Roberto Mendes: "a música do Recôncavo é um comportamento traduzido em canção"

entretenimento
28.04.2022, 06:00:00
Roberto Mendes abraça o violão, amigo de longa data, durante sessão de fotos para o CORREIO em frente à igreja de São Lázaro (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Roberto Mendes: "a música do Recôncavo é um comportamento traduzido em canção"

Cantor e compositor apresenta pela primeira vez em Salvador desde o início da pandemia no próximo sábado (30), às 20h

Quem vive do público precisa de toque, de contato, da plateia. Imagina como foi triste a vida de quem vive de calor, troca e conversa e precisou ficar recluso dentro de casa sem fazer o que mais ama? É por isso que Roberto Mendes está radiante. A voz na conversa por telefone entregou que o senhor de 69 anos - completa 70 no dia do músico, em 22 de novembro - está com ansiedade de criança para voltar a tocar em Salvador, no próximo sábado (30), na Casa 478, na Pituba, a partir das 20h. Os ingressos custam R$30.

Não será o primeiro show desde que as flexibilizações mais intensas em relação à pandemia começaram a ser liberadas. A volta foi numa temporada de 3 semanas em São Paulo, onde fez três apresentações. O show Quem Vem lá Sou Eu é batizado com um verso conhecido no samba chula e também, afirma Roberto, como uma representação da metafísica do Recôncavo baiano: a capacidade de olhar para si desde fora, de se reconhecer e reinventar.


O músico faz, portanto, o que ele chama de prestação de contas: um modo de mostrar ao mundo o que ele aprendeu com as matrizes culturais populares. “Eu estou me tornando um cara mais sábio. Já entendo as coisas que não entendia, procurava entender. Eu me procurei tanto nos outros que achava que gostava mais dos outros. Mas o que eu gostava era de mim no outro. Estou perto de me encontrar, sabe? Por isso que o nome do show é ‘quem vem lá sou eu’. Sempre caminhei pra mim como toda pessoa, mas sem perceber isso”, reflete o santo-amarense. 

Os dois anos de pandemia foram duros para o mundo todo e Roberto Mendes não foi exceção. Além da distância dos palcos, duas perdas em especial lhe foram muito caras: o seu grande amigo e 'metade de si' como ele mesmo descreve, Jorge Portugal, e a sua amiga de longas datas Nicinha do Samba.

"[Jorge] Portugal levou metade de mim. Hoje eu existo como metade porque a minha outra metade se foi. Éramos um. Somos dois e um. A vida inteira fomos muito próximos um do outro. Jorge me inventou. Com ele conheci a palavra", iniciou emocionado. "Jorge estava muito debilitado e triste com a pandemia. Não poder sair na rua, não ter plateia, não poder falar. Ele sentiu muito. A perda é cruel, sempre cruel, mas na pandemia é pior um pouco. Bem pior", completa o desabafo.

Nicinha era uma outra grande amiga, que conheceu antes de gravar seu primeiro LP, em 1972. “Ela estava do meu lado na minha primeira gravação. Você fica muito despatriado quando essa coisa acontece. Não só eles, mas muita gente se foi nessa pandemia, uma das coisas mais complicadas que já vivi. Já convivi com a ausência de várias pessoas que perdi, mas as perdas agora na pandemia são muito diferentes de todas as que tive na vida”, diz. 

Para superar toda essa dor, ele contou com sua velha amiga: a música do Recôncavo, que Roberto nem considera como música. “É um comportamento traduzido em canção. Vem do labor, se preserva toda a oralidade. Em Santo Amaro eu não sou artista, sou artista na terra dos outros. Na minha terra, eu sou cidadão. Essa é a grande diferença de mim lá para outros lugares. Lá o afago é maior, o afeto é muito maior. Isso me ajudou a suplantar essa dor”, conta.

Roberto Mendes diz que a música do Recôncavo não é música e sim comportamento traduzido (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Samba da minha terra

Roberto Mendes iniciou sua carreira em 1972, exímio violonista, autor e compositor. Nunca se mudou de  Santo Amaro da Purificação  embora sua música tenha viajado o mundo em sua própria voz e na interpretação de artistas como Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Sérgio Mendes, Gilberto Gil, Mariene de Castro, Fabiana Cozza, Virgínia Rodrigues e Daniela Mercury, entre outros. Ao longo de mais de quarenta anos de carreira, já lançou onze álbuns, dois livros, um DVD e um EP.

A ode à sua terra encontra respaldo em seu trabalho artístico: o músico é um profundo conhecedor e estudioso do samba chula, a vertente do samba característica do Recôncavo baiano e hoje conhecida como Obra Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Mais do que estudioso do tema –sobre o qual já lançou os livros Chula: Comportamento Traduzido em Canção e Sotaque em Pauta -, Roberto é o mais aclamado pesquisador do assunto e conheceu dezenas de tocadores de viola machete –a viola diminuta e aguda do samba chula – e com eles aprendeu a técnica tradicional do instrumento, na qual indicador e polegar se alternam para ferir as cordas. 

Para o show, ele promete fazer um verdadeiro inventário de sua carreira. Vai incluir  coisas novas do EP Catetê - lançado durante a pandemia - e músicas do álbum do Na Base do Cabula (2019) e outras que gravou, representativas na sua carreira. 

Sobre Catetê, ele explica que é uma comida feita com a flor do azeite de dendê, “que eu  comia na casa do violeiro Seu Antônio, com quem aprendi a tocar do jeito que eu toco em Acupe”. Foi esta técnica que Roberto Mendes levou para o violão popular, transformando-o no que ele mesmo chama de instrumento percussivo de cordas feridas, alusão ao protagonismo do ritmo nesta técnica.


Roberto Mendes diz que só é artista longe de casa. Em sua terra, é cidadão e só. (Foto: Marina Silva/CORREIO)


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