Simone retorna essencial em álbum que reverencia o Nordeste

entretenimento
19.03.2022, 07:00:00
Da Gente é o 42º álbum da cantora (Nana Moraes/Divulgação)

Simone retorna essencial em álbum que reverencia o Nordeste

Em 'Da Gente' a baiana canta autores nordestinos de diferentes gerações, com sonoridade regional

Ao telefone, Simone diz que está muito "féliz" - assim, com a letra "e" bem aberta - com seu novo álbum, Da Gente, que chegou nesta sexta-feira às plataformas de música. E o sotaque, que ela faz questão de manter mesmo morando fora da Bahia há 48 anos, tem tudo a ver com este que é o 42º álbum da cantora.

Explicamos: é que o disco, que começou a ser esboçado na cabeça dela há mais ou menos dez anos, é uma homenagem aos ritmos e aos compositores e compositoras nordestinos.

"Há vários 'brasis' dentro do Brasil e o Nordeste é um deles. Há várias culturas no país e temos influências distintas. O próprio sotaque é uma delas. E até o abecedário: no Nordeste, as letras são 'mê', 'nê', 'rê'..."

Longe dos estúdios desde 2013, quando lançou É Melhor Ser, Simone não quis voltar a gravar enquanto não fosse para realizar o desejo de festejar suas origens. O projeto de fazer um disco marcado pela regionalidade rondava a cabeça dela há mais ou menos dez anos, mas era um tanto diferente do atual. É que, naquela época, muitos compositores nordestinos que estão em Da Gente talvez nem tivessem começado a carreira.

A maioria é gente revelada há pouco tempo, como os pernambucanos Isabela Moraes e Martins e a baiana Joana Terra, que lançou seu primeiro álbum há apenas três anos. Tem veteranos, é verdade, como Zeca Baleiro, e outros que são da geração de Simone, como Fagner e Cátia de França.

Uma das responsáveis por essa ponte com a nova geração foi Zélia Duncan, com quem Simone gravou o CD e DVD Amigo É Casa - Ao Vivo, em 2008. A baiana diz que confia na amiga de olhos fechados e por isso ela assina a direção artística. A direção musical é de Juliano Holanda, pernambucano que assina duas composições do álbum e foi através de Zélia que Simone o conheceu.

Juliano é o autor da faixa que abre o lançamento, Haja Terapia.

"É um soco no peito, que fala do fatiamento do tempo, da finitude... A música chamou muito a minha atenção, não só pelo fator pandemia que a gente ainda está vivendo. Ela cria imagens fantásticas", diz, entusiasmada.

E Simone tem razão: a letra de Juliano toca fundo, assim como a melodia. "Mas há algo de flor e de asfalto nesses tempos encardidos/ A peça já está no seu terceiro ato e os atores estão bem perdidos/ Não sei em que altura da estrada a gente perdeu a poesia", diz a letra.

Tudo funcionou tão bem entre Simone, Zélia e Juliano, que as gravações foram em tempo recorde: apenas dez dias. Até para evitar muito contato durante a pandemia. A cantora, por sinal, fez questão de dizer durante a entrevista, uma quatro ou cinco vezes, que todos estavam vacinados quando começaram a se encontrar. A agilidade na gravação aconteceu também graças aos músicos Webster Santos (violões) e Rapha B (bateria, udu, clave e ganzá), além do polivalente Juliano, que tocou baixo e violão de aço.

 Zélia e Juliano foram responsáveis também pela inclusão de Nua, um poema do português Tiago Torres da Silva musicado pela cantora. Graças à insistência da dupla, Simone acabou cedendo. "Sou compositora bissexta, tenho pouquíssimas músicas, mas tenho parceiros respeitadíssimos. Compus com Hermínio Bello de Carvalho, Abel Silva, Fernanda Montenegro...".

Juliano e Zélia também tomaram uma decisão que foi fundamental para deixar o álbum mais "limpo", o que deu mais evidência à bela voz de Simone: eles decidiram excluir piano e teclado das gravações. E a cantora, que pela primeira vez cantou sem esses instrumentos, diz não ter sentido falta. "Se sentisse, eu pediria para incluir. Mas não me senti desamparada. Era um disco em que a gente queria minimalismo", revela a Cigarra.

E essa sonoridade mais "limpa" fez um bem danado a Simone, que, apesar de quase uma década longe dos estúdios, voltou muito bem. Os excessos de alguns álbuns anteriores deram lugar a uma roupagem quase antagônica e, como diz ela, Da Gente "respeita espaços e silêncios". É candidatíssimo a uma dos melhores álbuns de sua carreira, que completa 50 anos em 2023.

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