"Sonhar é tão espontâneo quanto respirar”, diz neurocientista

agenda bahia
29.10.2021, 05:00:00
Sidarta Ribeiro foi um dos entrevistados do Programa Agenda Bahia, exibido nas redes sociais do CORREIO (Imagem: Reprodução)

"Sonhar é tão espontâneo quanto respirar”, diz neurocientista

Professor e escritor, Sidarta Ribeiro, defende que as pessoas precisam voltar a ter sonhos e destaca que eles dizem muito mais do que imaginamos

Os sonhos podem dizer mais sobre a gente do que imaginamos e esse conteúdo é trilha para as transformações que precisam ser feitas nesse novo modo de viver. É o que defende o neurocientista, professor e escritor Sidarta Ribeiro. Autor de livros como o best-seller O Oráculo da Noite (Companhia das letras, 2019, R$ 82,90), ele foi um dos entrevistados no Programa Agenda Bahia 2021, que dedicou um bloco especialmente para tratar do poder de ressignificação que os sonhos carregam e da importância de sonhar. “Sonhar é tão natural, tão espontâneo quanto respirar. Resgatar a arte de sonhar é essencial para construir o futuro”, diz. 

Professor titular de Neurociências e vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Sidarta ensina ainda, como voltar a sonhar e comenta também alguns estudos recentes realizados no laboratório sobre a associação dos sonhos ao sofrimento psíquico. “Os sonhos têm tudo a ver com a pessoa que sonha. Exprimem, expressam situações que a pessoa está vivendo”. Confira na entrevista:

No começo do seu livro você conta a história de um sonho de um menino, a relação, na verdade, com o sonho e a morte do pai. Esse menino é você. Você acha mesmo que os sonhos nos guiam, que eles falam sobre nós? 

Com certeza. Os sonhos têm tudo a ver com a pessoa que sonha. Quando alguém que sonha tem um problema muito sério, os sonhos exprimem esses problemas de uma maneira muito nítida. Mas, na maior parte das vezes, quando a gente não tem um problema muito sério, o que temos são pequenos problemas e os sonhos começam a ficar menos fáceis de serem interpretados, porque começam a expressar muitos temores e desejos diferentes. Mas sim - eu acredito bastante - por razões biológicas, psicológicas e também históricas, mitológicas e antropológicas, que os sonhos exprimem e expressam situações que a pessoa está vivendo. 

E você fala muito essa questão dos sonhos, mas as pessoas também falam muito assim: nossa, eu não lembro o que eu sonhei. É possível fazer o exercício diário de lembrar dos sonhos? Como é que a gente faz esse exercício? 

Verdade, a gente está numa sociedade que não tem nenhum lugar do sonho. O sonho não é um assunto na família, no trabalho ou na escola, não é assunto na gestão pública nem na gestão privada. Então, como ele não é um assunto, ele sai de cena. Só que sonhar é tão natural, tão espontâneo quanto respirar. Se a pessoa resolve voltar ao sonho, é muito fácil. É um regresso bastante agradável e fértil, que consiste em colocar o sonho no centro da própria vida. Não precisa ser o único assunto da sua vida, mas precisa ser um assunto importante. Então, por exemplo: todo dia, ao despertar, você vai relatar o próprio sonho. Como é que você faz isso? Ficando imóvel na cama. É preciso ficar bem quietinho enquanto o cérebro muda a sua neuroquímica e passa por substâncias que vão ajudar a gente a lembrar. Se você não lembra nos primeiros segundos, com certeza, você vai se lembrar, talvez, um ou dois minutos depois. Mas é preciso um pouco de paciência, um artigo que está em falta hoje. 

A gente viveu, ou melhor, continua vivendo, a falta de abraços, de encontros. Vivenciamos isso de um jeito muito intenso, em uma escala maior durante o isolamento do que hoje. Mas, ainda não temos uma rotina retomada como antes. Qual o impacto disso na mente humana?

Acho que ninguém discorda que a pandemia é um evento planetário de impacto emocional global. Então, todo mundo foi afetado por ela direta ou indiretamente e todo mundo teve que se defrontar com o medo da morte. Todo mundo tem medo da morte, mas a gente sabe que ela vem um dia e, de repente, ficamos com medo dela acontecer logo e é uma situação que já foi vivida pelos nossos ancestrais muitas vezes, mas que nas gerações que estão vivas é totalmente inédita e a escala dessa situação é inédita também. Isso é uma coisa detectável, tanto em sofrimento psíquico expresso durante a vigília, em que as pessoas estão em sofrimento, como se expressa também claramente no conteúdo dos sonhos. Os sonhos têm uma continuidade com a vigília. 

A gente mostrou no ano passado em um trabalho feito no nosso laboratório que existia uma relação entre o conteúdo dos sonhos e esse sofrimento psíquico.  As pessoas que estão mais em sofrimento psíquico são também aquelas que estão sonhando com conteúdos de contágio, medo ou de raiva com essa situação. Vários estudos no mundo inteiro vêm mostrando redução no tempo de sono, sono mais fragmentado, aumento de pesadelos. 

Claro, isso afeta a maior parte da população que são aquelas pessoas que não tem condições materiais e tampouco condições imateriais, culturais, psicológicas, emocionais, de fazer o distanciamento social necessário e tomarem todas as medidas preventivas. Para uma minoria de pessoas que foram privilegiadas e tiveram condições materiais e imateriais de se proteger melhor foi, paradoxalmente, um período de melhoria de sono, de melhoria de lembrança de sonho, de um contato mais íntimo com a vida interior, justamente porque precisava se deslocar menos, ficaram trabalhando dentro de casa. 

Daqui para a frente, isso vai mudar de alguma maneira o nosso comportamento?

Agora, se a gente vai sair dessa pra melhor... Primeiro: a gente ainda não saiu. A pandemia não é homogênea. Então, no Brasil ela está em queda, na Inglaterra está subindo. Nesse período, a média de mortes está caindo estamos entre 200 e 300 pessoas por dia, o que todo mundo está celebrando como se fosse muito pouco, mas são 200 a 300 pessoas por dia. Se vai zerar ou não, a gente não sabe, mas tomara que sim. Mas pode ser que não. E pode ser que a gente tenha que conviver com o covid por muito tempo, como a gente convive com a gripe, usando vacinas que são modificadas ano a ano. 

O que eu acho que a gente precisa ver é que essa situação de grande crise ela é uma oportunidade de entender que é preciso mudar o jeito de viver. Se nós tivermos em um planeta que a saúde é para poucos, não vai ter saúde para ninguém. A pandemia, ela é uma demonstração evidente disso. O mundo só tem 2.750 pessoas que são bilionárias, é um grupo pequeno de pessoas, não enche a Fonte Nova. Se um número comparável de pessoas entre esses bilionários se irmanar de verdade com a população humana, a gente sai dessa situação muito fácil. 

Diante desse contexto, o que ainda precisa ser feito? 

Se essas pessoas mais ricas tivessem colocado a mão no bolso e investido um pouquinho desse dinheiro em vacina, a gente já tinha vacinado todo planeta homogeneamente e não tinha deixado as variantes evoluírem. Então, a gente tem uma questão aqui que é sobre ética. A ética do cuidado versus a ética da competição. Infelizmente, nesse momento de crise, os bilionários do planeta, em sua maioria, com honrosas exceções, resolveram competir mais ainda e ficaram ainda mais ricos e as pessoas pobres ficaram ainda mais pobres. Tinha 800 milhões de pessoas passando fome no mundo no início da pandemia, hoje tem 20 milhões a mais e não menos. Se continuarmos nos rumos atuais, os riscos ficarão cada vez mais ricos, os pobres ficarão cada vez mais pobres, a saúde e educação serão cada vez mais privilégio de poucos. E aí, é um futuro bem feio, um futuro meio 'Mad Max'. 

Agora, isso não aconteceu ainda, não precisa acontecer. Estamos com um problema de alinhamento entre práticas e ideias. Se todo mundo no Brasil que se diz cristão, de fato, agir conforme o novo testamento, ora, a gente sai então rapidinho dessa situação atual de desigualdade. E a pandemia veio nos mostrar que é possível. Muita gente veio falar que ah, mas o capitalismo não para. Bom, parou. Então, já que parou vamos organizar a casa? Acho que essa é a proposta. 

As crianças têm contato com computadores, smartphones, telas sensíveis ao toque cada vez mais cedo. Quais são os efeitos disso no desenvolvimento da mente humana? 

Se a gente souber responder essa pergunta com sabedoria nos próximos anos, a gente vai entrar em um caminho muito bacana para a humanidade, mas se a gente responder errado, pode ser bem trágico. A nossa relação com as telas hoje em dia, é uma relação de dependência. Nós, adultos, adolescentes e crianças estamos bem viciados em telas. Tá todo mundo com uma dificuldade muito grande de não olhar o tempo todo, a mídia social, as notícias. Isso é compreensível, elas foram desenhadas para sequestrar o nosso sistema de recompensa e punição dentro do cérebro. 

É um sistema, um conjunto de áreas cerebrais que utilizam a dopamina, um neurotransmissor específico para sinalizar uma coisa que a gente quer, uma recompensa e quando a gente não consegue, a gente tem uma punição. Você quer um like e quando você fica feliz porque está ativando, está liberando essa dopamina lá dentro do cérebro e dizendo para você 'poxa, legal'. 

Não é a toa que as crianças já sabem usar essas máquinas porque elas foram desenhadas para isso. Agora, eu acho que a questão aqui, diz respeito, assim como em outras dependências, a moderação. Tem haver com a dose, a frequência. A  Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza um máximo de tempo para diferentes faixas etárias. Então, bebês, deveriam ser poupados de qualquer contato com as telas porque tem muitos estímulos que não são poupáveis em tela para se desenvolver. 

Depois de um certo tempo, uma criança de cinco, seis, sete anos, ela pode ter mais algum contato com a tela, até meia-hora por dia. Depois,  é uma outra idade. 10/ 12 anos? Duas horas por dia. Só que não é isso que vemos hoje filhos, netos estão aí em 10, 12 horas por dia. Então, eu acho que a gente tem que discutir a dose. Vamos falar sobre uma dose mais baixa para a criança ter tempo de brincar, de correr, andar de bicicleta, ouvir música, jogar, de olho no olho. Porque senão, a gente vai ter um problema de apatia que, na verdade, já está surgindo.

Dá para evitar essa digitalização tão precoce das pessoas? 

A gente deveria demonizar as telas? Acho que não porque o audiovisual é muito legal, muito impressionante, bacana e educativo. Precisamos discutir o conteúdo, a qualidade do conteúdo e, mais uma vez, insisto na dose. Se a gente encontrar a dose certa e tiver uma curadoria bacana desse conteúdo para que ele seja realmente enriquecedor, é claro que as novas gerações vão se beneficiar muito disso. Quando a gente era criança, só tinha dois ou três canais na televisão e não eram muito bons. Hoje em dia tem muito mais opções. Agora, uma criança ficar o dia inteiro do momento que acorda até o momento que dorme em uma tela, a gente nem precisa de estudos científicos para perceber que isso é um problema.

Visite o site http://bit.ly/agendabahia21 para conferir mais informações sobre o projeto. O Agenda Bahia 2021 é uma realização do CORREIO, com patrocínio da Unipar, parceria da Braskem, apoio da Sotero Ambiental, Tronox, Jotagê Engenharia, CF Refrigeração e AJL Locadora e apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, Sistema FIEB, Sebrae, Rede Bahia e GFM 90,1.


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