‘Sou delicado por natureza’, diz Gilberto Gil

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05.02.2020, 06:00:00
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

‘Sou delicado por natureza’, diz Gilberto Gil

Cantor conversa com o CORREIO, em sua casa, sobre afeto, velhice e o show que apresenta sexta (7), na Concha

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É só dizer que o entrevistado será o cantor Gilberto Gil, 77 anos, para escutar diversas pessoas mandando aquele abraço para o artista conhecido por sua gentileza e afeto. A fama se comprova pessoalmente, quando Gil recebe a equipe do CORREIO em sua casa, no Corredor da Vitória, para conversar sobre a turnê Ok Ok Ok, que chega à Concha Acústica do Teatro Castro Alves na sexta-feira (7), às 20h.

“Você está barriguda!”, sorri Gil, com sua voz doce, antes de abraçar a repórter grávida de seis meses. Delicado por natureza, em suas próprias palavras, o cantor chega de mansinho e todo de branco no ambiente cheio de árvores e passarinhos. Com o ar sereno, conversa sobre o disco afetivo que volta a apresentar em Salvador e que chegou a chamar de “atestado de vida”, já que fala de temas como velhice e morte com leveza.

Resposta às dores e incertezas que ficaram mais fortes ao ser diagnosticado com insuficiência renal, em 2016, o álbum reflete o atual momento do artista. “Agora é que a velhice está se instalando propriamente”, constata o cantor que chegou a fazer 200 shows em um ano, mas diminuiu consideravelmente o ritmo.

No papo descontraído, Gil fala sobre as vantagens da idade, como “o apaziguamento com a quietude, o que na juventude é um esforço”, confessa que sente falta das praias de Salvador, conta como será seu Carnaval e fala sobre a carreira artística que segue se refazendo entre seus filhos e netos.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Além disso, o ícone da MPB revela o que mais gosta de fazer quando vem à capital baiana, fala sobre a situação da cultura no Brasil e explica a origem de tanto carinho que recebe: “Tenho com vocês [jornalistas] cuidados afetivos que talvez não precise ter com outras pessoas. Mas em geral, sou assim. Sou muito delicado por natureza, muito manso por natureza”. Confira.

Nessa época do ano, a gente vê que muitos artistas da terra voltam para passar uma temporada em Salvador. Caetano, Bethânia... Você também aproveita o Verão para passar um período maior por aqui?
Venho frequentemente a Salvador durante o ano e também no Verão – que era quando antigamente eu podia ficar no Porto da Barra e reservava o período pra ficar basicamente em Salvador. Mas hoje em dia já não consigo tanto. Por exemplo, vim pra cá logo depois do Natal, fiquei 15 dias, voltei para o Rio, cheguei anteontem e domingo já volto para o Rio. Tenho que ir para preparar as coisas da excursão para a Europa em junho, tem ainda a gravação do Ok Ok Ok na Dinamarca, em março... Então é muita coisa. Além disso, a frequência às praias ficou mais difícil.

Sente falta?
Sinto falta do banho de mar, do sol, do picolé (risos). De tudo. Da água de coco, da companhia de amigos...

Se arrepende da vida que não te deixa fazer as coisas?
Não, é parte da velhice. É um dos aspectos fundantes da velhice.

Ok Ok Ok fala sobre velhice, morte e você chegou a citar que é como um “atestado de vida”. Antes do disco, a velhice chegou a ser tabu?
A velhice? Não, ela está chegando. Agora é que ela está se instalando propriamente. São 77 anos de idade, 78 agora em junho, já posso considerar a idade da velhice. Para uns, a média é por aí. Para outros, talvez um pouco mais prolongada. A gente nunca sabe. Eu estava pensando ontem sobre as vantagens e desvantagens. São muitas: o apaziguamento com a quietude, por exemplo, porque a quietude na juventude é um esforço.

'Na velhice, o alvoroço mental começa a diminuir muito. E o físico, então, nem se fala. Já não dá pra sair por aí, gastando suor (risos)'

E mesmo assim você vai enfrentar essa maratona na Europa. Como aguenta?
Aguento porque é tudo muito sistemático, tudo provém de um treinamento ao longo de 50, 60 anos na vida. Tem um condicionamento que você vai aprendendo, vai adaptando o envelhecimento aos novos ritmos. Antigamente eu fazia 150, 200 shows por ano. Na época do Refazenda [disco lançado em 1975], fiz 220 shows em um ano. Mas no ano passado eu fiz 60. A desvantagem é que você passa a ter muitas restrições em relação à mobilidade. Os cuidados com a saúde passam a ser mais exigentes.

Você disse, certa vez, que a morte aparece como assombração de vez em quando...
Antigamente mais ainda. Aparecia como uma coisa assustadora: ‘Vai acabar a vida’. Aquilo desestabilizava o fluxo da mentalidade, mas isso também vai diminuindo com a velhice. Vai chegando uma certa conformidade. Tem uma frase que eu uso desde jovem: ‘A conformidade, conforme a idade’. A idade exige coisas que você não pode negar.

Há muito afeto no disco, que traz seu lado avô e bisavô. Queria que falasse sobre essa unidade familiar.
Foi construída uma unidade na diversidade, porque são filhos de três casamentos, dois do primeiro, três do segundo e três do terceiro. Ao mesmo tempo, a Flora [Gil] teve papel importantíssimo na unificação da família, no apaziguamento permanente dos humores familiares, através de uma intensidade de relacionamento sempre mantida entre os irmãos. Os netos foram chegando no mesmo plano, então eu gosto.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

O que acha dos filhos e netos seguindo seus passos?
Isso também vai fazendo com que eles cresçam, passem a ter vida própria. Alguns vindo se juntar profissionalmente à direção do pai, intensificando-a, como é o caso do Bem [Gil], meu filho que hoje se encarrega de muita coisa da gestão musical, da curadoria. Tem um interesse profundo pelo meu trabalho, é muito culto em relação a Gilberto Gil.

Essa coisa dos filhos crescerem e assumirem suas vidas desafoga o campo das responsabilidades, passa o bastão. Os netos, então, nem se fala. Acho que é o único aspecto que poderia concordar com o fato de uma nova juventude na velhice: os netos são imperativamente juvenis. O acompanhamento em relação à perda da inocência é uma coisa que nos envolve, estimula. Costumo dizer que filho se educa a vida inteira. Neto, então... (risos)

Diante de sua experiência de vida, como artista e como ministro, qual é a leitura que faz sobre o cenário atual da cultura?
A liderança desse grupo que assumiu o poder no Brasil sempre foi muito avessa a tudo o que sinto e penso. A formação do grupo ao lado dessa liderança também é de gente muito parecida, que tem uma visão de mundo distante da minha.

Acredita que esse cenário vai mudar?
Claro. O que é que não muda nessa vida? A mudança é a única constante da vida. Agora, a mudança não pode ser encarada apenas como uma coisa por vir, ela requer ação humana. Então fica a questão: o que fazer para que as coisas mudem? Aí é o campo da política e da própria vida cultural. Tudo o que queira representar um impedimento, um refreamento desse jorro cultural é sem futuro. Acelera a mudança.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Como vai ser seu Carnaval?
Quase nada, por várias razões, como a própria questão da energia, do dispêndio físico. Não consigo mais perder noites adentro. E o assédio no Carnaval se intensifica, porque são aglomerados humanos maiores, muito mais ávidos pelo desfrute das personalidades. Então fica muito difícil.

E a tradição do Gandhy?
Não sei, nem isso talvez...

Quais coisas mais gosta de fazer em Salvador?
O Porto da Barra é uma delas. A praia de Armação, as praias em geral, que já não faço mais, não tenho como. Outras ainda faço, eventualmente: passear na Península [de Itapagipe], na Ribeira, na Baixa do Bonfim e ver a Igreja, ir no Santo Antônio, onde morei, passei a adolescência toda e ainda vou muito. Até porque muitos amigos passaram a morar no Carmo, que era um lugar bucólico e hoje é um polo de atividades culturais.

Sempre que alguém diz que vai te entrevistar, a reação é unânime, cheia de afeto e carinho por você. A que você atribui isso?
Ao tipo de relacionamento que se dá entre mim e as pessoas, especialmente jornalistas que vêm com questões em relação à minha vida, minha pessoa, meu ofício. Então, são pessoas com quem tomo cuidado pra conversar. Tenho com vocês cuidados afetivos que eu talvez não precise ter com outras pessoas. Mas em geral, eu sou assim.

'Sou muito delicado por natureza, muito manso por natureza. Então acho que é isso que acaba determinando o padrão do sentimento dessas pessoas em relação a mim'.

Serviço
O quê: Gilberto Gil no show Ok Ok Ok
Quando: Sexta-feira (7), às 20h
Onde: Concha Acústica do Teatro Castro Alves (Campo Grande)
Ingresso: R$ 120 | R$ 60 (arquibancada) e R$ 240 | R$ 120 (camarote). Vendas: no TCA; SACs dos shoppings Barra e Bela Vista; ou Ingresso Rápido.

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