Salvador perderá mais um clube: Aceb vai fechar em dezembro

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30.05.2019, 05:00:00
Clube da Aceb, no Costa Azul, só funcionará até o final deste ano (Fernando Figueiredo/Especial para o CORREIO)

Salvador perderá mais um clube: Aceb vai fechar em dezembro

Associação Cultural e Esportiva Braskem, no Costa Azul, é o local de treino do nadador olímpico Allan do Carmo

Mais um clube social vai fechar as portas em Salvador. Depois do Português, do Baneb e do Itapagipe, para ficar só neste século, a sede da Associação Cultural e Esportiva Braskem (Aceb), localizada no bairro do Costa Azul, deixará de funcionar em dezembro. O imóvel será restituído à Braskem, que já comunicou a decisão aos associados. Até lá, as atividades desenvolvidas ocorrerão normalmente. 

“Nos últimos anos houve uma diminuição na frequência a clubes sociais de Salvador. A mesma tendência foi sentida no clube da Aceb. Isso demonstra que ter a opção de acesso a clubes sociais deixou de ser percebida como um benefício pela maior parte das pessoas”, justifica a Aceb, em nota ao CORREIO. Inicialmente, o fechamento do clube seria no dia 30 de setembro. Porém, uma reunião na semana passada estendeu o prazo por mais três meses.

O clube é o local de treinamento do nadador Allan do Carmo, que disputou a Olimpíada de Pequim-2008 e Rio-2016. “É muito difícil pra gente, que já tem um costume e uma rotina, já conhece lá, se sente muito à vontade. Não é um desejo nosso, mas a gente não tem muito o que fazer, então é pensar na frente, tentar buscar o que é melhor pra gente. Não tenho que ficar reclamando. Temos que nos movimentar para que as coisas continuem fluindo, pra que a gente busque novas oportunidades e crie novos laços, além de agradecer a oportunidade de poder ter vivido esse tempo todo lá”, afirma Allan, que nada na Aceb desde 2006. 

Ele treina no clube três vezes por semana. Em outros três dias, nada na piscina olímpica na Bonocô.

A Aceb oferece atualmente oito modalidades esportivas, prestadas por escolas terceirizadas que alugam os espaços: natação/hidroginástica, futebol, ginástica artística, tênis, caratê, basquete, vôlei e capoeira. Entre os alunos há 85 associados da Aceb.

Além disso, é no espaço que os sócios e convidados usufruem, principalmente aos fins de semana, das áreas de lazer compostas por duas piscinas, quadra poliesportiva, duas quadras de tênis, um campo society (que também é alugado ao público externo) e bar. Uma academia funciona nas dependências.

“Percebemos que a frequência aos clubes sociais vem diminuindo no Brasil, o que também vinha ocorrendo no clube da Aceb. Diante dessa mudança de hábito, a Braskem avaliou que não se justificava a manutenção desses espaços e, por isso, decidiu pelo fechamento do clube em Salvador”, argumenta o gerente de Relações Institucionais da Braskem Bahia e Alagoas, Milton Pradines. Nos próximos meses, a empresa irá avaliar a venda do imóvel ou potenciais usos alternativos.

O presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi-BA), Cláudio Cunha, aponta dois motivos que levaram clubes a fecharem suas portas, embora sem tratar da Aceb especificamente: infraestrutura ultrapassada e configuração familiar. 

“Alguns clubes não modernizaram as suas atrações e instalações para que ele continuasse sendo frequentado, com exceção do Yacht Clube da Bahia, que conseguiu se manter com bastante força”, pontuou. “O outro motivo é a mudança de comportamento das pessoas. Hoje, as famílias têm uma realidade diferente daquela que tínhamos 20 ou 30 anos atrás. Hoje, o casal trabalha, os filhos têm que ter uma atividade e a pessoa teria que sair do seu trabalho para levar”, constata.

De acordo com ele, brechas como essas foram observadas pelo mercado imobiliário e acarretaram no surgimento de condomínios residenciais com infraestrutura ampla para lazer e prática esportiva, antes só existentes em clubes. “O mercado imobiliário percebeu a mudança da família, da sociedade e ofereceu uma estrutura que a família pudesse usufruir. A segurança e a estrutura que os condomínios oferecem impactam nos clubes”, acredita Cunha.

De acordo com o Sindicato dos Clubes da Bahia (Sindiclube-BA), há 136 clubes em Salvador. Entre os mais tradicionais estão Yacht Clube da Bahia, Costa Verde Tênis Clube e Clube dos Empregados da Petrobras (Cepe). 

Mudança nos anos 80
Presidente da entidade, Alfredo Vasconcelos relata que o desemprego, a insegurança, a mudança dos hábitos de lazer e o surgimento de condomínios e espaços de eventos resultaram em uma fase crítica do segmento clubístico na capital baiana a partir da década de 1980, que resultou no fechamento de 18 unidades, entre particulares e classistas. Porém, ele destaca que muitos que resistiram à crise se organizaram e têm boa frequência de associados. “O Cepe tem média de 2 a 3 mil pessoas por final de semana para curtir a piscina. O Yacht vive lotado e tem uma receita das mais equilibradas do país. A frequência desses clubes é enorme”, exemplifica Vasconcelos.

O presidente do Sindiclube-BA também pontua que alguns clubes fecharam porque foram mal geridos, mas esse não é o caso da Associação Cultural e Esportiva Braskem. “O fechamento do clube da Aceb é uma surpresa para nós porque é um clube muito equilibrado, com uma atividade intensa, de tênis, natação de alto nível, atividades para os associados classistas muito boas”, relata.

Vista aérea do clube da Aceb, no Costa Azul (Foto: Reprodução)

Celeiro da natação
Além de Allan do Carmo, outros atletas de destaque da natação baiana treinam no clube, sob o comando do técnico Rogério Arapiraca, que ainda não definiu o futuro local de treinamento. No ano passado, Aricia Peree disputou o Mundial júnior, nos Estados Unidos. Em abril deste ano, Lucca Piloto e Ricardo Castro participaram do Campeonato Sul-Americano Juvenil, no Chile. 

O que eles - e todos os outros alunos - conseguiram foi a garantia da diretoria da associação de permanecer até dezembro, o que evita prejudicar o desempenho dos atletas durante a temporada. Procurado, Arapiraca preferiu não comentar o tema.

Allan do Carmo, por sinal, se prepara para o Mundial de Gwangju, na Coreia do Sul, onde disputará, em julho, uma vaga na Olimpíada de Tóquio-2020. Em paralelo, disputa o Circuito Mundial.

“A gente lamenta bastante porque alguns clubes têm fechado e isso diminui muito a prática do esporte aqui. Cada vez que perde um clube, diminui a possibilidade das pessoas estarem vivenciando o esporte e a população acaba perdendo muito. A gente já é um pouco carente disso e vamos perdendo um pouquinho cada vez mais”, analisa.

A professora de tênis Eliney Andrade dá aulas na franquia da Escolinha Guga na Aceb.   “Para quem é do esporte, nunca é legal fechar clube. Mas pelo menos vamos ter sobrevida até dezembro. Vamos aguardar para ver se pode acontecer alguma coisa. Quem sabe?”, declara, esperançosa.

Isenção de IPTU contribui com manutenção de clubes
Não é o caso da Associação Cultural e Esportiva Braskem (Aceb), mas o pagamento do Imposto sobre a Propriedade Predial Urbana (IPTU) é um dificultador para a manutenção dos clubes. Porém, desde 2016, um projeto de lei permite a isenção de parte do IPTU dos clubes sociais de Salvador. Inicialmente a isenção era de 70% e, desde o ano passado, o índice subiu para 85%.

Têm direito ao benefício os clubes sociais que estão em condições legais de assinar convênios de cooperação técnica com a prefeitura. Atualmente, 16 clubes prestam serviço ao município, entre eles a Associação Atlética da Bahia e o Yacht Clube da Bahia, ambos na Barra. 

No caso do Yacht, por exemplo, crianças e adolescentes da Vila Brandão, comunidade vizinha, praticam modalidades esportivas nas dependências do clube.

“Nós abrigamos em nossos clubes os projetos da prefeitura. Os clubes têm que ceder espaços e abrir vagas em suas escolinhas para idosos, deficientes e crianças, com direito a alimentação, vale-transporte e equipamentos”, explica o presidente do Sindicato dos Clubes da Bahia (Sindiclube-BA), Alfredo Vasconcelos. “É um projeto fantástico, modelo para o Brasil. Em setembro haverá Olimpíada entre os clubes que estão sediando o projeto da prefeitura”, comenta.

Allan do Carmo vai se preparar nos EUA
Allan do Carmo praticamente não treinará em Salvador no mês de junho. O nadador baiano viaja na próxima terça-feira (4) para o estado do Colorado, nos Estados Unidos, onde fará um treinamento de altitude focado no Mundial de Gwangju, na Coreia do Sul. No Mundial, dia 16 de julho, ele disputará  uma vaga nos 10 km da maratona aquática dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020.

“Tenho essa nova oportunidade de nadar uma Olimpíada, de competir em alto nível, ter essa experiência. É a vontade de qualquer atleta, ainda mais de quem já vivenciou na pele uma Olimpíada”, vibra Allan, que foi a Pequim-2008 e Rio-2016.

Ele retornará a Salvador no dia 26 de junho e já no dia 30 embarcará para a Coreia do Sul. “É treinar e manter o foco. A gente volta só para ajeitar a mala, dar uma clareada e ver a família”. 

Outros três brasileiros terão a chance de se garantir na Olimpíada de Tóquio através do Mundial. Além de Allan do Carmo, os também baianos Ana Marcela e Victor Colonese e a gaúcha Viviane Jungblut vão disputar a competição. Os dez primeiros colocados garantem vaga.

“É uma prova de muita estratégia. É preciso estar atento aos detalhes. O principal é nadar na frente, entre os primeiros colocados, não deixar desgrudar”, conta Allan.

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