre, para PC. Desenvolvido pela Aoca Game Lab, empresa que faz parte da Bind, o Árida é protagonizado por uma garota que pega na enxada e mostra o dia a dia do sertanejo.

Dar representatividade a uma cultura pouco retratada nos jogos eletrônicos é um dos objetivos da Aoca. “Essa questão identitária ajuda as pessoas a serem mais vistas. É importante humanizar o processo. Utilizar o game como plataforma de reconhecimento identitário é o mínimo que se pode fazer”, defende Filipe Pereira. Game designer líder e gerente de projetos da Aoca, Filipe destaca, ainda, o baixo número de mulheres e negros na equipe de desenvolvedores.

“Não adianta esperar por novas temáticas se as pessoas que fazem são as mesmas”, pondera Filipe.

A falta de representatividade e de compreensão social sobre a profissão são só alguns do entraves para o crescimento da área. “A cena da Bahia ainda está engatinhando”, destaca o diretor da empresa que organiza o Gamepólitan, maior evento de jogos do Norte e Nordeste, Ricardo Silva, 35.

“O mercado de games está dando uma rentabilidade enorme, mais do que a indústria de cinema e musical somadas. As pessoas ainda estão começando a entender o que é o cenário, e o corpo empresariado tradicional passa a olhar com outros olhos”, avalia Ricardo. Duvida? O Brasil é o quarto maior mercado consumidor de jogos no mundo e, segundo a pesquisa Game Brasil 2018, mais de 75% dos brasileiros jogam games eletrônicos. Fica a dica.

O historiador e game designer baiano Filipe Pereira, 32, é professor da primeira graduação tecnológica em Jogos Digitais da Bahia. O curso bianual da Uneb vai oferecer vagas pelo Sisu para a turma 2019

Gosta de jogos? Confira dicas de quem entende do assunto

Árida
O jodo da empresa baiana Aoca, que será lançado no segundo semestre, para PC, é um game de sobrevivência e aventura que se passa no sertão baiano. A franquia de quatro episódios é protagonizada por uma garota que pega na enxada e mostra o viver sertanejo, com direito a itens como rapadura, palha de milho e farinha. A ideia é expandir o universo ficcional do projeto e criar personagens para histórias em quadrinhos e animação.

Rocket Fist
Primeiro game brasileiro a sair pelo Nintendo Switch, o Rocket Fist é uma criação do baiano Daniel Silveira, 28 anos. Radicado no Canadá, Daniel começou a fazer o jogo como protótipo para um dos trabalhos do mestrado, mas não serviu ao propósito e foi descartado. Como gostava muito e se divertia com os amigos, Daniel continuou desenvolvendo o Rocket Fist e lançou por conta própria. "Não tive o retorno esperado, não fez tanto sucesso", lembra o game designer que, em um belo dia, foi convidado pela Nintendo para lançar o Rocket Fist.

What The Box?
Foi feito para uma Game Jam (espécie de competição em que desenvolvedores se comprometem a fazer um jogo em torno de um tema específico e durante um período de tempo determinado – sete dias, neste caso). A partir do tema “Isso não deveria estar aqui?”, surgiu o jogo que é um tipo de esconde-esconde com caixas no cenário. Algumas delas são jogadores que não deveriam estar ali. Em apenas 29 dias, What The Box? estourou e foi jogado pelos maiores YouTubers do mundo, como o sueco PewDiePie, que reúne 62 milhões de seguidores. "Não fiz exatamente nada, só botei o jogo na loja. Não sei exatamente como ele fez sucesso no YouTube. Só sei que virou", conta Daniel.

Eventos sobre o universo dos games
Campus Party Bahia (17 a 20 de maio); Campus Party Brasília (30 de maio a 3 de junho); Campus Party Amazônia (01 a 05 de agosto)
BIG Festival - Brazil's Independent Games Festival (São Paulo e Rio de Janeiro: 23 a 30 de junho)
Seminário de Jogos e Educação (Uneb)
Gamepólitan (28 e 29 de julho)
SBGames (Nacional e rotativo)
Brasil Game Show (SP)
Dash (RS)

Campus Party Bahia
Palestras sobre a vida do desenvolvedor de games, workshops que ensinam técnicas de como criar jogos, áreas de testes e arenas para virar a noite jogando são algumas das atividades da Campus Party Bahia, que acontece de quinta a domingo, na Arena Fonte Nova. “O mercado na Bahia, de maneira geral, é mais focado no game. As pessoas daí gostam muito. A gente vê um desenvolvimento maior na área de games. Nas outras praças, o game é meio marginalizado. Todo mundo joga, mas ninguém admite”, destaca o diretor da Campus Party Brasil, Tonico Novaes, 40.

Serviço
O quê: Campus Party Bahia
Quando: De quinta (17) e a domingo (20)
Onde: Arena Fonte Nova (Nazaré)
Ingresso: R$ 120 (entrada comum), R$ 200 (camping individual) e R$ 210 (camping duplo). Vendas: http://brasil.campus-party.org/ingressos.

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