'Sofrer de amor é algo que atravessa todo mundo', diz Duda Beat

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29.04.2021, 05:00:00

'Sofrer de amor é algo que atravessa todo mundo', diz Duda Beat

Leia entrevista com a cantora pernambucana sobre o segundo álbum Te Amo Lá Fora

Depois de ver o hit Bixinho na trilha na novela Amor de Mãe e de ter sua música na boca da BBB Juliette – o que rendeu 50 mil seguidores no Instagram em poucos minutos e a fez parar no trending topics do Twitter – a cantora pernambucana Duda Beat, 33 anos, lança seu segundo e esperado disco: Te Amo Lá Fora. Dançante, o trabalho da artista carinhosamente chamada de Rainha da Sofrência Pop tem pagode, coco, house e piseiro.

Disponível nas plataformas digitais e sucessor do elogiado Sinto Muito, Te Amo Lá Fora continua cantando o amor e a dor do coração não correspondido com arranjos envolventes. Mas vai além e traz a superação e a desejada volta por cima como temas, além de uma dose de melancolia. “Nesse álbum, estou mais dark. Às vezes meio rancorosinha até (risos), debochada, desiludida”, brinca Duda, sobre o trabalho produzido pela dupla Lux & Tróia.

Em entrevista ao CORREIO, a cantora que ganhou o Troféu APCA de revelação de 2018 e teve o seu álbum de estreia incluído na lista dos dez melhores discos nacionais do ano da revista Rolling Stone, fala sobre como a pandemia influenciou seu novo trabalho, sobre a participação do rapper baiano Trevo e sobre as composições que partem da experiência pessoal. “Sofrer de amor é algo que atravessa todo mundo”, diz. Confira.

(Foto: Fernando Tomaz)

Como a música ajuda na elevação da autoestima?
Acho que cria identificação, acolhimento. Quem está sofrendo e ouve uma música que fala um pouco sobre aquilo entende que apesar de experiência ser única, já que cada um sofre de um jeito, sofrer de amor é algo que atravessa todo mundo. Isso dá um conforto, né?! E acho que até uma força para superar o momento com o passar do tempo. Depois de chorar, de sofrer, “tá tudo perdoado”, como eu canto em “Meu Pisêro”.

Quando lancei Sinto Muito, recebi muitas mensagens de pessoas falando que estavam passando por um momento difícil e o álbum as ajudou a processar aquilo, a superar... Fico muito feliz de as pessoas encontrarem alento na minha música, de tomarem as canções para elas dessa maneira.

O que Te Amo Lá Fora traz de único e de que forma se mantém conectado com Sinto Muito?
Ele se conecta no tema: continuo cantando o amor, ou a dor de amor (risos). Mas Te Amo Lá Fora avança ao cantar o amor de outras maneiras. Tem a sofrência, mas tem também a superação, a volta por cima e o amor correspondido e feliz.

Nesse álbum, estou mais dark, até visualmente falando. Às vezes meio rancorosinha até (risos), debochada, desiludida. Então, embora sejam dois álbuns que tratam do mesmo tema, há um amadurecimento na maneira em que isso é tratado.

Você já disse em entrevistas sobre o disco anterior que boa parte de suas composições parte de experiências pessoais. O mesmo aconteceu nesse trabalho? 
Sim, o mesmo aconteceu em Te Amo Lá Fora. Falo sobre mim, sobre as minhas experiências. Apesar de agora estar feliz, vivendo um amor correspondido, foram dez anos de sofrência (risos). Então, o amor não correspondido ainda é uma fonte de inspiração para mim. Tenho muita coisa para elaborar sobre isso (risos). Em Te Amo Lá Fora, já comecei esse trabalho de elaboração, sem tanta idealização do amor ou do sofrimento que ele traz. Acredito que isso seja fruto da distância entre os eventos e o processo de feitura do álbum. O amadurecimento traz tranquilidade e perspectiva também, isso é importante. Por isso, a impressão sobre as experiências muda, a gente passa a enxergar as coisas de outra maneira. Isso é bom!

A gente percebe, nas letras, uma mulher muito dona de si. Foi sua intenção?
Ah, que massa! Sim, total! Estou mais dona de mim, mais em paz comigo e até com esses amores não correspondidos. Estou encarando os assombros que o amor me traz. O nome Te Amo Lá Fora traduz muito isso porque eu acredito que o amor não acaba, ele se transforma. No meu caso, sei que mesmo os amores que não deram certo me ensinaram algo e isso é valioso para mim.

Mas "eu te amo lá fora", distante. Dentro de mim, aqui dentro, eu me priorizo, eu me amo, sabe?! 

Outra inspiração também para o nome foi a Thalia (risos). Eu adoro a Thalia, assistia todas as novelas dela e adorava ver o programa do Gugu, Uma vez, quando ela veio ao Brasil e participou de um programa dele, Gugu mostrou que as pessoas que estavam fora do estúdio a amavam e ela respondeu: "Te amo lá fuera" (risos). Quando estava no processo de escolher o nome do disco, lembrei disso e o nome fez muito sentido para mim.

Por que te encanta falar de amor? E por que nesse jogo o "desprezo conquista o amor", como diz sua letra?
Porque eu acho que amor é uma linguagem universal. Todo mundo ama, sofre, segue em frente, se apaixona de novo... Todo mundo tem uma história de amor guardada em algum lugar. Eu coloco as minhas em composições porque me ajuda nesse processo de entender. E compartilhar com as pessoas me deixa feliz também, é uma maneira de dizer: “Olha, você não está sozinhx, está doendo agora, mas passa”. E passa mesmo, por mais impossível que possa parecer no momento.

Acho que isso de o “desprezo conquista o amor” vem muito dessa ideia de que quando alguém não nos dá confiança, na verdade, ela está apaixonada, ou quer algo. As meninas, especialmente, são muito ensinadas a pensar assim: se te desprezam é porque gostam de você. Mas não é assim, minha gente! É tão bom amar e ser amada de volta, encontrar quem te valorize, seja em uma relação romântica ou de amizade. Acho que temos que mudar esse jogo e começar a valorizar mais quem gosta da gente!

O disco traz a participação do rapper baiano Trevo. O que destaca sobre ele?
Sim, fiquei muito feliz com essa participação. Eu já conhecia o trabalho do Trevo desde a banda Underismo e fiquei fã desde então. Depois, ele lançou carreira solo com o ótimo disco Nada de Novo Sob o Sol e acabou de lançar um EP de pagode baiano que é muito massa. Quando pensamos em fazer de Nem Um Pouquinho uma faixa de pagotrap, como a gente está chamando, não tive dúvida de que queria Trevo comigo. Fiz o convite e ele topou. Fiquei muito feliz.

O disco traz uma sonoridade pop contemporânea marcante, sem deixar de valorizar gêneros musicais regionais. Foi sua intenção valorizar a cultura nordestina também através das parcerias?
Sem dúvida nenhuma. Por isso, o meu abre-alas é Tu e Eu com a participação de dona Cila do Coco, para marcar de onde eu venho e que minha terra e minha história estão sempre comigo. A música nordestina faz parte da minha formação musical. Eu cresci ouvindo maracatu, coco, brega, baião, xote, forró... Isso tudo faz parte de mim. Nada mais natural para mim do que isso estar refletido nas minhas músicas.

Você já falou que a pandemia influenciou na construção desse trabalho, mas como ela aparece de fato no disco?
A pandemia aparece na atmosfera do disco, nessa melancolia, até nesse enfrentamento meu com os assombros que o amor causa. A pandemia acabou fazendo com que mergulhasse mais ainda em mim e isso influenciou no processo do álbum dessa maneira.

Qual é o papel da música nesse processo difícil que estamos vivendo?
Por muitas vezes, fiquei na dúvida sobre lançar o disco na pandemia, porque diante de tudo que estamos vivendo parece que qualquer coisa que eu fale é insuficiente, tamanha dor do mundo. Mas a música, assim como a TV e o cinema, também podem ajudar sendo alento, sendo um ponto de reflexão, trazendo uma alegria em dias difíceis e, assim, mantendo acesa a esperança por dias melhores.

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