Rui Costa lamenta morte de Elsimar Coutinho: 'Um homem inquieto'

bahia
17.08.2020, 13:34:00
Atualizado: 17.08.2020, 14:10:48

Rui Costa lamenta morte de Elsimar Coutinho: 'Um homem inquieto'

Médico faleceu aos 90 anos, em São Paulo, após internação por covid-19

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O governador Rui Costa lamentou nesta segunda-feira (17) a morte do médico baiano Elsimar Coutinho, que aconteceu hoje, em São Paulo, após hospitalização por covid-19. Em nota, Rui destacou o trabalho pioneiro de pesquisa de Elsimar na área da reprodução humana. O governador decretou luto oficial por conta da morte.

“O Brasil perdeu hoje um dos seus grandes cientistas. Uma das principais referências em reprodução humana do país, Elsimar Coutinho foi antes de tudo um homem inquieto, dedicado ao seu trabalho como médico e pesquisador, levando o nome da Bahia para todo o mundo. Para os pacientes, é a perda de um profissional brilhante e, para família e amigos, a dor da partida de um de um ente querido.  Que Deus os conforte nesse momento tão triste para todos nós. Siga em paz, dr. Elsimar!”, escreveu o governador.

Elsimar  estava internado com covid-19 desde 20 de julho. Inicialmente, ele deu entrada no Hospital Aliança, em Salvador, mas foi encaminhado para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, no dia 30 daquele mês. Desde então, estava internado na unidade de saúde na capital paulista, onde morreu hoje, em decorrência das complicações causadas pela covid-19.

Pioneiro
Cientista pioneiro no desenvolvimento de anticoncepcionais femininos e na fabricação de implantes hormonais, Elsimar tinha 90 anos e deixa esposa, Tereza Coutinho, filhos e netos. Elsimar chegou a fazer hemodiálise e traqueostomia, e estava sob os cuidados do Dr. Roberto Kalil Filho.   

Formado nos cursos de Farmácia e Medicina pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), o médico tinha mais de meio século de carreira em pesquisa. Fundador do Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (Ceparh), no bairro da Federação, ele era autoridade mundial em tratamentos de infertilidade provocada por endometriose e miomatose. Quando estudante, Elsimar chegou a estudar nos EUA ao lado de George Corner, descobridor do hormônio feminino progesterona. 

Em longa entrevista ao CORREIO em abril deste ano, na véspera do seu aniversário de 90 anos, o médico respondeu com bom humor quando foi perguntado se tinha uma vida sexualmente ativa. “Claro. É que ainda sou novo, só tenho 90 anos”, brincou ele, que na ocasião ainda falou sobre morte, aborto e menstruação.

Pojuca, Paris, Salvador
Nascido na região metropolitana de Salvador, na cidade de Pojuca, Elsimar herdou do pai o interesse pela medicina. Depois de cursar duas graduações na Ufba, ele conseguiu uma bolsa pública, paga pelos governos brasileiro e francês, para estudar na Sorbonne, Universidade de Paris, ao lado do professor Claude Fromageot. Por lá, se interessou pelo estudo dos hormônios, assunto ao qual se dedicou até seus últimos dias.

Ao voltar da França, Elsimar tornou-se professor da Escola de Farmácia da Ufba, mas logo foi convidado a se aperfeiçoar em estudo e pesquisa na área de endocrinologia reprodutiva na Fundação Rockfeller, hoje Rockfeller University, em Nova York, onde conheceu Corner.

De volta ao Brasil, Dr. Elsimar assumiu a direção de pesquisas clínicas da Maternidade Escola da Ufba, que mais adiante viria a ser a Maternidade Climério de Oliveira, com sede no bairro de Nazaré, mas atualmente funcionando provisoriamente no Hospital Salvador, na Federação. A maternidade foi o primeiro centro de referência para estudos e pesquisas na área da Reprodução Humana da Organização Mundial da Saúde no Brasil.

No início dos anos 1960, o médico estava dedicado a pesquisar sobre a progesterona e sua ação na prevenção do trabalho de parto prematuro e descreveu o efeito anticoncepcional da substância. A partir dali, ele começou a propor os primeiros testes de anticoncepcionais injetáveis, combinados com estrogênio. 

Por causa destes experimentos, Elsimar passou a se destacar e se tornar um dos maiores especialistas em reprodução e planejamento familiar do país. O médico participou do desenvolvimento dos primeiros anticoncepcionais injetáveis de efeito prolongado (Depo Provera), entre outros métodos, como o implante em bastonete inserido sob a pele do braço das mulheres e a pílula vaginal, pesquisados ao longo dos quarenta anos de ligação com a Faculdade de Medicina da Ufba, da qual se aposentou compulsoriamente em 2000, aos 70 anos.

Em seu site pessoal, consta que foi de sua autoria o primeiro caso relatado na literatura médica sobre regressão de mioma numa grávida, publicado em 1982. Além de tudo, ele chegou a presidir o South to South, um organismo internacional que reune pesquisadores de países em desenvolvimento, localizados no Hemisfério Sul, para o desenvolvimento conjunto de novos métodos contraceptivos mais adequados como um à base de gossipol, uma fração de óleo de algodão com efeito anti-espermatogênese, tida como a primeira proposta de pílula anticoncepcional masculina, entre outras ideias.

Elsimar Coutinho era membro de 32 sociedades médicas e, só até o ano de 2000, havia participado de mais de 250 congressos como conferencista convidado. Ao todo, publicou mais de 350 trabalhos científicos, a maioria em revistas médicas internacionais como Nature, Endocrinology, Fertility and Sterility, American Journal of Obstetrics and Gynecology e Contraception. 

Também publicou e editou mais de dez livros, a maioria no exterior. Sua obra sobre a menstruação, publicada em 1996, chegou à 8ª edição. A versão inglesa do livro foi lançada pela Oxford University Press e recebeu elogios de revistas médicas como Lancet, Journal of the American Medical Association (JAMA) e do British Medical Association cujo reviewer o classificou como obra prima.

Atualmente, ele mantinha consultórios não só em Salvador, mas também em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, para onde viajava praticamente todas as semanas.

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