Resposta para Lennon e Simone (ou "então é natal, o que você fez?")

flavia azevedo
04.12.2021, 11:00:00

Resposta para Lennon e Simone (ou "então é natal, o que você fez?")

Mais do que em qualquer outro tempo, quem sabe de mim sou eu. E você sabe de você

Antes que eles comecem a me perguntar, vou dizer logo o que eu fiz. Até sei que a proposta é de uma reflexão íntima e particular, mas vou dividir que você também vai escutar "então é natal, o que você fez" e é melhor se comparar aqui comigo do que com o mundo maravilhoso das redes sociais. Vai ser melhor pra sua autoestima, prometo, e já começo dizendo que não lembro de ter feito nada mais importante do que sobreviver. Eu e meu filho. Você também? Toca aqui! O resto foi adereço ou instrumento. Fiz mesmo foi não morrer, não adoecer nem surtar e, sinceramente, tô bem orgulhosa de mim.

(A parte de não surtar será grande desafio manter até dia 31 porque acabaram de montar um circo horrível - não é preconceito, eu conheço esse de outros carnavais - do lado daqui de casa e o carro de som anunciando o "espetáculo" já tá rodando na cidade. Daqui a pouco, as piadas impróprias começam e ecoar por toda a casa, tarde da noite, e o esgoto a rolar na calçada. Ou seja, o que 2021 quer da gente, até o fim, é coragem.)

Divago e não sei se vou conseguir escrever direito que o carro de som tava indo, porém já voltou. Parte da minha vitória é ter permanecido, também neste ano, sem me render ao uso de psicotrópicos, mas olhe... tem horas que repenso. Uma pessoa bem medicada não deve sentir a vontade que eu tô sentindo de ir ali xingar do malabarista ao palhaço. Isso, com aquele roupão preto que tô gostando de usar por esses dias. Uma atitude dessa não passa pela cabeça de alguém "normal". De todo modo, apenas imitar o comportamento de referência identificado como "normalidade" tem funcionado até aqui. Deus ajude continue assim.

Pronto, foi isso. Imitei normalidade o ano todinho. Muitas vezes, me perguntei "como uma pessoa funcional agiria nessa situação?" e o que me vale é toda vida ter gostado de ler teoria psicanalítica e afins. Aí, é mirar na funcionalidade e seguir. Mesmo que, muita vezes, em nada meus gestos se pareçam com o que eu, de fato, queria fazer. Exemplo? Tive bastante vontade de abrir o portão e deixar a gatinha recém-adotada se picar para onde ela quisesse, depois que ela fez xixi no sofá. Uma mãe bacana faz isso? De jeito nenhum. Uma mãe funcional e bacana explica ao filho que aquele foi um pequeno acidente, limpa o sofá e faz um carinho na gatinha que ela sim é um ser irracional. Foi o que eu fiz. Ponto pra mim.

Às vezes, não dá certo. Na maioria delas, sim.  Daqui a pouco vou sair pra fazer uma caminhada, que atividade física é um troço necessário, ainda que eu tenha ficado mil vezes mais preguiçosa nesses dois últimos anos e bem menos preocupada com forma física. Mas uma pessoa saudável se exercita e come alface. Bem por isso, plantei aqui no jardim e foi assim - mais mirando na referência de equilíbrio do que estando naturalmente equilibrada - que levei 2021 inteirinho. Pelo menos até aqui.

Exemplos todos os dias. Foi imitando a mulher que eu sou nas CNTP que saí de uma relação insuficiente, ainda que a carência da mulher que estou sendo (longe dos meus amigos há quase dois anos, sem farras adultas, sem alguns abraços essenciais) tenha dito "insista que não tá tão ruim assim". Foi imitando a profissional que eu sou nas CNTP que cumpri as tarefas do trabalho, mesmo que a profissional que eu estou sendo tenha, muitas vezes, vontade de dizer "me paguem aí sem eu fazer nada, namoral". Não perder territórios conquistados, internos e externos. Não arregar. Não esquecer de quem eu sou. Os vários sentidos da palavra sobreviver. O desafio no bendito 2021 foi basicamente esse aí.

(Além de agradecer pela força para avançar que já tive e voltarei a ter.)

Sabe quando você fica em pé, com a água do mar batendo acima do umbigo, a correnteza forte puxando e a areia instável sob você? Tem que fazer força pra se manter em equilíbrio. Quem olha de longe não adivinha o esforço para o tão pouco que parece ser apenas ficar no mesmo lugar. Só você sente a força da água, a instabilidade do chão, o quanto de energia está empenhando para se manter de pé. Outra coisa importante é que a aprovação externa foi ficando cada vez mais dispensável. Botão do "foda-se" apertado com vontade, muitos "seguidores" impertinentes bloqueados, várias conversas do Whatsapp arquivadas e a opção "não responder" bem naturalizada. Mais do que em qualquer outro tempo, quem sabe de mim sou eu. E você sabe de você.

Em 2021, não fiz nada incrível, mas não apoiei a proposta que Leo me fez de abandonar os estudos. Tive vontade, diante do entediante distanciamento entre escola e vida real, porém cumpriremos até o fim. Também dei um jeito de voltar a conseguir dormir. Mantive a casa arrumada e os amores bem pertinho, apesar da distância física, em muitos casos. Contornei, sozinha, o pânico da pandemia que havia me causado sudorese e taquicardia quando tive que sair de casa pra tomar a primeira dose da vacina. Assumi meus fios brancos com alegria. Não bati boca nenhuma vez (que eu lembre) com o pai do meu filho. Não cometi nenhuma merda irreversível.

Tô muito, muito de parabéns e até passei os dois últimos meses sem beber, interrompendo a pausa apenas num momento de muita alegria. O que me leva a falar de outra vitória: se em 2020 o caos mundial invadiu nossa casa, nesse 2021 lembrei que gargalhar é resistência e que, muitas vezes, dá pra sentir felicidade, apesar de. Outra coisa é que autoestima não é me achar foda, linda e gostosa (não que eu não ache), mas ter paciência comigo quando não tô sendo nada disso. Aqui, Leo ainda precisa terminar as provas e eu a Grande Faxina. Aí, daremos esse ano por visto. Agora, "esperançar" é o verbo nesta casa cheia de amor, de pessoas inteiras e bouganvilles sempre floridos. Foi isso que eu fiz, Lennon e Simone. Fiquei viva. Muito viva. Eu e meu filho.

(CNTP - Condições Normais de Temperatura e Pressão.)
(É tanta fé em 2022 que até voltei pro Tinder.)
(Porque nas CNTP eu tenho bem paciência e me divirto sobremaneira com esse tipo de pescaria.)

*Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo

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