Rodrigo Alvarez estuda mistérios da alma em novo livro

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20.09.2021, 09:51:00
Rodrigo Alvarez (Ana Cristina Nasciutti)

Rodrigo Alvarez estuda mistérios da alma em novo livro

Ex-correspondente internacional da Globo fala sobre aspectos religiosos e científicos da alma

Durante muitos anos, o público se acostumou a ver Rodrigo Alvarez nas telas da Globo, onde atuou como correspondente internacional por mais de duas décadas, até que, em 2019, decidiu não renovar o contrato com a emissora. "Acordei no dia seguinte com a pandemia. Não foi o melhor momento para começar uma vida nova", brinca o jornalista, que é também autor de 12 livros, que trataram de temas como a vida de Jesus Cristo e uma ficção sobre imortalidade, O Primeiro Imortal.

No mais recente, Alma: O Passado e o Futuro Daquilo que nos faz Humanos (Agir/R$ 40/224 págs.), Rodrigo revela como surgiu entre os humanos a ideia de alma, como ela se transformou ao longo dos séculos e como é vista pelas diferentes religiões. "Convido o leitor para me acompanhar, mas sem preconceitos, sem ideias formadas, porque se você já vem com ideias fechadas, você não vai ouvir as outras vozes, você não vai dar espaço dentro de você a novas fontes de conhecimento", revela Rodrigo.

No entanto, o autor não se restringe a religião para falar de alma. Buscou também conhecer o trabalho de pesquisadores que tratam a alma com fundamentação científica. "Tratei o assunto com rigor histórico e jornalístico. Mas ter esse rigor significa também compreender a filosofia, a religião e, especialmente, mais modernamente, compreender a neurociência, que são as três principais fontes de informação pra se falar de alma".

O que é alma?
Alma, de uma maneira simples, podemos dizer que é a nossa essência. Mas você pode concluir também que não existe uma alma. Porque a ideia de alma está associada à visão dos gregos. À visão de Platão, principalmente, de que a alma se desprendia do corpo. Então, em nosso imaginário, a alma está diretamente associada à ideia de algo que se separa do corpo. Mas no meu entendimento, alma, antes de tudo, representa a nossa essência.

E tudo aquilo que nos faz únicos e humanos poderia, em tese, ser chamado de alma, porque, na origem, alma é 'anima', aquilo que nos dá movimento ou aquilo que se movimenta dentro de nós. E são duas maneiras diferentes de ver. De qualquer forma, é aquilo que nos faz existir.

Normalmente, associamos alma a algo esotérico ou etéreo, que rende textos subjetivos ou filosóficos. Mas você como jornalista buscou outro caminho, mais objetivo?
Eu não tentei de maneira nenhuma mudar a concepção da palavra 'alma'. Tratei o assunto com rigor histórico e jornalístico. Mas ter esse rigor significa também compreender a filosofia, a religião e, especialmente, mais modernamente, compreender a neurociência, que são as três principais fontes de informação pra se falar de alma. Não há uma resposta única sobre alma. Pra entender a alma, você precisa transitar por diversas fontes de conhecimento: filosofia, religião, neurociência... E aí que, talvez, esteja a beleza desta discussão porque quando você restringe alma a religião ou a ciência, você deixa de ver alguns aspectos.

Você diz que Alma: O Passado e o Futuro Daquilo que Nos Faz Humanos é um livro-nave? Por que?
É uma viagem sem volta, porque a gente já está embarcado. Convido o leitor para me acompanhar, mas sem preconceitos, sem ideias formadas, porque se você já vem com ideias fechadas, você não vai ouvir as outras vozes, você não vai dar espaço dentro de você a novas fontes de conhecimento e a minha compreensão é muito clara: se você se restringir a uma única fonte de conhecimento, você não vai conhecer. Então, convido a leitor a fazer a seguinte viagem: vamos voltar a 60 ou 80 mil anos atrás, quando o ser humano começou a ser realmente como a gente é hoje - na realidade, fisicamente, a gente já era assim 300 mil anos atrás, mas culturalmente foi há 60 ou 80 mil anos, quando homo sapiens na Europa começou a criar a cultura como a gente conhece hoje.

Na apresentação do livro, você diz: "Não deixe que algo, especialmente o celular impaciente, atrapalhe sua alma enquanto ela reflete sobre sua própria existência". Por que esta recomendação?
É uma recomendação para o leitor não se distrair quando estiver lendo o livro, mas é também uma visão de que nós estamos entregando muito da nossa existência às máquinas e muito facilmente É uma visão de que a gente está sem reagir, se rendendo e dizendo: 'tudo bem, leve um pedaço de mim'. Essa nova facilidade de delegar funções está nos fazendo abrir mão daquilo que a gente é.

Aos poucos, estamos abrindo mão do aprendizado que o homo sapiens fez ao longo pelo menos desses 300 mil anos que a gente chegou ao que é hoje para transferir isso para um software que é controlado por uma empresa. E aí, sim, vem uma crítica: se eu entrego a minha alma a uma empresa, deixei de ser livre, deixei de pensar por mim.

Há elementos que você cita que parecem ficção científica, como transplante de cérebro e transportar a alma para robôs. Isso e outras coisas que você cita serão realmente possíveis no futuro?
Este livro não tem nada de ficção. Eu e você certamente ainda vamos ver o transplante de cabeça. Estamos perto disso. Pega o corpo de uma pessoa que acabou de morrer, teve morte cerebral, o corpo tá bom e pega uma pessoa com a paralisia e troca de corpo. O próximo passo é colocar só o cérebro num novo corpo. Aí, já é um estágio mais avançado porque, se você pode transferir para um corpo biológico, nada te impediria de transferir para um corpo artificial, digital, sintético. Aí, você entra na ideia de que a gente pode virar um androide. Isso é mais distante, mas já está em projeto. Não é fantasia, já está nos laboratórios. Mas alguns cientistas de altíssimo nível dizem que não vai acontecer.

Qual a relação entre alma e religião?
Se a gente vai para o cristianismo, que é a religião predominante no Brasil, praticamente tudo se fundamenta na ideia da salvação das almas, mas não da salvação do corpo. Então, nossa forma de pensar no Brasil, no século XXI, é muito parecida com a religião judaica de dois mil anos atrás e com tudo que o cristianismo pensou ao longo desse tempo. Agora, há visões paralelas a essa, como a do budismo. O budismo, que não tem essa palavra 'alma', entende que a nossa essência está em tudo. Eles chamam de 'natureza Buda'.

E o budismo, por vários momentos, se aproxima da ciência. Entende que as coisas todas se transformam e que nós, depois da morte, vamos nos transformar. Então, a ideia de alma, mesmo que seja para negar que exista algo que se separe do corpo, está em todas as religiões.

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