Símbolo da luta do negro brasileiro na TV, Zezé Motta está em O Canto da Sereia

entretenimento
10.01.2013, 12:30:00

Símbolo da luta do negro brasileiro na TV, Zezé Motta está em O Canto da Sereia

Na obra homônima de Nelson Motta, ela é tia Celeste, mãe pequena do terreiro Soberana do Mar

Laura Fernandes
laura.fernandes@redebahia.com.br


A atriz fluminense Zezé Motta, 68 anos, confessa, aos risos, que sempre que visita um terreiro fica com medo de sua mediunidade aflorar. Quando era de umbanda, sua mãe, Maria Elasir, 88, vivia preocupada com a não participação da filha na religião por conta disso. Até que, um dia, ela falou para Zezé: “Tenho uma notícia boa para te dar. Recebi um recado que você exerce sua mediunidade no palco”.

Sacerdotisa do candomblé duas vezes na TV – em Mãe de Santo (1990) e Porto dos Milagres (2001)–, Zezé está de volta à telinha no elenco de O Canto da Sereia (Globo/TV Bahia), que termina amanhã. Na minissérie baseada na obra homônima de Nelson Motta, ela é tia Celeste, mãe pequena do terreiro Soberana do Mar, que é procurado pela protagonista Sereia (Ísis Valverde) antes de morrer.

A função de Tia Celeste é cuidar da mãe de santo (Fabíula Nascimento) e do terreiro, recepcionando as pessoas e cuidando para que tudo saia em ordem nos rituais. “É uma personagem muito interessante, porque cuida de tudo, de fato. É uma guardiã, está sempre do lado da mãe de santo”. Para o papel, Zezé visitou terreiros no Rio e fez workshops: “Pedi licença para viver essa personagem”.

Seios de fora
O curioso é que o recado de dona Maria ultrapassa a atuação da filha. Para quem não sabe, Zezé é tão cantora quanto atriz, papéis que concilia “com disciplina” em 45 anos de carreira. A artista faz shows toda semana e já gravou oito álbuns - entre eles, o marcante Zezé Motta (1978), relançado agora em CD (veja boxe) e composto por hits como Muito Prazer (Rita Lee e Roberto de Carvalho) e Magrelinha (Luiz Melodia).

A artista, portanto, concorda com a mãe e diz que seu recado tem tudo a ver: “Se você prestar atenção, logo nos meus primeiros trabalhos – que aliás era uma época que eu frequentava muito a Bahia – sempre tinha alguma coisa para algum orixá”. “Eu gravei Oxum, uma música do Johnny Alf (1929-2010); gravei Dengue, que também é pra Oxum, da Leci Brandão; e Alapalá, do Gilberto Gil, logo no primeiro LP, para Xangô”.

O lançamento de seu primeiro disco, por sinal, ficou marcado por uma história inusitada. Enquanto dançava para Oxum, a alça do vestido de Zezé caiu e ela ficou com os seios de fora. “Eu tinha aprendido, quando fiz arte dramática, que o ator tem que incorporar o erro. Então, caiu a alça e eu continuei dançando. Saiu em todos os jornais!”.

Logo depois, Zezé precisou convidar Clementina de Jesus (1901-1987) para o Projeto Pixinguinha. Clementina, porém, recusou: “Ela disse ‘não vai dar não minha filha, porque se o falecido fosse vivo ele não ia deixar eu cantar com uma moça que canta com os peitos de fora. E ele falou que se eu desobedecesse ele, quando partisse dessa para melhor, ele vinha puxar meu pé’”, conta Zezé, às gargalhadas.

Quilombo  
Além de seus trabalhos com televisão, música e teatro - onde estreou, em 1967, com a peça Roda Viva, de Chico Buarque -, Zezé Motta tem mais de 30 filmes no currículo. Entre eles, Xica da Silva (1976), seu “divisor de águas”, e Quilombo (1984), ambos dirigidos por Cacá Diegues.

A repercussão internacional de Chica da Silva abriu portas para Zezé, inclusive de pensamento crítico. “Assim que ingressei na carreira artística, percebi que fazer arte no Brasil era difícil, mas para o negro era mais ainda. Isso me preocupava muito. Com Xica da Silva eu fazia muitas entrevistas por dia e percebi que tinha que ter um discurso articulado”.

Coincidiu de, na época, Zezé entrar no curso de Cultura Negra, com Lélia Gonzales (1935-1994), e ouvir na aula inaugural: “Eu sei por que vocês estão aqui, mas não temos tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo”. Foi o que faltava para a artista unir militância e talento e tornar-se referência na luta pela inserção do negro na televisão brasileira.

“Foi fundamental para mim ela começar falando isso. Eu vivia cobrando aos diretores e produtores o porquê dessa quase invisibilidade do negro na mídia e cada um arranjava uma desculpa incluindo ‘só conheço você e fulano’. Aí vi que o que faltava era a gente se organizar, em vez de ficar reclamando”. Então, já na filmagem de Quilombo, a artista pediu endereço, telefone e foto dos atores negros.

Mercado
A iniciativa resultou na criação do Centro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan), instituição sem fins lucrativos que busca inserir o negro no mercado de trabalho. “Acho que a gente ainda tem muita luta pela frente, mas que está mudando está. Já percebo da parte dos produtores, diretores e autores uma preocupação em realmente inserir o negro em um contexto, independente da cor”, comemora.

A luta continua em 2013, é claro, com a militante revezando-se entre seus inúmeros papéis. O próximo: viver a lendária e baiana Tia Ciata, num filme sobre Pixinguinha, dirigido por Denise Saraceni. “Estou superanimada com esse trabalho, porque Tia Ciata foi muito importante na música popular brasileira - no quintal da casa dela foi feito o primeiro samba, Pelo Telefone. Além disso, ela também era uma ótima cozinheira e... mãe de santo!”, diverte-se.

Jantar com estrelas da MPB definiu primeiro disco
Folheando o encarte da recém lançada versão em CD de seu primeiro álbum, a cantora Zezé Motta diz admirada: “Nossa, não sabia que eles tinham reproduzido na íntegra!”. Marcante em sua carreira e muito bom, o LP Zezé Motta, de 1978, surgiu de forma curiosa. Após o sucesso internacional da artista no filme Xica da Silva (1976), muitas pessoas começaram a perguntar “Zezé, o que você quer fazer agora?” e ela respondia: “Quero cantar”.

Na época, o importante empresário Guilherme Araujo - que trabalhou com artistas como Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso - ficou interessado em produzir a cantora. Como Zezé Motta não tinha intimidade com os compositores, ele resolveu o problema com um jantar em sua casa. “Desse jantar saiu o repertório. Estavam lá Rita Lee, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Caetano... Todos os que estão naquele LP”, lembra Zezé.

O disco reúne músicas como Magrelinha e Dores e Amores, ambas de Luiz Melodia; Crioula, de Moraes Moreira; e Muito Prazer, de Roberto de Carvalho/Rita Lee, espécie de carta de apresentação. Sobre as duas últimas, recorda: “Foi muito bonitinho porque a Rita Lee falou assim ‘Ela tá me pedindo uma música, mas não sei quase nada sobre ela, como é que a gente faz?’. Aí ela começou a ler todas as matérias, entrevistas que eu dava e daí saiu a música, você acredita? O Moraes eu pedi uma música para cantar e ele fez para mim o Crioula. Não posso reclamar da vida, né?”.





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