Roberto Mendes lança livro e DVD sobre a chula do Recôncavo

entretenimento
23.02.2011, 09:48:00
Atualizado: 23.02.2011, 09:55:46

Roberto Mendes lança livro e DVD sobre a chula do Recôncavo

O lançamento nacional de Sotaque em Pauta – Chula: O Canto do Recôncavo Baiano, acontece no Rio de Janeiro

Salvatore Carrozzo | Redação CORREIO
vida@correio24horas.com.br

A chula, ritmo tradicional encontrado em pequenas comunidades rurais do Recôncavo Baiano, ganha, amanhã, um livro de peso. Não tanto pelo tamanho ou número de páginas, mas pelo ineditismo do projeto e pela possibilidade de manter viva uma tradição secular.

O lançamento nacional de Sotaque em Pauta – Chula: O Canto do Recôncavo Baiano, publicação assinada pelos compositores baianos Roberto Mendes e Nizaldo Costa, acontece no Rio de Janeiro. Em março, chega a São Paulo (dia 26) e Salvador (31). Na capital baiana, a data será marcada com um show do artista no B-23 Lounge Music Bar, no Itaigara.

A publicação é fruto de três décadas de pesquisas de Roberto Mendes, 58 anos, músico de Santo Amaro que já lançou nove CDs e teve diversas músicas gravadas na voz da conterrânea Maria Bethânia.

O ponto alto do livro de Mendes é a tentativa de transmitir a arte da chula para as novas gerações, inclusive para pesquisadores da universidade e instrumentistas. Os textos são em português e inglês e a tiragem é de dois mil exemplares. Não haverá comercialização – os livros serão distribuídos entre pesquisadores e escolas. O projeto conta com patrocínio do Ministério da Cultura.


Roda de chula em Santo Amaro mantém viva a tradição que veio de Portugal

Para aprender
Além das partituras e letras, a publicação traz ainda um DVD. Nele, é possível ver as formas de tocar a viola e as técnicas usadas pelos chuleiros, para que se aprenda, passo a passo, alguns dos segredos dos tocadores.

O antropólogo e escritor Ordep Serra é um entusiasta da obra de Mendes. Com artigos publicados sobre a cultura popular no Recôncavo, Ordep critica a visão de alguns acadêmicos, para os quais se “a carruagem da história” deixou alguma tradição para trás, é inútil ou sem sentido tentar resgatá-la.

“Isso é uma bobagem. Vamos destruir as telas de Rembrandt porque depois já houve Picasso? Se for assim, vamos ficar só no efêmero”, acredita o antropólogo.
 
Influências
Dentre os depoimentos do DVD está o de José Carlos Capinan, poeta, compositor, ativista cultural e parceiro de longa data de Mendes. Ele fala de sua crença no caráter universal da chula. Em dezembro do ano passado, Capinan fez uma viagem à ilha de Goreé, no litoral senegalês. “Vi um grupo de tocadores populares tocando um ritmo que se aproximava muito da chula”, diz.

Para Capinan, a cultura original “da viola e do tambor” ainda não foi absorvida pela indústria cultural, “apesar de permear toda a produção artística brasileira”, opina . Ele divide a autoria com Roberto em composições como Poesia, Samba e Baião, Tira Essa Mulher da Roda e Bom Começo.

Por falar em começo, é bom situar Roberto Mendes no mundo. Sua história musical  começou ainda em Santo Amaro. Lá, teve os primeiros contatos com sambas de roda e chulas.

Mas achava tudo um pouco estranho, não entendia bem a complexidade do ritmo. “Era como uma contradição de tudo aquilo que eu estudava, daquele padrão harmônico da Europa”, conta o artista.

O estranhamento parece só ter aumentado a curiosidade. No início da carreira, fazia parte do grupo Sangue Raça, que incluía ainda outros nomes, como o do professor e músico Jorge Portugal, outro parceiro de composições.

Era só o começo. “Todo mundo atravessou a ponte e foi buscar algo novo. Eu fiz o contrário, fui para dentro de mim”, conta Roberto. A viagem para o próprio interior levou justamente para as chulas, que estavam logo ali, no seu quintal. E aí, todo o resto passou a fazer sentido.

O jovem Roberto passou a perceber o fascínio daquele canto incomum, no qual a palavra tem mais importância do que a percussão, do que o tambor. A formação, em parelhas, o seduziu. Na chula, dois pares de cantores comandam, de forma alternada. Não há competição. Não há desafiantes ou desafiados, como em outras manifestações culturais nordestinas. “Tudo é feito para agregar, é lindo”, relata.

O uso da palavra, que depois viraria seu ganha-pão, chamou logo a atenção do jovem. As redondilhas presentes nos versos, ora com cinco, ora com sete sílabas, são herança portuguesa.

Ritual
Outros pontos destacados por Roberto, além da oralidade, é o caráter ritualístico que permeia uma roda de chula. Nela, homens e mulheres têm papéis definidos. Elas só entram na roda quando o comandante do grupo dá a permissão. Depois de autorizadas, as mulheres fazem uma saudação à ala masculina para, aí sim, começar a dançar por horas e horas.

Todo esse universo particular de Santo Amaro e região foi traduzido por Roberto em letras e acordes. O compositor soube fazer a apropriação de tais elementos estéticos e poéticos e rechear inúmeras canções. E a maior divulgadora de sua obra foi praticamente uma vizinha de infância: a cantora, também santo-amarense, Maria Bethânia.

Se Bethânia é tida como grande intérprete e dama da música popular brasileira, parte do mérito também vem daqueles que escrevem para ela. Roberto Mendes figura entre os compositores que mais assinam letras para a cantora, ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Exemplos de músicas dele gravadas por Bethânia são Esse Sonho Vai Dar, Resto de Mim, Vila do Adeus e A Beira e o Mar. Esta última também foi gravada por Margareth Menezes em seu mais recente trabalho, Naturalmente Acústico, de 2010.

Bethânia é o grande estímulo criativo do músico. “Ela vê o que a gente não vê”, afirma Roberto, que diz se surpreender com a rapidez com a qual a cantora descobre “o canto da palavra”. “Tudo é desnecessário quando ela canta ou declama um poema. Qualquer outra coisa fica pequeno demais”, derrama-se.

Carnaval
O santo-amarense já participou algumas vezes do Carnaval baiano, até mesmo puxando bloco, com ritmos do Recôncavo, obviamente. Em 2008, quando o Carnaval coincidiu com o Dia de Iemanjá, ele puxou um cortejo pelas ruas do Rio Vermelho, com direito a muita chula, maculelê, ternos de reis e estandartes. “Eu ia andando e chorando de emoção”.

Para a folia deste ano, nada de concreto ainda. Ele conta que recebeu um convite para se apresentar com o grupo BaianaSystem, no Pelourinho. “Adoro a banda. Eles traduzem as coisas para a modernidade sem macular a tradição”, afirma.

Sobre o Carnaval, o músico tem olhar crítico. Diz ver alguma coisa interessante na percussão do pagode, mas com ressalvas. “É profano demais, ali é barra pesada. Talvez me falte compreensão”, observa. Roberto prefere coisas mais intimistas, como os shows que pretende voltar a fazer em março, no Icba, em Salvador. No fundo, ele parece querer  mesmo é voltar a cruzar a velha ponte.

A chula nasceu além-mar. A tradição é originária de regiões localizadas no norte de Portugal, onde ainda hoje existe. Veio com as caravelas dos colonizadores. No Recôncavo Baiano, segundo pesquisas de Mendes, fincou raiz no século XIX. Era cantada por escravos e tinha uma forte ligação com o transcendental. A chula marcava presença em manifestações religiosas.

Modificações
Mas, aqui na Bahia, a coisa mudou um pouco. Dos portugueses, foram herdadas algumas coisas. A viola veio da Ilha da Madeira, território de Portugal no Oceano Atlântico. A tradição do canto, que marca a chula, também tem um pé no lado de lá e lembra muito as modinhas daquele país. A pitada especial fica por conta dos africanos. Dos povos escravizados trazidos para trabalhar nos canaviais, o ritmo pegou a base percussiva, o batuque.

“A chula não é uma música. É um comportamento, uma tradição”, coloca Mendes. E é múltipla. Em um rápido giro, pode-se citar algumas variações. A chula de estiva tem uma pegada mais lenta. Era usada, sobretudo, pelos trabalhadores braçais, que entoavam os cantos para marcar o ritmo do esforço. A “de cabaça” tem forte elemento percussivo e repetição das notas como ponto principal. “Há também a chula corrida, que é quando a coisa vira festa, vira esculhambação”, diz Mendes, entre risadas.

Confira vídeos de músicas com Roberto Mendes:
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