Salvador dos sonhos: projetos trazem novos olhares para a cidade

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29.03.2016, 15:19:00
Atualizado: 29.03.2016, 16:44:34

Salvador dos sonhos: projetos trazem novos olhares para a cidade

Convidados criativos sugerem intervenções para melhorar diversos pontos da capital baiana

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A intervenção urbanística do escritório Urban Recycle inclui tratamento da água do rio e  área verde para convívio (Urban Recycle/Reprodução)

Para celebrar os 467 anos da nossa velha Salvador, que faz aniversário na próxima terça-feira,  vamos oferecer presentes especiais. Convidamos mentes criativas para repensar a ocupação  da cidade, sugerindo intervenções que melhorem a relação da população com o espaço público.
Já que todo presente precisa ser identificado, confira, a seguir, nossos cartões de felicitações.

De: Urban Recycle. O escritório foi criado em 2010 por Saul Kaminsky e Diego Viana, na época estudantes de Arquitetura da Unifacs. A dupla sentia a necessidade de exercer o papel de arquiteto como agente que discute a requalificação da cidade. “Metade do escritório trabalha para o mercado e outra para a pesquisa. Recebemos estudantes de várias partes do mundo. O nosso foco é o estudo urbano de Salvador, que é uma cidade antiga, com desenho geográfico delicado e que precisa de uma abordagem cuidadosa”, explica Saul.

Para:
Avenida Vale das Pedrinhas e sua paralela, a Rua Raimundo Viana, no bairro de Santa Cruz. A região  sofre hoje com altos índices de densidade urbana e taxas de violência, segundo os estudos elaborados pela Urban Recycle. Por isso tem  necessidade de um olhar específico para sua requalificação.

Vista atual do bairro da Santa Cruz revela a degradação ambiental de um dos braços do Rio Lucaia (Urban Recycle/Reprodução)

O presente: O escritório baiano participará da exposição da GAA Foundation, na Bienal de Arquitetura de Veneza, em maio, com este projeto. Ele faz parte de um estudo maior que envolve a recuperação dos rios de Salvador. “Hoje, na nossa cidade, vemos os rios como esgotos. Uma imagem totalmente equivocada”, explica Saul. Pelo idealizado, o rio Lucaia, na entrada da Santa Cruz, seria tratado biologicamente, possibilitando a criação de um pequeno corredor verde, parques lineares em seu entorno, junto com áreas de convívio, pontes, caminhos e passagens para os moradores. Caberia também replanejamento das calçadas, vagas para estacionamento e pontos de ônibus, além de uma proposição de uso do novo espaço, como pequenas feiras temporárias e espaços expositivos.


A arquiteta Taís Fonseca propõe uma reformulação do Vale do Canela para melhorar a qualidade do trânsito (Tais Fonseca/Reprodução)

De: Taís Fonseca de Medeiros, arquiteta e urbanista. Graduada pela Universidade Federal da Bahia e pelo Politecnico de Milano (Itália). Atualmente é Analista de Projetos na TTC Engenharia de Tráfego e de Transportes, em São Paulo. Finalista regional deste ano do 26º Opera Prima - Concurso Nacional de Trabalhos Finais de Graduação em Arquitetura e Urbanismo,  representando a Bahia e o Nordeste em um dos mais importantes prêmios acadêmicos de jovens arquitetos do Brasil.

Para: Vale do Canela. A região abriga o campus da Universidade Federal da Bahia, dividido em dois por uma avenida de alto fluxo veicular e grandes desníveis. Hoje é uma das vias de maior significância para o trânsito urbano, mas que precisa de uma reconfiguração, até para facilitar a vida não só dos estudantes, mas dos pedestres no entorno.

O Vale do Canela é uma das principais vias de tráfego da cidade, mas carece de um novo projeto urbanístico (Tais Fonseca/divulgação)

O presente: Este projeto, que é um braço de um planejamento maior envolvendo outras vias públicas da cidade, propõe a construção de um túnel para o tráfego de passagem onde hoje se localiza a Avenida Reitor Miguel Calmon. A ideia é liberar o espaço da superfície entre os dois lados do campus, hoje tomado por automóveis, para a criação de uma área compartilhada. Trata-se não só da unificação do campus do Canela, mas de um novo espaço público, possibilitando a convivência dos estudantes com a população. O espaço oferece estrutura cicloviária e permite a passagem do transporte coletivo, tráfego de acesso local e serviços. Foi proposta ainda uma passarela de pedestres que conecta os bairros do Canela e Graça atravessando o vale, permitindo assim uma comunicação direta entre os níveis mais altos dos dois lados do campus universitário.

O projeto contemporâneo prevê um grande complexo cultural na histórica Praça da Sé e estabelece um diálogo entre o futuro e o passado (Victor Mascarenhas/reprodução)

De: Victor Mascarenhas. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Unifacs, em 2013 foi finalista do 24º  concurso nacional Opera Prima, que escolhe os melhores trabalhos finais de graduação em Arquitetura e Urbanismo. Hoje, assina projetos residenciais, comerciais e  de interiores.

Para: Praça da Sé. O icônico ponto turístico remonta uma história desde o início da formação da primeira cidade colonial do Brasil. “Intervir em um local tão cheio de histórias, inserido no meio da área mais antiga e de maior visitação por parte dos turistas, não é uma tarefa fácil, mas se faz necessário por estarmos falando de um local com poucos atrativos”, avalia.

Ampla e localizada na entrada do Pelourinho, a Praça da Sé carece de atrativos para os turistas (Evandro Veiga/arquivo Correio)

O presente: Uma ideia inusitada, com arquitetura inovadora, para a região. O projeto prevê um complexo cultural composto por museu de arte contemporânea e  centro cultural. Inclui a implementação de um centro profissionalizante - para capacitar a população carente da região com cursos  voltados para o turismo - e um teatro. Por fim, ainda propõe uma exposição tecnológica sobre Salvador, lojas e a construção de uma arena para pequenos espetáculos ao ar livre. Um memorial sobre a antiga catedral da Sé finaliza o projeto e ajuda a reconstruir a história do local.


A renovação do degradado largo se daria através de intervenções artísticas, sem grandes construções, mas com um belo impacto visual privilegiando a arte urbana

De: Filipe Bezerra. Publicitário por formação, desenvolve um trabalho como artista visual usando o design gráfico como plataforma principal. Suas obras vão desde a pintura urbana - em escadarias e muros da cidade - até ações de crítica social, a exemplo dos cartazes e lambe-lambe Acorde/Discorde e Soldados - ambos instalados em Salvador, Rio de Janeiro, Paris, Berlim e Vitória da Conquista, sua terra natal.Para: Largo Dois de Julho. Região conhecida por sua história de boemia e também artística, possui ainda ares de uma vida provinciana no movimentado centro da cidade. Mas sofre com certa degradação e ocupação desordenada por moradores de rua e vendedores ambulantes.

O artista visual Filipe Bezerra idealizou um calçadão colorido e prateleiras de livros para criar um clima de bairro cultural no Largo Dois de Julho (fotos de Filipe Bezerra/reprodução)

O presente: O objetivo de Filipe é “ativar um sentimento de bairro cultural” no famoso largo. Para realizar tal desejo, subdividiu o projeto em duas ações.  A primeira seria a criação do Calçadão Dois de Julho, onde faria uma intervenção, colorindo áreas de grande movimentação de pedestres. O teor da ilustração é dominado por cores vivas com tema lúdico, para chamar atenção do passante e marcar o potencial turístico da região. A segunda é a ideia do Pode Ler. Envolveria a reutilização da estrutura de metal já existente, porém abandonada. A ideia é instalar prateleiras com livros para que as pessoas pudessem retirar livremente e sem custo. Ali também pode-se colocar um teto com cobertura vegetal. “Com simples intervenções cria-se um clima de ambiente cultural que pode derivar uma ocupação da comunidade e fomentar novas ideias”, acredita.


 


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