Roberto Barreto e Russo Passapusso, do BaianaSystem, dizem o que pensam do Carnaval

entretenimento
22.02.2020, 06:00:00
Matheus foi um dos cadeirantes que conseguiu curtir a pipoca do grupo BaianaSystem (Foto: Cartaxo/Divulgação)

Roberto Barreto e Russo Passapusso, do BaianaSystem, dizem o que pensam do Carnaval

Os dois rebateram críticas após apresentação do Furdunço

O BaianaSystem recebeu o CORREIO em seu estúdio para um papo, na terça-feira pós-Furdunço, mas não nos autorizou a fazer fotos ou vídeos. A justificativa dada pelo cantor Russo Passapusso e o guitarrista Roberto Barreto era simples: “o BaianaSystem é o público”. Ou seja, nem adianta personificar em duas pessoas esse fenômeno musical baiano que ganhou o mundo.

O Baiana é, portanto, o cadeirante que rema contra a maré e enfrenta o mar de gente na saída do Navio Pirata, durante o Furdunço. É também a criança que adentra a multidão sem medo, o mascarado que sempre acompanha o trio, o morador de rua, o cara do isopor e a mulher que lidera a roda - uma marca dos shows que assusta até a polícia, por ser pacífica mesmo aparentando confusão.

Em um papo descontraído, Russo e Beto conversaram sobre as críticas ao Carnaval do Baiana, as tentativas de serem encaixados em um padrão que não representa o grupo e a participação no trio do Afropunk neste sábado (22) - prévia de um dos principais festivais de música negra do mundo, que acontece em novembro, no Centro de Convenções.

A dupla também falou se acha que o Furdunço está de fato pequeno para o Baiana, contou como conduz o mar de gente na folia, citou a necessidade do artista se posicionar politicamente, respondeu à crítica de “negar o pagode” e falou sobre a violência na pipoca. “O comportamento que envolve todo mundo – público, quem está assistindo, a polícia – começou a ser colocado em xeque”, afirma Beto. Confira.

(Foto: Cartaxo/Divulgação)

O Furdunço está pequeno para o BaianaSystem?
Roberto Barreto -
 O Furdunço não é efetivamente o Carnaval com todas as coisas que acontecem nele. É um pré- Carnaval com trios menores, então concentra tudo naquele dia. Você não tem outras coisas no Farol, no Centro, nos bairros, em nada. Aí acho que se entendeu o que é esse tamanho do Furdunço. Ano passado já teve essa questão e esse ano a gente percebeu uma quantidade muito maior. Desde o início, na concentração, estava cheio. Aí entram outras questões que as pessoas estavam falando: “Poxa, o som do trio não está chegando”. Mas isso é física, né?: pra você aumentar a potência do som, precisa de mais espaço físico para colocar as caixas e aumentar o tamanho do trio.

Russo Passapusso - Mas o interesse da gente não é criar esse raio. A gente tem interesse em ficar perto das pessoas, pra ter uma resposta de som mais verdadeira. O mais bonito do Furdunço é que é só a rua. Não tem as televisões falando ‘o que é, o que foi, o que tem’. Não tem os camarotes, não tem as marcas, cervejarias, não tem mil jornalistas pedindo pra subir no trio. Então, o Furdunço é um caso de relação com o povo, diretamente, do que a gente gosta de fazer que é se entregar para esse tipo de laboratório popular, do qual nossa música faz parte. É o grande momento de análise e esse ano, ao meu ver, foi três vezes maior.

Como equacionar isso?

Russo - Isso é natural do Carnaval. Essa é uma pergunta que tem relação com a vida, é filosófica, é comportamental. Isso está relacionado com a expressão popular. Porque é o seguinte: qualquer atração com trio pequeno pode ter uma multidão atrás. Que saia o Baiana e futuramente seja outra atração que todo mundo vai. Então, essas discussões sobre “não chega som, estava muito cheio, o trio é muito pequeno”... Olha que interessante: estava muito cheio e o trio é muito pequeno. Essa inversão gera equilíbrio e não desequilíbrio, porque se o trio fosse muito grande e estivesse muito cheio, as pessoas estariam muito empurradas para fora.

As pessoas rapidamente esqueceram a alegria de não ter cordas. Não tem mais uma força de proteção para quem pagou. Quem viveu com corda está se reeducando a viver sem corda e esse processo não é da noite para o dia.

Se sentem pressionados a seguir um padrão?

Beto - O Baiana é chamado para um programa de TV e não vai, “como assim?”. Gente, pra o Baiana é difícil fazer um programa de TV, porque não dá pra chegar lá com a guitarra baiana e fazer voz, porque aquilo não vai ser o BaianaSystem. De alguma forma, já relaxei com isso, porque vão falar (risos). Se você não para de tocar quando tem briga, o cara diz: “Poxa, não parou? Não estava nem aí”. Se você para, como parou muitas vezes no Furdunço pra conduzir, aí falam: “Poxa, mas o Baiana não tocou nada, só fez parar”. Cada um fala do que lhe dói.

(Foto: Cartaxo/Divulgação)

No encontro de hoje (18), vocês não quiseram nem foto, nem vídeo. Por quê?

Russo - A gente acha que as ideias são muito da imagem. Então, se bota uma foto minha e de Beto, com a guitarra, isso confunde o assunto, o tema, o meio e a mensagem.

Beto - E acho que começa a personificar. Essa imagem das pessoas chegando no Farol da Barra é mais forte do que eu e Russo sentados para falar sobre o Carnaval. O que a gente está falando aqui, sobre experiência, é muito mais amplo e a imagem tem que retratar isso.

Vocês estão entre os que endossaram o pedido por uma atuação diferente da Polícia Militar. Por quê?

Beto - A gente esteve há dois anos com o Coronel Anselmo [Brandão, comandante-geral da PM], quando começa a se ter um público cada vez maior no Furdunço e a não ter alguns controles que se tinha quando era uma coisa mais próxima. E o comportamento que envolve todo mundo – público, quem está assistindo, a polícia – começou a ser colocado em xeque. As confusões que a gente teve há dois anos, tinham sido provocadas por essa diferença entre a expressão que estava acontecendo ali e o entendimento da polícia disso.

Aconteceram realmente muitas situações violentas, mas nenhuma era gerada pelo público. O legal é que ele disse: “Realmente, quando a gente vê uma roda se abrindo, as tropas – por uma coisa de muitos anos – são levadas a coibir aquilo”.

Então conversamos e houve um comprometimento deles de acompanhar, entender que aquele era um público que sabia o que estava acontecendo, que não necessariamente era uma briga, que existia um cuidado de Russo que está conduzindo ali em cima. Imediatamente, a gente sentiu o resultado disso.

Que público é esse?

Russo - Dentro de um processo como o Carnaval, a gente não pode chamar o público de “público do Baiana”, porque ali tem gente que mora na rua, gente que acorda cedo pra marcar o nome e botar seu isopor. Isso é público também. Lidar com isso, pra gente, é basicamente uma entrega, porque a gente está dentro de algo que está sendo movido através de música.

Existem as pessoas que vão de máscara e seguem o trio e vão se fundindo com os donos da rua. As pessoas que vendem sua cerveja, que moram e estão na rua.

A gente é abençoado por estar ali, vendo os seres humanos reagirem intuitivamente e poder olhar, compreender, falar tranquilamente que comportamentos do passado não precisam se repetir. Ser humano é a única forma de lidar com as pessoas.

Beto - O que me chamou a atenção nesse Furdunço foi quando Russo falou direto com quem estava naquela situação de briga: “Gente, esse raciocínio seu de briga ficou pra trás”. Aquilo, falado na avenida, consegue dissipar. Quando são colocadas em situação de Carnaval, um experimento social no seu grau máximo, as pessoas estranham. Aí começam a dizer “esse público que está aqui não é o público do Baiana”.

Russo - Uma coisa interessante sobre essa questão do público é: pra quem a gente fez a música? Se a gente está fazendo música de transformação, para quem que a gente tem que cantar no Carnaval, uma festa pública? Para o público do Baiana, ou para o povo? 

Qual foi a cena mais marcante que já viram de cima do trio?

Russo -  Não foi só um cadeirante, tinham mais três. As pessoas estavam abrindo espaço para essas pessoas passarem e elas seguiram no meio daquela multidão toda, sorrindo. No começo do percurso, uma criança estava chorando, se perdeu dos pais. “Como é o nome dele?”. Mateus. Aí todo mundo começou a cantar “Mateus está aqui, ô mamãe, ô papai”. Pessoas que não estavam mais ouvindo o som, por causa do trio pequeno, estavam ouvindo “Mateus está aqui” e ele encontrou a mãe e o pai. Passa o trio e todos os que lutaram para chegar ali, incluindo o cadeirante. Aí a gente conversando de cima do trio, perguntou “como é seu nome?”. Matheus! Esse tipo de energia é o porquê da gente estar ali. Isso fecha um sentido grande pra quem faz arte e acredita no poder das coisas invisíveis, impossíveis.

Impossível pra quem tem perna ir naquele dia, porque teve confusão? Mas e aí, pra uma pessoa que estava de cadeira de rodas sendo ajudada por tantas?

Foi muito bonito. Além disso, a liderança e a luta das mulheres em relação a tudo o que é opressor é extremamente marcante. Quando a mulher entra na roda, impondo respeito, que samba olhando para os caras, se colocando, enfrentando aquilo tudo... É muito forte.

Beto - O cadeirante seria uma pessoa que não iria para o Carnaval, dentro de uma lógica de como as coisas são feitas. E a criança é a mesma coisa. A gente tem recebido muitas mensagens de gente dizendo: “Ó, meu filho é especial, mas vai no dia tal, só porque quer ver vocês”. Acho que essa mobilização tem relação com essa amálgama de convivência.

Por que a máscara do BaianaSystem incomoda, mesmo fazendo tanto sucesso?

Beto - Ao mesmo tempo que dá identidade e pertencimento, te dá a não identidade.

Russo - A arte visual da gente é como a gente se vê, é um símbolo. A importância do símbolo é muito forte e Cartaxo traz essa presença. A gente começa a juntar sentimento, sentido e espiritualidade tudo dentro dessa máscara. Ela é uma “não pessoa”: quando você coloca, você perde características e adquire outras. No Carnaval, é uma relação de não confiança em quem está atrás, de violência, de que alguém de máscara pode te roubar, é a não confiança no outro. Quando você cobre o rosto, gera uma questão de “o que tem para esconder”, então é natural e compreensível. Mas acho que deve ser analisado dentro de um processo cultural.

Muita gente fala do Carnaval “antes do BaianaSystem” e “depois do BaianaSystem”. O que, de fato, o grupo traz de inovação e o que é releitura?

Beto - Acho que essa é uma pergunta muito parecida, talvez, com a coisa da música, com o que a gente está fazendo. O que é releitura e o que é inovação é muito difícil, porque está muito ligado. Não tem nada de novo no que a gente faz, nenhuma novidade, vamos dizer assim. A gente está falando de samba- reggae, de ijexá, de ritmos que são ancestrais. A máscara e tudo o que a gente está falando tem referência em coisas antigas. Ao mesmo tempo, consegue centrar em uma nova coisa. Acho que tem a ver com essa postura em relação ao Carnaval. Nossa saída no Carnaval vira o Navio Pirata, que é uma coisa conceituada, tem a ver com as máscaras, com o que Filipe [Cartaxo] pensa em termos de comunicação. Isso faz com que seja mais que um lugar na saída do Furdunço, ou no desfile dos blocos.

Esse lugar continua sendo polêmico: “o Baiana sai ou não sai”, “o Baiana não cabe mais no Furdunço”. Essa discussão do lugar sempre existiu e vai continuar existindo.

O apelo do repórter do CORREIO teve influência na negociação da folia?

Beto - As combinações do Carnaval nunca aconteceram com antecedência. Quando se trata de trios independentes, não existe essa antecedência. No ano passado a gente só tocou uma vez, então existia uma expectativa em relação ao que ia acontecer esse ano. Sempre você está falando, seja com governo ou prefeitura, mas até que isso se defina, depende de um bocado de coisa.

A gente não pode dizer: “Vou pegar meu trio e vou para a Avenida”. Não funciona assim.

E esse ano o Carnaval foi muito longe, no final do mês, então as pessoas que resolvem começaram efetivamente a falar de Carnaval no final de janeiro. As coisas já vinham sendo encaminhadas, só que a gente não podia anunciar.

(Foto: Cartaxo/Divulgação)

Neste sábado (22), vocês vão se apresentar no Afropunk - primeira ação, em Salvador, do evento que é um dos principais de cultura negra do mundo. O que representa fazer parte disso?

Russo - Esse festival alerta na diversidade, na importância da cultura dos pretos. A gente se vê por fora, por um [evento] internacional. Essa relação é onde mais amarra e traz autoestima, empoderamento para cada movimento local. Isso é o grande barato dessa junção, além de dar visibilidade internacional inegável para nosso Carnaval, para nosso novo comportamento.

O artista deve se posicionar politicamente?

Russo - Ele é fruto da política, é ser vivo. Se ele não se posicionar, já está se posicionando. A omissão, o silêncio grita no ouvido de quem vive. Tem uma diferença grande entre a necessidade de se posicionar e o posicionamento de vida, fruto do processo político.

Eu nasci preto e vivo com isso. O preconceito está em todas as esquinas, e eu falo sobre isso da forma que eu quiser falar e no momento que eu quiser falar. Então, vamos respeitar.

Por isso preciso da poesia. É a poesia que salva, que vai fazer uma pessoa entender ou respeitar algo que não concorda, porque ela vem banhada de sentimentos.

Recentemente, tive a oportunidade de entrevistar Hugo Sanbone, da Sanbone Pagode Orquestra, que elogiou vocês e disse que a única crítica que tem em relação ao grupo é que “não defende o pagode” com o qual fez sucesso. O que acham disso?

Russo - Lucro foi a primeira música do BaianaSystem que deu impulso, e as pessoas não se assumem sul-americanas. Elas têm que entender que a América do Sul tem um poder muito grande e que é melhor assumir uma diversidade rítmica e cultural, do que assumir uma pedra só dentro do processo de pedras preciosas. Dentro das nossas misturas, a gente tem mais um ritmo chamado pagode. Dentro disso, o Baiana não assume um ritmo só porque é filho de diversidade. Então, assumir um ritmo é como escolher um filho preferido dentro da família.

Siga o BaianaSystem no Carnaval

- Sábado (22)
* Barra/Ondina - 22h30 - Saída Afropunk (Afrocidade com participação de Mano Brown/ Cronista do Morro/Muzenza / Baianasystem)
- Domingo (23)
* Barra/Ondina - 22h15 - Baianasystem/ BNegão/ Vandal/ Iracema Killiane (Ilê aiyê)

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