Saiba quais cuidados ter com seu pet em tempos do novo coronavírus

lampião cãogaceiro
21.03.2020, 18:54:00
Atualizado: 21.03.2020, 22:17:46

Saiba quais cuidados ter com seu pet em tempos do novo coronavírus

Animais não trasmitem Covid-19, mas, como qualquer superficie, podem ser veículo indireto do vírus; CORREIO ouviu especialista

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Lampião dá o recado contra as fake news. Mas é preciso reforçar a higiene dos bichos e, para o humano infectado, a recomendação é manter distância dos pets (Foto: Alexandre Lyrio/CORREIO)

Sem lero-lero, seus cabras! Não existe qualquer evidência científica de que animais domésticos como cães e gatos sejam hospedeiros do vírus que causa a Covid-19 e menos ainda de que transmitem para o ser humano. Apesar disso, é bom que se diga que o seu gato ou cachorro pode ser um veículo indireto de transmissão da nova doença. Assim como qualquer objeto que você tenha, a exemplo do celular ou mochila, eles são superfícies às quais, nesse momento, precisam de cuidados de higiene ao serem manipulados.

Por isso, a partir de uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) compartilhou nas suas redes sociais um material no qual afirma que pessoas infectadas com Covid-19 devem evitar contato com animais de estimação. "Realmente, não há comprovação científica de que o animal transmita o Covid-19, mas o tutor infectado, ao espirrar ou tossir, poderá espalhar as partículas com vírus na pelagem do animal. Se o pelo estiver contaminado e outra pessoa tocar, não há garantia de que não haverá transmissão. Nesse momento de incertezas, todo cuidado faz a diferença para evitar o contágio", diz o material.

Material do CFMV recomenda distância dos animais de estimação para humanos que estiverem infectados

Como mostramos em uma coluna anterior, apesar de tanto o seu cachorro quanto o seu gato poderem ser infectados por coronarírus, trata-se de coronavírus específicos e não transmissíveis a outras espécies. Quem afirmar o contrário disso está transmitindo Fake News. Sabemos que ainda pairam dúvidas sobre o assunto entre os tutores. Muitas dessas dúvidas surgiram depois que o cachorro de uma mulher acometida pelo novo Coronavírus em Hong Kong-testou positivo para "nível baixo" de Covid-19. O animal não apresentava sinais clínicos da doença.

Para acabar de vez com todas essas interrogações, procuramos uma das maiores especialistas do assunto na Bahia. Ela não só confirma que cães e gatos não são vetores diretos de transmissão como explica tin-tin por tin-tin se há algum risco de se conviver com animais enquanto se está com Covid-19. Além disso, esclarece qualquer questionamento relacionado com o episódio de Hong-Kong, explica como devem ser os passeios diários e a higienização dos bichos após as saídas. Quem respondeu às nossas perguntas foi a médica veterinária Nadia Rossi de Almeida, professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba), doutora em virologia e membro da Comissão de Bioética e Bem- Estar Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia (CRMV-BA). Se liguem! 

Cães e gatos também podem ser afetados pelo coronavírus?

Sim, mas existem coronavírus específicos para essas espécies. Não se trata do coronavírus associado à Covid-19. O Coronavírus canino pode levar o cão a desenvolver um quadro de diarreias e vômitos, semelhantes ao da parvovirose canina. Existe também o coronavírus canino que afeta o sistema respiratório e, juntamente com outros vírus e bactérias, pode desenvolver a doença conhecida como “tosse dos canis”. Já os gatos podem se infectar com o coronavírus entérico felino, que é pouco patogênico e de fácil tratamento. Entretanto, existe a possibilidade de mutação viral dentro do animal e o mesmo pode desenvolver a Peritonite Infecciosa Felina (Pif), que é fatal em quase 100% dos casos. Mas, repito, nenhum desses Coronavírus tem relação com o Covid-19. 

  • O que houve em Hong-Kong que alertou o mundo para a possibilidade de cães serem infectados pelo Covid-19?

Em 26 de fevereiro de 2020, em plena epidemia da Covid-19, o Departamento de Agricultura, Pesca e Conservação de Hong-Kong publicou em seu site a informação de que um cão, cuja tutora estava infectada pelo Sars-cov-2 (vírus da Covid-19), havia testado como "fraco positivo" para o Sars-cov-2. Em um primeiro momento o cão foi colocado em quarentena e aguardava o reteste, o qual dias depois continuava como fraco positivo. No final da quarentena o animal já apresentava teste negativo para a presença do vírus.

  • Então, a partir desse resultado, podemos dizer que os cães e gatos podem se infectar com um vírus específico da Covid-19, no caso o Sars-cov-2? Existe a possibilidade deles infectarem os humanos?

Até o momento não há qualquer evidência científica que comprove esta relação. Só temos o resultado de um cão, sem sinais clínicos. Um cão somente é uma amostra não significativa dentro da população de cães que foram expostos aos vírus.

  • O que pode ter havido então?

Há possibilidade de ter havido contaminação ambiental da amostra. Mesmo que tenha sido encontrado o vírus no cão, não significa que ele atue como fonte de infecção aos demais animais muito menos aos humanos. Ele pode ter sido um hospedeiro acidental. Muitos estudos ainda deverão ser conduzidos para que se comprove que os pets podem participar da transmissão do Sars-cov-2.

  • Como são feitos os exames para detectar a doença nos cães ou gatos? É o mesmo teste que é feito em humanos?

Neste caso específico do cão que testou positivo para o Sars-cov-2 foi utilizada a mesma técnica que usamos para humanos, a RT-PCR em tempo real. Neste cão foram colhidas amostras de cavidade oral e nasal, assim como se faz em humanos. No caso de Coronavírus canino causador de diarreia nós coletamos fezes e testamos. Já para o diagnóstico de coronavírus entérico em gatos podemos coletar o soro e realizar testes sorologicos. Já o diagnóstico da Peritonite Infecciosa Felina é algo complexo que requer resultados de exames laboratoriais juntamente com a avaliação clínico-epidemiológica do felino. 

  • Qual o tratamento para esses coronavirus canino e felino?

Para o Coronavírus canino existe principalmente prevenção. A vacina conhecida como octupla ou dectupla previne a infecção por Coronavírus. Animais que por ventura desenvolvam a doença passam por um tratamento específico que pode envolver internamento geralmente bem sucedido. No caso do Coronavírus felino, se for só entérico, normalmente ele não tem nada grave. Se houver a mutação e ele desenvolver a Pif, o tratamento é paliativo. 

  • Alguns textos compartilhados na Internet afirmam que essas vacinas podem ser ificazes em humanos. É verdade?

Não. São vírus diferentes. Essa vacinas não podem ser aplicadas em humanos e não são eficazes contra a Covid-19.

  • No caso de o humano estar infectado com o Covid-19, como deve ser o contato com os animais?

Bem, os cães e gatos não precisam estar protegidos do novo Coronavírus e sim o ser humano que por ventura estiver contaminado. Na medida que ele estará com a imunidade baixa, é importante intensificar os mesmos cuidados básicos de higiene, como lavar as mãos com água e sabão,  usar álcool 70% em gel e evitar ter contato com o animal. Porque o cachorro vai para a rua, entra em contato com diversos microorganismos e você precisa estar protegido de outras infecções. 

  • Mas o cachorro pode ser um veículo de tramissão do vírus, como qualquer objeto, a exemplo do celular? É preciso higienizar os animais?

O que a gente tem que desmistificar é o animal como uma fonte de infecção. Mas, sim, ele pode ser um veículo. Vamos supor que você está em um ambiente fechado ou até aberto em que as pessoas espirrem ali. Se tiver uma secreção no chão e o cachorro pisa, ele vai carrear o vírus pra casa, assim como a própria pessoa que tá pisando no chão. Podemos imaginar também que o doente espirre dentro do quarto e as gotículas vão parar no pelo do cachorro. Quando o animal for para a sala, ele pode levar o vírus para quem estiver lá e for fazer um carinho. Por isso, a pessoa doente deve estar isolada e sem contato com o cachorro. Mas, se estiver saudável e for passear com o animal, lave as patinhas dele com água e sabão. Isso já deveria ser um hábito normal de higiene, assim como limpar a sola do sapato. É uma conduta básica. As pessoas têm que entender que água e sabão é uma mistura super eficaz. Você não vai passar álcool ou outro produto no animal porque ele vai lamber. Então, lavar as patinhas ao chegar em casa e lavar as mãos sempre que manipular eles já faz toda a diferença.

  • É preciso mudar a rotina dos passeios?

O Conselho Federal de Medicina Veterinária já recomenda que nessa fase de contenção do novo Coronavírus os passeios sejam curtos e objetivos, acompanhadas de um único responsável, apenas para atender as necessidades fisioliológicas. Se você estiver sadio e for sair com o cachorro, vá nos horários mais transquilos. Creio, aliás, que as pessoas já estão evitando encontros de cães, locais fechados e etc. Quem estiver doente tem que solicitar que alguém leve seu cão para passear. Fale com algum familiar ou passeador para ir em sua casa fazer isso enquanto você está isolado. Mas essa pessoa não deve ter contato com você e precisa tomar todos os cuidados de proteção. Peça ajuda a alguém da família que também esteja devidamente protegida. 

  • O que a desinformação pode causar aos animais em um momento como esse?

Temos um receio muito grande que as pessoas possam abandonar seus animais, fazerem eutanásia e cometer o crime de maus-tratos. Lá na China, tinha gente jogando animais pelas janelas dos apartamentos depois que saiu essa nota sobre esse cão infectado em Hong-Kong. Então, é preciso informar direitinho a população. Os cães e gatos já sofrem demais com a ignorância das pessoas. Temos que cuidar deles nesse momento porque eles não têm nada a ver com tudo isso!

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