Repente, viola, teatro e manifesto: o 1º de Maio de 1979 em Salvador

clarissa pacheco
02.05.2021, 07:00:00

Repente, viola, teatro e manifesto: o 1º de Maio de 1979 em Salvador

Sindicatos e trabalhadores marcaram a data, no final da década de 1970, lembrando as dificuldades enfrentadas, mas como o início de uma mudança sobre direito de greve e de negociação

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Ato com trabalhadores das periferias aconteceu em escola de Fazenda Grande, em maio de 1979
(Foto: Sonia/Arquivo CORREIO)

O velho Davião Violeiro subiu num palco montado na Escola Bento Gonçalves, no bairro de Fazenda Grande, em Salvador, e puxou um repente:

“No meio de tantas contas, o pobre vive sofrendo. O rico está olhando e faz de conta que não está vendo, porque é só no caderno do pobre que a caneta está correndo”.

Triste, verdadeiro e atual. O ano era 1979, a ditadura civil-militar no Brasil completava 15 anos. Na Fazenda Grande, moradores de bairros da periferia de Salvador se reuniram para o dia de comemorações diferente.

Começou com música e protesto contra a carestia. Seguiu com uma peça teatral e logo chegou a vez dos violeiros. Quando Davião entoou aos primeiros versos, os trabalhadores caíram na risada.

“As gargalhadas soavam alto porque, para cada trabalhador, aquilo era uma espécie de represália por tudo que sofre no dia-a-dia. E esse sofrimento foi relatado detalhadamente pelos representantes dos bairros periféricos”, dizia um trecho da reportagem do CORREIO sobre o 1º de Maio Unificado de 1979.

A matéria foi publicada no dia 2 de maio daquele ano, a primeira vez que o jornal, há poucos meses em circulação, tinha a oportunidade de falar do assunto. Os atos pelo Dia do Trabalhador aconteceram em diversos pontos da cidade. Na Fazenda Grande, num encontro de representantes e moradores de bairros periféricos, eles mesmos contaram as dores de ser trabalhador no Brasil, especialmente naquele momento político.

Numa peça teatral em que os atores eram os próprios moradores - tal qual o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal -, uma denúncia que poderia ter sido feita recentemente: o desmatamento e a venda da Floresta Amazônica para empresas estrangeiras.

“Os atores eram os próprios moradores dos bairros da periferia e nada mais faziam o que reproduzir a vida de cada uma das pessoas presentes. Cada ato foi acompanhado com muita atenção - e participação - da plateia. Às vezes com aplausos (quando os atores falavam em greve) ou vaias (quando aparecia o ‘personagem patrão’). Um dos atores particularmente comoveu a todos: era a encenação da morte de um operário que caiu da construção. O personagem morre por falta de assistência médica, fenômeno comum na realidade do trabalhador baianos”, dizia outro trecho do jornal.

Daquele encontro, saiu um manifesto, publicado na íntegra pelo CORREIO, contra a carestia. O objetivo era colher assinaturas e entregar o documento ao general João Baptista Figueiredo, o último dos presidentes militares do Brasil.

Longe dali, no Colégio Dois de Julho, no bairro do Garcia, cerca de 600 trabalhadores ouviam líderes sindicais falar de mais dificuldades vividas naquela época - e não por acaso, ainda hoje: baixos salários, perseguição política, alimentos, transporte e saúde muito mais caros do que as pessoas poderiam pagar.

Sindicatos reuniram mais de 600 trabalhadores no Colégio Dois de Julho, no Garcia
(Foto: Sonia/Arquivo CORREIO)

Mas, curiosamente, encontravam algum motivo para celebrar a data pela primeira vez, desde o início do regime militar, em 1964. A pesquisadora Ângela de Castro Gomes, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), explica em artigo as razões desse sentimento no final da década de 1970.

“O Brasil vivia, mais uma vez, sob um regime autoritário, mas o movimento sindical começava a recuperar sua capacidade de ação e de reivindicação. Grandes comícios então se realizaram, sobretudo em São Paulo, onde se protestava contra o ‘arrocho salarial’ imposto aos trabalhadores, e se denunciava o regime militar. Essa era grande bandeira e projeto do movimento sindical: combater a ditadura militar e lutar por melhores salários e liberdade de negociação”, diz a pesquisadora.

Isto ficou claro nos discursos das jornalistas Linalva Maria e Zoraide Vilas Boas, diretora do Sindicato dos Jornalistas da Bahia que, após dois anos de intervenção, conseguia participar do ato.

“Neste Primeiro de Maio de 1979, alguma coisa nova está acontecendo. O quadro está mudando. Os trabalhadores de todo país, inclusive na Bahia, derrubaram na prática a proibição de greve. Estão fazendo greve, apesar da proibição, e conquistando o direito da negociação direta”, disseram.

Naquela mesma edição, o jornal mostrou os protestos no Brasil, a fala de Figueiredo aos trabalhadores e os atos que marcaram a data pelo mundo: Paquistão, Israel, Espanha, Irã, Egito, Turquia, União Soviética, Colômbia, Japão, França, Peru, Venezuela, Argentina, Chile, Nicarágua e Equador. 

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